terça-feira, 28 de abril de 2015

IF / Rudyard Kipling

If—

By Rudyard Kipling 1865–1936 Rudyard Kipling
(‘Brother Square-Toes’—Rewards and Fairies)
 
If you can keep your head when all about you   
    Are losing theirs and blaming it on you,   
If you can trust yourself when all men doubt you,
    But make allowance for their doubting too;   
If you can wait and not be tired by waiting,
    Or being lied about, don’t deal in lies,
Or being hated, don’t give way to hating,
    And yet don’t look too good, nor talk too wise:

If you can dream—and not make dreams your master;   
    If you can think—and not make thoughts your aim;   
If you can meet with Triumph and Disaster
    And treat those two impostors just the same;   
If you can bear to hear the truth you’ve spoken
    Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
    And stoop and build ’em up with worn-out tools:

If you can make one heap of all your winnings
    And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
    And never breathe a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
    To serve your turn long after they are gone,   
And so hold on when there is nothing in you
    Except the Will which says to them: ‘Hold on!’

If you can talk with crowds and keep your virtue,   
    Or walk with Kings—nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you,
    If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
    With sixty seconds’ worth of distance run,   
Yours is the Earth and everything that’s in it,   
    And—which is more—you’ll be a Man, my son!
 
Source: A Choice of Kipling's Verse (1943)
 

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Sobre a democracia

Foi a propósito de nada.
Perguntei-lhe - sem que a resposta me interessasse verdadeiramente, porque já a sabia: "o teu país é uma democracia, não é"?
Com um ar vago, ligeiramente divertido, mas também desconfortável, devolveu-me outra pergunta: "Democracia... O que é isso"?
Sem pensar, e confesso que sorrindo, retorqui numa penada, confiante que se tratara apenas de um problema de comunicação: "aquele sistema em que as pessoas votam e elegem os Governos e os Presidentes, etc....".
Com mais rispidez, respondeu-me prontamente: "Eu sei lá".

O normopata era certamente eu.
Acontece.


Os deuses devem estar loucos...

... mas gosto disto. And I don't really care.


quarta-feira, 22 de abril de 2015

sábado, 18 de abril de 2015

Can you bring politics back? (VIII)


Can you bring politics back? (VII)


Can you bring politics back? (VI)


Can you bring politics back? (V)


Diário de um normopata (IV) (e ainda: "can you bring politics back?")


Believing
 
They say you should "believe". And you sometimes do.
You know that "believing" makes you kind of special. So you do "believe".
They say you should "believe" in change. So, sometimes, you do.

The disappointment brings you back to real life. And then...
You find out that becoming a normopath may save you - from yourself, of course.

HDF
 
 

Can you bring politics back? (IV)




Can you bring politics back? (III)



Can you bring politics back? (II)


Can you bring politics back? (I)



sexta-feira, 3 de abril de 2015

Como quer que seja



Dizem-me que chegarás num barco voador vindo de Hong Kong.
E dizem-me – e eu sei – que não poderei esperar-te no cais porque, à conta do que deve e tem de ser feito, só quem embarca o pode pisar.
Suspeito que só seja assim mercê de uma renovada e secreta conspiração, cujo desígnio é privar-me de mais esse gosto, tal como sucede com outros, e sem que eu perceba, como quase sempre, a verdadeira razão por que tenha que ser assim.

Que hei-de eu dizer-te?
Dir-te-ei que, como quer que seja, estarei nesse cais. À tua espera, ou, se preciso for, a embarcar dele, noutro barco voador, assim tu o queiras. Mesmo que tardes.

Dizem-me porém que o cais, afinal, não existe e que só eu acredito nele.
Talvez.
Mas, como quer que seja, pouco importa. Será nesse cais que te esperarei, ou será dele que partirei. Insistentemente, sem que haja tempo nem regra que o possa fazer exaurir-se.
 
Não significa isto que será de certeza como agora o digo. Mas é certo – isso sim – que, se nisto pudesse haver certezas, o mesmo cais não se ergueria, invencível, sobre um rio que, aliás, é de águas turvas. E isso – digo-to eu – é mesmo assim. E como quer que seja.
 
HDF
 

Silva Lopes morreu

Em 2012, escrevi aqui sobre Silva Lopes:

http://arruadas.blogspot.com/search?q=silva+lopes

Descobri, hoje de manhã, que Silva Lopes morreu. Já chega de gente desta a ir-se embora de uma assentada. Até porque temos poucos.

http://krugman.blogs.nytimes.com/2015/04/02/jose-da-silva-lopes-rip/?_r=1

http://expresso.sapo.pt/morreu-silva-lopes-o-economista-gentil-e-e-preciso-dar-por-isso=f918366

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Mais sobre a chave da estética


"Eu não tenho a certeza se tu és a alegria ou se és a tristeza" (Estrela da tarde)

 
 
No poema de Ary dos Santos a que Carlos do Carmo deu a voz mais conhecida e ao qual não me atrevo a atribuir adjectivos (por não me ocorrer um com a magnitude necessária) - "Estrela da tarde" - há incontáveis peças de que não consigo escapar.
 
Uma delas, porventura a que prefiro, é a que descreve aquela tarde - em que "era tarde, tão tarde" - como aquela em que também "eu entardecia".
 
Mas é a chave da estética que, a mais do muito que sobra, está presente naquelas palavras.
 
Não se trata propriamente (só) do belo mas, verdadeiramente, do que é sublime - dessa diferença na qual pretendeu Kant, logradamente ou não, buscar a prova da existência de Deus.
 
Os alemães falam em Schadenfreude para significar o contentamento que se nutre do infortúnio dos outros (o "harm-joy" anglosaxónico não tem a mesma força). Nunca percebi porque é que Schadenfreude não traduz, antes de mais, o contentamento com o infortúnio do próprio sujeito que desse sentimento experimenta.
No poema de Ary, é esta última dimensão que (também) está presente: há um contentamento - e, logo, uma alegria -, sentida na primeira pessoa do singular, com aquilo que de triste experimenta o mesmo sujeito. Ora, é esse limbo que faz do belo... sublime: essa contida tensão trazida pelo paradoxo e pela antinomia ("naquela triste e leda madrugada").
Digo que é esta a chave da estética - o mesmo limbo. Na música, na pintura, na poesia, e no que mais houver: uma tristeza que, por ser tristeza, se faz feliz. E que faz feliz.
 
 
 

quarta-feira, 25 de março de 2015

As Beiras

Quando Clara e António Alçada foram avisar Herberto do Prémio Pessoa

Em dezembro de 1994, Herberto Helder foi o escolhido pelo júri do Prémio Pessoa. Mas ninguém tinha o telefone do poeta nem sabia bem onde o encontrar. Dois membros do júri, António Alçada Baptista e Clara Ferreira Alves, partiram de Seteais, onde a reunião do júri do Pessoa decorre todos os anos. Foram à procura do escritor, com uma única pista: o nome da rua. O relato desse encontro foi publicado pouco dias depois no Expresso, em dois textos separados. O Expresso republica os textos de António Alçada e de Clara Ferreira Alves, que recordam o encontro extraordinário com um dos maiores poetas da língua portuguesa, que morreu segunda-feira.
           
Quando Clara e António Alçada foram avisar Herberto do Prémio Pessoa
 
"NÃO DIGAM A NINGUÉM"TEXTO DE ANTÓNIO ALÇADA BAPTISTA  
Foi assim: ninguém tinha o telefone do Herberto Helder, eu só sabia o nome da rua porque tenho muita dificuldade em decorar números. Foi então que a Clara propôs irmos à procura do poeta na rua que eu tinha. Só havia dois prédios de habitação. Um deles, era quase uma torre e tinha um painel de campainhas. A Clara tocou uma delas, ao acaso. Daquela gradinha de rede veio uma voz. "Quem é?". A Clara perguntou se era da casa do poeta Herberto Helder. "Mas quem é?". Ela disse o seu nome. Então a porta abriu-se e nós subimos. A Olga estava à entrada da casa. Eu gosto muito da Olga, primeiro por ela e depois porque nos toma conta do Herberto. Digamos que ele faz parte do nosso Património e ela é a Conservadora. Eu disse-lhe baixinho: "Olga, o Herberto ganhou o Prémio Pessoa, são sete mil contos.
"Como é que isto vai ser?"
Ela fez-me uma cara de conformação e só com um gesto de cabeça fiquei a saber que não iria aceitar.
O Herberto estava na sala. Falou à Clara e depois a mim.
Eu disse, meio a brincar meio a sério: "Vimos numa difícil missão..."
Ele, com toda a simplicidade dele, disse-me logo que não, calculando que era um prémio.
Não foi possível demovê-lo e sentimos que aquilo era tão fundo e tão importante que não devíamos insistir. Ele disse:
"Vocês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro... "
"Não pode ser, o júri escolheu-te a ti, a decisão está tomada; respeitamos que digas que não... "
Ele ainda acrescentou:
"Peço que vocês sejam meus mandatários e digam ao júri que eu agradeço mas não posso aceitar"
Eu queria transmitir bem que não havia aqui nenhuma arrogância: a sua recusa não era contra ninguém. Era uma decisão do seu mais íntimo, que logo nos mereceu o maior respeito. Eu só lhe disse: "Eu já gostava de ti e vi agora que é possível ainda gostar mais..."
A Clara falou muito com ele porque ambos gostavam de se conhecer. Ela sabe fazer conversas inteligentes como se fossem banais. A certa altura viemos embora com alguma comoção por dentro e desabafámos no carro.
"Já ninguém faz isto... "
"Todos ganhámos este prémio. Quando a regra é a procura de dinheiro, é bonito que um homem pobre dê exemplos assim. "
Eu, confesso que passou pela cabeça de um bocadinho de mim que ele pudesse aceitar o prémio. Sempre eram sete mil contos. Talvez uma segurança até ao fim da vida. A verdade é que quase me apeteceu voltar atrás e pedir-lhe desculpa por este "mau pensamento". Mas eu era um homem feliz: o Herberto não nos deixou ficar mal...
 
 
LOUVOR E SIMPLIFICAÇÃO DE HERBERTO HELDERTEXTO DE CLARA FERREIRA ALVES  
"O dinheiro fazia-me jeito, estou a precisar de um helicóptero", diz o Herberto. Para as viagens ele utiliza - que seria de nós sem um cómico "cliché"? - as asas do poema. E no passeio em frente à casa, onde o António Alçada e eu medimos os passos em volta do poeta, é proibido aterrar. É não. Por razões pessoais e secretas, a pessoa recusa o Prémio Pessoa.
Há uma regra de senso nestas coisas da literatura. Nunca conhecer de perto quem se admira muito. Nos idos de 60, este senhor publicou Os Passos em Volta, que é uma prosa de diamante, clara e dura, eterna. E havia a poesia, ouro garimpado com esforço, separando as palavras da terra que as enlameia, da pedra que as confunde, da corrente que as arrasta. Quase ninguém tem paciência e braço para tal trabalho de homem, a tempo inteiro, mal remunerado. Como diz o António. "Tem um preço, ser o Herberto Helder".
Sete mil contos não chegam.
A casa é pobre, de quem cuida mais dos versos que de si mesmo. O monte de papéis, os livros à beira do abismo, os desenhos na parede, o costume. Os escritores ora são desabridos ora desarrumados. O que não são é desprendidos. O escritor respira a contemporaneidade e aspira à posteridade, sabendo que para ter a segunda precisa da primeira.
Este senhor desprendeu-se. Os elogios caem-lhe das mãos, a notoriedade explode-lhe na cabeça. Enfim, "não quer dormir sobre o assunto? Este prémio não é um prémio literário, etcétera".
Ele quer falar de tudo menos de prémios. Ou de dinheiro. "Seria vil eu aceitar por causa do dinheiro". Diz as palavras como se estivesse a compô-las, Vil é uma palavra escolhida, serve para a ironia e a seriedade, embora o substantivo seja a especialidade do Herberto.
O António Alçada e eu demos mais uns passinhos em volta... Não? NÃO.
Partíramos de Seteais buscando um homem, como Diógenes, e tínhamo-lo encontrado. O António arrumou as emoções e, composto na frase: "Sabes que te digo? Ainda gosto mais de ti por causa disto."
Batemos para Sintra, por uma estrada sem mistério, ruminando o mistério das palavras e dos que ainda as escrevem.
Foi um prazer conhecer a pessoa do Herberto.


Ler mais: http://expresso.sapo.pt/quando-clara-e-antonio-alcada-foram-avisar-herberto-do-premio-pessoa=f916640#ixzz3VMHhHZwA




quinta-feira, 19 de março de 2015

Damian Salazar na Recoleta

Já andei pela Recoleta, em Buenos Aires. Teria valido a pena ver Damian Salazar.


segunda-feira, 16 de março de 2015

Diário de um normopata (III)

 
Eram 8h32. O despertador só estava programado para o despertar às 9h15, mas agora acordava sempre antes daquele apito insuportável - como nunca sucedera outrora: havia até tempo para, quando a leitura do jornal o não distraía o suficiente, calar antecipadamente o lembrete estridente, remarcando-o para a manhã do dia seguinte.
 
Numa renovada rotina, seguía-se uma banana a servir de pequeno-almoço e um café numa chávena que dizia "LOL", o que funcionava como uma espécie de troféu daquela tão ambicionada normopatia - uma vida nova e desconhecida, mas sempre repetida.
 
Havia, em seguida, a dança da poupança de energia: metodicamente, desligava agora sempre a luz da sala maior (por onde acabava por fazer um curto périplo, também ele rotineiro, a fim de se aperceber do tempo que fazia lá fora, para poder decidir o que vestir) antes de acender o aquecedor da casa de banho. Não havia poupança de energia que se visse, mas a convicção de que a medida assim tomada era racional enchía-o de um certo contentamento - até pelo facto de a ver como uma obrigação, cujo cumprimento era ligeiramente incomodativo.
 
A seguir, o banho da manhã fazia-o pensar, por vezes, no significado destas novas rotinas. E, de vez em quando, deixava escapar um sorriso divertido a propósito delas, que não deixava de ser de escárnio por uma certa alienação que sempre teve pouco que ver consigo e com as suas manhãs.
Corrigia, porém, imediatamente o desvio, pensando rapidamente que não podia pensar no que pensava (ou deixava de pensar) naquelas novas manhãs.
 
Com a certeza, claro, de que, amanhã, haveria mais. Sem surpresas, evidentemente.

 

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Diário de um normopata (II)



Experimentei, outra vez, a velha "vénia de nariz", que repeti mil vezes: em rigor, desde que me lembro de existir.
Só que, desta vez, não estava em Coimbra.
É, de facto, espantoso como a "vénia de nariz" só funciona em Coimbra. Nas outras partes do mundo, não há esta irmandade congénita da "vénia de nariz".
Depois de ter lido em Daniel Abreu (em qualquer coisa sobre vinhos e Figueiró dos mesmos) que só em Coimbra o cumprimento - mesmo entre praticamente desconhecidos - se faz com uma "vénia de nariz" e de me ter reconhecido na descrição, tentei hoje a "vénia de nariz" (com tudo o que lhe é próprio: o quase imperceptível reclinar de costas em diante e o ligeiro, mas ostensivo, afundar do nariz, seguido do retorno imediato à posição anterior) em outras paragens. Falhei, obviamente. Não havia ninguém que pudesse retorquir, e a "vénia de nariz" pressupõe - e exige - uma comunhão de acenos. De nariz, claro.
 
O malogro nesta recuperação de um traço esssencial de uma certa normopatia longínqua fez com que me alegrasse pensando na hipótese de o reclinar de narizes fazer com os que os mesmos caíssem ao chão, no momento das tais vénias, desconcertando os intérpretes do habitual expediente.
Mas não. Os narizes não podiam cair. De facto, nem sequer faziam vénias.
Tudo normal, portanto. Para um certo descanso meu.
 
 

Diário de um normopata (I)



There´s something terribly wrong...
I can´t stop myself from laughing.


outra Estrela da Tarde: Mafalda Arnaulth


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Schengen

"Aqueles que abrem mão da liberdade essencial por um pouco de segurança temporária não merecem nem liberdade nem segurança" - Benjamin Franklin.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O "Podemos" de Pablo Iglesias: queremos ou não queremos?


Há várias diferenças entre o "Syrisa" de Tsipras e o "Podemos" de Pablo Iglesias. Mas há também vários pontos em comum: nos pressupostos ideológicos, na praxis de intervenção política e na capitalização da sua base social de apoio. Os dias finais da campanha de Tsipras ("não tenham medo") reproduzem o desafio mil vezes repetido por Iglesias: "não temam a mudança".
 
Confesso que - porventura erradamente (mas o futuro o dirá) - me interessa bem mais o "PODEMOS" espanhol. E há várias razões para isso: desde logo, a circunstância de que um "movimento" do género tem muito mais significado num país com o peso e a importância de Espanha no contexto europeu.
Por mais voltas que se dê, a Espanha não é a Grécia. E isso justifica que se olhe para Pablo Iglesias Turrión com atenção. Com a mesma atenção que me mereceu o facto de que Iglesias estava ao lado de Tsipras no último comício do Syrisa - e num lugar de destaque, chamado ao palco para estar ao lado do líder grego.


Neste momento, as sondagens dizem que o "Podemos" se arrisca a ser a força política mais votada em Espanha.
 
Há algo, a meu ver, essencial quando se trate de formar uma opinião sobre Iglesias. Porque se trata de perceber "quem é" e "o que vale" um homem que faz da afronta a sua pedra toque, é impossível bastarmo-nos com análises de outros, ou com discursos indirectos (muitas vezes) requentados, para percebermos quem (e o que) está em causa. É preciso ouvir Pablo Iglesias - ele mesmo - e vê-lo: ver como age e como se comporta.

Foi isso que tentei fazer porque, hoje, isso é muito fácil: há horas e horas de Pablo Iglesias disponíveis na internet - em discurso directo, ao vivo e a cores.

Comecemos pela apreciação - forçosamente subjectiva - que faço do homem.

Pablo Iglesias é, indubitavelmente, muito inteligente. Professor da Universidade Complutense de Madrid, formado em Direito e especializado em Ciência Política, sabe muito bem o que diz e, sobretudo, como diz.
Há nele as virtudes encantatórias do bom orador - sabe falar a uma audiência, convence mesmo quando os argumentos têm pés de barro, entusiasma-se nos momentos certos e bebe de convicções que facilmente seduzem. Pablo é um líder, ponto final. E um líder moderno, porque sendo teimoso na argumentação, tem uma aparente calma olímpica para ouvir os outros (malgrado, na verdade, não os ouça) e sabe usar a arma do populismo (que cavalga com inteligência, por saber que depende dele) como um mestre.
Há outras coisas em Pablo que são importantes nos dias que correm (não vale a pena enterrar a cabeça na areia): Pablo tem bom aspecto e é magnético na voz e na postura. Usa piercings quando pode e uma gravata distendida quando precisa. É jovem e transmite uma força escassa nos dias que correm: ele - pelo menos aparentemente (e a imagem, hoje, é quase tudo) - "acredita".

É preciso ter em vista que, em Espanha, o debate é muito mais agressivo do que, por exemplo, em Portugal. Mesmo nos programas de maior audiência dos grandes canais privados, berra-se a dicutir política e desferem-se golpes mortais nos adversários. Alguns dos jornalistas mais conhecidos, por exemplo, são chamados para os programas de debate e tomam partido: atacam verrinosamente os outros intervenientes e tentam partir para o massacre.

Foi neste contexto que comecei a apreciar Iglesias e a tentar percebê-lo.
As primeiras coisas que vi de Pablo Iglesias foi nestes debates (por exemplo, no "Sexta Noche"), sobretudo com Eduardo Inda e Alfonso Rojo. Mas mais: vi também os debates televisionados, em programas de grande audiência, com Esperanza Aguirre, do PP espanhol.
Há um traço comum em todos estes debates: uma superioridade avassaladora de Pablo Iglesias, sobretudo perante o mais insidioso dos adversários: Eduardo Inda.

Inda é um protótipo do jornalismo yuppie espanhol. Tem uma dentadura branca e reluzente, um cabelo impecável e geometricamente penteado, veste-se com fatos de bom corte e atira a matar. Mas perde em toda a linha perante Iglesias: no grotesco dos ataques e na violência dos argumentos pessoais - na antipatia da violência incontida.
Inda é a chave para perceber como não lidar com Pablo Iglesias e o seu populismo. É que - goste-se ou não - há um conteúdo programático defendido por Pablo. Há ideias e conceitos. E, por isso, não é possível tratá-lo como um mentecapto ou um esbilro de regimes populistas. É preciso discutir o âmago com ele e tentar demonstrar que não tem razão.
Eduardo Inda não faz nada disto: ataca Pablo pessoalmente.

Dou um exemplo (que também mostra as diferenças com Portugal): o "Podemos" elegeu cinco (!) deputados ao Parlamento Europeu nas últimas eleições. Todos estes deputados - incluindo, obviamente, Pablo - ganham o salário de um deputado europeu (cerca de 18 mil Euros). Mas amealham apenas cerca de 1.930 Euros desse pecúlio (cerca de três salários mínimos em Espanha) por mês (sendo o excedente entregue o obras de solidariedade social ou, salvo erro, ao financiamento do partido ou do "La Tuerka") e viajam sempre em "turística" nas suas deslocações a Bruxelas e Estrasburgo.
Deixando agora o populismo disto de lado (irei lá mais tarde), convenhamos que não se trata propriamente de apenas dizer que o ordenado de deputado europeu é um "escândalo" mas, mesmo assim, meter o tal ordenado no bolso (há exemplos disso por cá). O que me interessa agora observar é como Eduardo Inda ataca isto: impante, diz a Pablo que é da mesma "casta" que ataca porque "cobra" ("ganha", em espanhol) 18.000 Euros. Ou seja, segundo Inda é irrelevante que Pablo só amealhe para ele, efectivamente (e com provas que Inda não se atreve a pôr em causa), 1.930 Euros. Mais: segundo Inda, Pablo viaja, por vezes, em "executiva", pois é isso que "fontes" secretas lhe afiançam. Mas Inda não é capaz de revelar uma única dessas fontes, nem de mostrar uma única fotografia (e isso, com os telemóveis de hoje, seria muito fácil) que comprove o que afirma, perante a indignação - sempre segura e contida - de Pablo (que lhe diz, com toda a calma e firmeza, que "mente").



Isto não se passa só com Eduardo Inda - passa-se também com outros (Francisco Marhuenda é um exemplo mais soft) - mas serve de ilustração que demontra bem o modo flagrantemente errado como os opositores de Pablo, de estopada em estopada, o ajudam a agigantar-se. A única maneira de derrotar Pablo Iglesias é vencê-lo nos argumentos, discutir com ele o que vale a pena e pôr a descoberto alguns dos embustes ideológicos de que se serve. Respeitando-o, claro, porque, caso contrário, ele levará a melhor.

Mas vejamos sumariamente o que sustenta Pablo Iglesias, num país em que o desemprego (mesmo o desemprego jovem) tem números assustadores, onde a carga fiscal aumentou avassaladoramente nos últimos quatro anos, onde os níveis de evasão fiscal são bastante superiores aos da Europa "desenvolvida", onde grassam escândalos políticos e financeiros de corrupção (o deboche das "Cajas" é comummente focado), onde as tensões idependentistas (sobretudo a catalã) têm um peso muito significativo, onde o problema do terrorismo etarra nunca se pacificou definitivamente, onde a educação pública (sobretudo universitária) está cada vez mais cara e onde a emigração de quadros qualificados não tem parado de aumentar.

1. Pablo Iglesias começa por uma definição (não) ideológica essencial, de modo a abarcar todos: define o "Podemos" como um "movimento" (para ele, é fundamental este epíteto, claro) que não é de esquerda, nem de direita. Segundo ele, essa dicotomia não faz agora sentido: o que é preciso é resolver problemas.
Mas Pablo assume-se, pessoalmente, como sendo de esquerda (e nem outra coisa era possível).

2. Segundo Pablo Iglesias, o fundamental é eliminar a "casta". E por "casta" entende todos os que estão no poder, os que dominam o aparelho político, ao qual não podem aceder os "normais" cidadãos.
Para ele, o funcionamento da democracia está obliterado pelas "portas giratórias" que transportam os políticos dos seus cargos públicos para as grandes empresas privadas (o que personifica em variadíssimos exemplos, desde logo os de Felipe Gonzalez e Aznar, para cobrir todo o espectro político do poder).

3. Pablo é partidário, no plano económico, de uma política estadual "expansionista" e de "investimento". A única, segundo ele, que permite acalentar a certeza de um desenvolvimento sustentado e de cariz social: para ele, a educação e saúde públicas gratuitas são essenciais. Assim como é essencial evitar que os jovens espanhóis sejam formados para serem "empregados de mesa" dos povos do norte da Europa.

4. Defende também a "renda básica" e quantifica-a: 1.000 Euros de rendimento mínimo garantido pelo Estado para todos os que têm rendimentos inferiores.

5. Pablo não se furta a números: a despesa pública espanhola traduz-se em cerca de 46 por cento do PIB do país. No seu programa, a despesa deveria ascender a 50 por cento do PIB e, com isso, seria possível pagar tudo o que propõe.

6. Para combater o problema de evasão fiscal, sustenta que é absolutamente necessário formar mais inspectores tributários e dotá-los de instrumentos efectivos (técnicos e legais) para que possam actuar.

7. Os exemplos políticos que aponta são os da Venezuela Chavista (e, agora, de Maduro) e do Equador de Correa. A influência latino-americana é uma herança que, em Espanha, tem também um significado diferente daquele que, por exemplo, tem entre nós a lusofonia.

8. A inspiração da (sua) esquerda é demasiado forte para que condene a ETA sem tergiversar. E, quanto às aspirações catalãs de independência, diz apenas que, enquanto democrata, o futuro da Catalunha - pese embora gostasse de que continuasse espanhola - tem que ser decidido, livremente, pelos catalães.



Pablo sabe do populismo do que defende. E, nas entrelinhas, quase que assume que não tem outro remédio para que o seu projecto político possa ser um projecto de poder.
Isto é, para ele, fundamental: o "Podemos" não pode ser um projecto romântico e idealista, como o das esquerdas radicais europeias tradicionais. Tem que corresponder a uma ambição prática e operativa de poder - para que as coisas possam mudar.
Isto significa dizer, na prática, que, na sua inteligência, Pablo Iglesias sabe que usa do populismo. Mas assume-o como a arma política que um movimento com as características do "Podemos" se vê forçado a usar para combater a desproporção de forças com os poderes políticos instalados.

Ainda antes de uma apreciação do que Iglesias defende, um ponto de ordem: a diferença em relação a partidos como o BE português é abissal.
Se bem que o BE se congratule e procure colar-se aos êxitos do "Podemos" (e do Syriza) a diferença é substancial: o BE viveu sempre de uma cultura de anti-poder; o "Podemos" de Iglesias é um projecto de poder. Tem objectivos concretos, almeja governar, avança propostas do que quer fazer, arrisca números.
Guterres explicou um dia, no parlamento, a Louçã que o BE nunca seria mais do que nada porque jamais sairia da irresponsabilidade do anti-poder. Tinha razão, como o futuro demonstrou. E, de certo modo (ainda que, evidentemente com uma outra retórica), foi isso mesmo que Pablo Iglesias explicou aos bloquistas na sua última convenção nacional, para a qual foi a estrela convidada (a intervenção de Pablo também está disponível no youtube).

A). Sem especiais preocupações de ordenação, comecemos pela ideia da "casta".

Esta é uma ideia especialmente sedutora (com integral honestidade, falo por mim). Mas falsa, claro.
No fundo, é a tradução da velha ideia de que "são sempre os mesmos a mandar".
É uma ideia maniqueísta (há o "nós" e o "eles") que assenta numa generalização idiota. Pura e simplesmente, não é verdade que todos os que ascendem ao poder político o conseguem fazer por pertencerem a um certo "grupo". É muitas vezes verdade, mas nem sempre.
Quer em Espanha, quer em Portugal, há numerosos exemplos do contrário.
É certo que o passado recente mostra que pertencer a uma juventude partidária é condição quase sine qua non para, depois, mandar. Mas não é sempre assim. E mesmo os que nutrem profundo desprezo pelo estado actual dos partidos do poder ou pelas respectivas juventudes partidárias têm que admitir que ainda há mobilidade suficiente para que a competência política e técnica se afirme extra-partidos.
Dir-se-á: é muito difícil isto suceder. Mas esse é um desafio novo, que obriga os que escolhem um caminho diferente a serem ainda melhores e os obriga a não ignorarem as qualidades e competências que têm aqueles que conseguem, dentro da selva dos partidos, levar a melhor.

Gosto da ideia de "casta" quando ela tem que ver com a pura crítica a uma certa cultura do exercício de funções públicas com poder.
De facto, o exercício de funções políticas de topo deixou de ser um "fim", para passar a ser um "meio". Se for isto que o "Podemos" quer criticar quando fala das portas giratórias entre os gabinetes do Governo e das grandes empresas, posso compreender e estar de acordo. Sucede que este não é um problema só político, mas eminentemente cultural. E que se combate, ao contrário do que defende demagogicamente o "Podemos", com remunerações altas para os responsáveis políticos qualificados, em vez dos típicos baixos salários praticados no sector público em comparação com os altos cargos do sector privado.

Em Portugal, por exemplo, ninguém me consegue explicar para que é que precisamos de 230 deputados a ganharem "pouco" (se bem que possam - e mal - acumular, outras funções). Preferia metade (ou menos) dos deputados (até porque o carreirismo partidário perderia algum propósito, sem prejuízo para a representatividade proporcional), pagando-lhes uma remuneração avultada, que os responsabilizasse e elevasse, quase decerto, o seu nível médio de qualidade.

B). E o que dizer da recusa de uma definição do "Podemos" como sendo de "esquerda" ou de "direita"?

Consigo perceber qual é o objectivo de Pablo Iglesias: o alvo é identificar que, hoje, não há diferenças substanciais na praxis do PP e do PSOE (tal como, em rigor, essas diferenças praticamente não existem entre o PS e o PSD portugueses): o modo como exercem o poder é, basicamente, o mesmo e as suas culturas de poder acabam por ser, depois de feitas as contas, muito semelhantes (em Portugal, é aliás possível dar exemplos de governos de "centro-esquerda" que governaram mais "à direita" do que governos do "centro-direita" e vice-versa).

Olhada a prática e o discurso enquanto estão no poder (e é isso que interessa porque, na oposição, diz-se quase de tudo), não é possível discernir diferenças substanciais entre os partidos do poder, entre a chamada direita e a esquerda "moderadas". No momento do voto, tem-se tratado, fundamentalmente, de escolher pessoas (e de punir - e desinstalar - quem, ciclicamente, exerceu o poder). Só isso - o que é muito pouco.

Basta juntar a este estado de coisas a falta de horizontes, ou a ausência completa de esperança, de uma geração inteira que se considera com o futuro já "perdido", para que a eficácia de um discurso destes - como o de Pablo Iglesias - seja amplíssima. No fundo, nesta parte, o alvo não é dizer que "podemos" (ou que - como dizia Obama - "yes, we can"), mas satisfazer os que pensam "we don´t care anymore".

A verdade, porém, é que a dicotomia esquerda-direita não está morta. Bem ao contrário, o que ela precisa é justamente de ser rediscutida e refundada. À luz de hoje e do futuro.
Bem sei que é uma discussão difícil, à qual dá muito jeito escapar. Mas é essa que justamente releva: hoje e amanhã, mais do que nunca, interessa redefinir o que é a esquerda e o que é a direita.
E é aqui que entra uma das burlas de Iglesias.
Ele sabe disto muito bem - não há nada que o interesse mais do que este combate ideológico. E é tão de esquerda que, a título pessoal, não lhe passa pela cabeça negar a sua filiação ideológica. Sucede que tenta negar a filiação ideológica do seu "movimento", que, sendo evidente - e por ser negada - passa a ser envergonhada.

Claro que para pescar votos em todo o lado - e num eleitorado deprimido e desmoralizado - convém dizer que não se é de direita, nem de esquerda: a massa de desempregados não quer saber, nas circunstâncias actuais, o que isso é. E compreende-se que assim seja.
O que já não se compreende - e aquilo que não pode aceitar-se - é que Pablo, que é inteligente, politicamente culto e esclarecido, se louve numa burla fácil de desconstruir: o "Podemos" é claramente de esquerda (como o seu líder, do qual mal se distingue) e basta olhar para as medidas que defende e se propõe tomar para que essa conclusão seja tirada facilmente.

Entre esquerda e direita - mesmo na recompreensão que há que fazer delas - não há como fugir à preferência pela igualdade ou pela liberdade. Quase tudo o que Pablo e o "Podemos" propõem é um apelo a uma maior igualdade, ou, antes, a promessa de um combate sem tréguas à desigualdade (combate à evasão fiscal dos mais ricos, por terem mais meios para fazerem planeamento fiscal; "renda básica" para todos; domínio público sobre os principais meios de comunicação social para "igualizar" o acesso à exposição pública; aumento das políticas "expansionistas" de investimento público e reforço das garantias de uma saúde e educação públicas universais e gratuitas; etc.).
Isto é de esquerda. E não há mal nenhum nisso. O único mal está em escondê-lo e em não o assumir. Populística e eleitoralisticamente, como bem se vê (para pescar votos em todos os quadrantes, numa opção verdadeiramente estratégica), o que, pesadas bem as coisas, significa também pertencer à tal "casta", tão constantemente repudiada por Pablo.

C). Não vou perder muito tempo a analisar a "renda básica" de 1.000 Euros para todos, que ficaria a cargo do Estado.
Nem subindo a despesa pública para 60 por cento do PIB (o que é impossível de ser feito), Pablo Iglesias conseguiria cumprir esta sua promessa aos espanhóis, a par das promessas quanto ao sistema nacional de saúde e da escola pública.
Bem sei que Pablo me iria retorquir com os países escandinavos. Mas mal. Primeiro, porque a Espanha não tem petróleo. Depois, porque nem nos países escandinavos é verdade que seja assim. E, por fim, porque os espanhóis.... não são do norte da Europa: não têm a mesma cultura (e, se calhar, ainda bem); não trabalham da mesma maneira (e, se calhar, ainda bem); não poupam na mesma medida (e, se calhar, ainda bem... para eles).

D). Faltaria uma análise ao problema da herança franquista, às posições tomadas quanto à ETA e ao separatismo catalão.
Não me sinto em grandes condições para a fazer porque não conheço suficientemente bem como estas questões são vividas em Espanha.
O que sei é que o lastro do franquismo em Espanha nada tem que ver com o que acontece, relativamente à ditadura anterior a 1974, em Portugal. As feridas não estão saradas da mesma maneira e muitas das clivagens em Espanha permanecem bem vivas: a guerra civil ainda não repousa no esquecimento e, por exemplo, continua  a haver ruas nas cidades espanholas baptizadas com o nome de heróis do franquismo (apesar de haver leis que o proíbam); o próprio PP, actualmente no governo, foi fundado por um homem que pertenceu ao regime de Franco (isso, cá, no pós-25 de Abril, nunca ocorreu).

Falo agora disto porque este me parece ser um contexto crucial (que não pode ser desligado da forma peculiar como se verificou, em Espanha, a transição para a democracia) para perceber o melindre com que o "Podemos" de Pablo Iglesias sabe que lida quando tem que tomar posição quanto à ETA militar e quanto à questão catalã.
De facto, um movimento do género em outro país (por exemplo, em Portugal) teria, no que a isto diz respeito, a vida bem mais facilitada, porque não teria de tomar posição quanto a tal.
O "Podemos" de Pablo Iglesias não tem a mesma sorte.
Por isso, e não podendo renegar a matriz esquerdista e anti-franquista da ETA, tem que poupar nos adjectivos quando condena o seu terrorismo (preferindo salientar que Aznar e Gonzalez sempre negociaram com a ETA) [Pablo Iglesias recusa-se, quando instado por Eduardo Inda, a repetir com este, numa cena televisiva épica, que "são assassinos"].
Quanto à Catalunha, Pablo diz apenas que prefere uma Catalunha castelhana, mas que os catalães têm o direito de escolher o que quiserem.

E). Queda apenas por comentar o incontido fascínio - assumido - pelo modelo da Venezuela Chavista. O que, de resto, me faz crer que a esquerda de Iglesias é um produto que facilmente degenera em totalitariamo.
Neste ponto, as dúvidas que eu ainda pudesse ter ficam desfeitas.
Não porque Pablo Iglesias tenha recebido financiamento - lícito e declarado - venezuelano (tal como Eduardo Inda lhe imputa). Mas porque o insuportável sectarismo político não pode defender o indefensável, nem tomar por modelo económico-político o que o populismo faz sempre: gostar tanto dos pobres, que os multiplica.

F). Em suma:
O "Podemos" de Iglesias (e não hesito em dizer que "pertence" a Iglesias porque, como todos os movimentos do género, faz-se à volta do seu líder: Juan Carlos Monedero não lhe é comparável) constitui caso muito mais sério do que o Syriza de Tsipras. Por várias razões.

A Espanha é um país muito importante da União Europeia e da Zona Euro.
O populismo de Iglesias é perigoso, porque Iglesias é um homem sagaz e acredita nele mesmo, sem se importar de usar, inteligentemente, a demagogia como arma, face a um povo incrédulo e sem esperança.
As referências (agora, é Maduro) e modelos de Iglesias fazem temer o pior.
E, em acréscimo, a Iglesias não parece importar o irrealismo do que, em matéria económica, advoga. O populismo é, para ele, só uma arma, e bem manejada.

Junta-se a isto um certo modus operandi - que Iglesias não renega - que faz recordar outros tempos e a forma de ascenção (também democrática) de outros regimes na Europa da década de 30: a prática do "escrache" (manifestações e perseguições populares em frente às casas dos políticos que tomaram decisões "contra o povo").

G). Em face disto, dir-se-ia que o melhor seria que o "Podemos" não existisse.
Não é verdade.
O "Podemos" é apenas o efeito. Não é a causa.
O "Podemos" é uma peça-chave do que é preciso que obrigue a uma refundação ideológica (sim, feita de direita e de esquerda): sem coisas como o  "Podemos" não é possível ver que o caminho não é este (aquele que o "Podemos" quer fazer vingar), porque não se acredita que haja quem, na grande Europa, com hipóteses de tomar o poder, o advogue.
E, claro, há coisas que o "Podemos" defende que é preciso lembrar quando se trata de inflectir a política europeia dos últimos anos: basta que o "Podemos" - por ter hipóteses reais de chegar ao poder - tenha contribuído para essa inflexão (por exemplo, para o Quantitative Easing) para que já tenha valido a pena.

Just my two cents.

27 de Janeiro de 2015

 

domingo, 25 de janeiro de 2015

O recente revés dos normopatas: o "quantitative easing".



Nos últimos anos, a normalidade exasperada e militante - patológica - é a maior enfermidade que grassa.
 
Falo daquela doença que acaba, quase sempre, da mesma maneira: com crianças estupradas e mortas na cave da própria casa, depois de 30 anos de escrupuloso cumprimento, à secretária, da mais ínfima "norma", sempre com as golas da camisa impecavelmente engomadas - "um brinco".
 
O "quantitative easing" é insuportável para esta gente.
 Desde logo, por ser um "easing" - um alívio.
 
A malta deve suportar as dores sem paliativos, atascada no trânsito de todos os dias: viemos ao mundo "para sofrer".
 
Estes normopatas acham magnífico que o homem que trabalhou 30 anos na City de Londres e que todos os dias, por meio de um expediente engenhoso, poupava, ilicitamente (!), algumas libras no bilhete do comboio que o conduzia, diariamente, ao trabalho seja implacavelmente punido. Afinal de contas, "mentiu". E ganhava perto de dois milhões de dólares por ano, por causa de uma carreira sem mácula, feita (também) com mangas de alpaca. Resultado, com aplausos de pé: despedido do emprego a que, afanosamente, se dedicava há décadas (sem queixas de nenhum cliente). E, claro, obrigado a indemnizar o Estado pela diferença em falta nos preços dos bilhetes de comboio. Com juros, evidentemente.
 
Isto passou-se em Londres. Mas a novidade é o aplauso eufórico da casta dos normopatas portugueses.
Dá direito a notícia no Expresso (em Dezembro) e a encómios nas caixas de comentários online. É uma espécie de repúdio pelo ser-latino e pela capacidade de improviso, o ataque à intuição, e a celebração de uma "normalidade" moral sem o mínimo desvio. É, enfim, a desproporção na sanção em todo o seu esplendor.
Melhor do que isto, só o culto da "eficiência" germânica - mas isso fica para depois, porque já não vende tão bem.
 
Para esta gente, o "quantitative easing" é, sobretudo, um pecado. É a renúncia aos sacrifícios que vinham purificando a "Europa". De certo modo, é a vitória daquele londrino do comboio.
 
Como os normopatas gostam sempre de dizer (puxando de um cigarro electrónico de que, ainda assim, se penitenciam, por terem feito jogging pela manhã), "eu explico".
 
Em primeiro lugar, a "Europa" não existe. Nunca existiu. Foi uma abstracção vossa, tal como historicamente se comprova. E, por um lado, ainda bem: não é esta "Europa" que se quer - frouxa e indecisa, uma graçola política, feita de líderes de trazer por casa.
 
Mas há coisas boas: Schengen, por exemplo. E sobretudo, uma coisa já velha, chamada "modelo social Europeu" - que não veio da tal "Europa", mas que antes estava já subjacente aos que insistiram em sonhá-la.
Sim. Essa coisa de ter serviços públicos de saúde com alguma qualidade, para quase todos, a preços muito baixos para os que a usam. E ter escolas públicas em que se investiu durante décadas (geralmente mal, é um facto, mas com sincero denodo) para formar gerações mais sapientes e preparadas (no fundo, mais livres). E, sim, essa coisa de ter um sistema de segurança social para todos, ainda que pobrezinho.
Não vejo outra coisa que nos possa distinguir do modelo americano.
Se a isto juntarmos a velha ideia (que me é tão cara) de liberdade, estamos também afastados dos chineses, o que convém.
 
O modelo social europeu é o ADN da Europa. O único traço identitário que - a ter existido algum - ainda não soçobrou.
O problema é que não temos dinheiro para pagá-lo.
E é aqui que os normopatas enchem o peito de ar.
 
Os normopatas preferem, de facto, o equilíbrio "efectivo" do orçamento (o tal dos 3 por cento do PIB): todo o tostãozinho de dívida, seja para o que fôr que ela tenha sido contraída (não interessa sequer se foi para investimento, porque investir é só para os "privados" - os tais do BES, do BPN, da PT e afins), tem que ser pago com impostos (era o que dizia Adam Smith, que a maior parte desta malta nunca leu, porque a Riqueza das Nações, para eles, só começou em Tatcher e em Reagan).
O que sobrar de despesa - a tal saúde, educação, segurança social, etc. - tem que se "cortar". Isto, claro, acreditando que "reformas estruturais" vão resolver o problema daqui a cem anos: o mercado de trabalho (onde pululam os "recursos" e os "colaboradores") tem que ser "liberalizado", "flexibilizado" e "agilizado": um mundo de sonho - em que se saltita de nenúfar em nenúfar - até à "normalização" total.
Frequentemente, chamam-lhe "processo de ajustamento". O problema é que nunca acaba. Tal como a dívida. E a resignação.
O Estado, esse, fica apenas para "guarda nocturno" - como nos tempo de Adam Smith (e, já agora, David Ricardo). Como se, por exemplo, Musgrave nunca tivesse existido.
 
É aqui que o velho problema da liberdade (que também a eles, normopatas, lhes é pretensamente cara, embora só a pratiquem no banho da manhã) se adensa: como não há um mínimo de igualdade, porque fica sempre tudo (como que paretinianamente) na mesma, não há hipótese de haver verdadeira liberdade.
Com efeito, sem educação e saúde que possa chegar a todos, o caso fica mal parado: até a sacrossanta segurança se vê metida em apuros.
E depois chega a deflação, com a qual o pessoal não consome, nem investe, o que é aborrecido - uma verdadeira "maçada", não fosse a estagnação deflacionista a manutenção conservadora "do que está" e, portanto, qualquer coisa que só agrada aos que se safam sempre a traficar em kwanzas salpicados de piche.
 
Mas há mais.
Supostamente, é também sempre preciso aumentar a "competitividade", diminuir os "custos de produção" e aumentar a "mobilidade".
São chavões deliciosos.
E, outra vez pretensamente, com carácter "estrutural" - não são "paliativos"!
 
É com isto que chega ao fim o tal banho das manhãs. Com as calças pelos tornozelos, já se vê. E com a confiança cega de que o caminho que a tal "Europa" tem percorrido, nos últimos anos, um dia, iria chegar a algum lado.
 
Falta um detalhe.
Esta malta quer a "Europa" com uma moeda fortíssima (como até agora). A valer dólar e meio, se possível. E eu percebo: de três em três anos, os normopatas "tiram" uma quinzena na praia. E querem que o destino escolhido (sempre noutro continente, e para onde, normalmente, levam dólares em carteirinhas atadas na parte de dentro das cuecas para não serem roubados) continue a sair-lhes baratucho. Porque é preciso poupar, claro.
 
Não se trata de esquerda, nem de direita. Trata-se do que está "certo", dizem eles.
 
O problema é que não tem uma moeda forte quem quer. Tem uma moeda forte quem pode (é que aí, sim, a produtividade releva - e muito).
Esta é daquelas evidências que se aprende nos bancos das universidades públicas (as tais que custam dinheiro aos contribuintes);
 
O problema é que o défice do orçamento não tem que ser medido pelo défice "efectivo". Há despesa pública em investimento (a velha despesa de "capital") que, saudavelmente (sim, saudavelmente), pode ser paga com empréstimos (e, pasme-se, nunca se conseguiu - nem em Oxford nem em Harvard - provar que o investimento público é menos útil e "reprodutivo" do que o privado, mesmo que por essas bandas não conhecessem a magnífica história recente das grandes empresas privadas portuguesas....);
 
O problema é que o "regresso à macroeconomia" foi feito com Keynes e não com os amigos de Fukuyama: a história vai continuar - e imparavelmente.
Sem Keynes - note-se - que é para outros futebóis;
 
O problema é que -  se outros argumentos não houvesse - o que a "Europa" fez na última década valeu nada: por isso cresce zero e vive mal. Mesmo "cortando", "apertando o cinto" e visando o (tal) "estrutural". Que nunca chegou. Nem ia chegar.
 
Foi isto (e o último argumento já basta) que levou a esta viragem que os normopatas tanto lamentam.
 
Ninguém de bom senso acha que o QE vai ser a panaceia de todos os males. As panaceias para todos os males são para a malta que pratica a liberdade, moderadamente, só pela manhã. As panaceias são a conversa do "estrutural", do "poupadinho" - da cáfila da "mobilidade" e da "contenção de custos", mas que não se importa de negociar em kwanzas, malgrado a sua superioridade "moral".
 
O QE é uma esperança como qualquer outra. Sim, esperança, essa palavra proibida. Esperança de que uma certa Europa pode, afinal, existir. Mesmo que gaste. Mesmo que se endivide. Mesmo que falhe, a tentar sair do desastre em que se enfiou.
 
O QE é uma guinada em direcção à esquerda moderada (sim, a verdadeira "social democracia" dos livros de ciência política), depois de anos de imobilismo serôdio neoliberal. É o regresso possível à política (diz-se "economia política", lembram-se?), essa coisa que os normopatas tanto temem. Que vai precisar dos bancos, o que faz temer o pior. E que não se basta a ele - QE - sozinho, porque ao contrário do que pensa uma outra esquerda, não pode ser feito com um abrir de pernas aos gastos em tudo o que mexe (vide o deboche português de 2008-2011): é que, nisso, até os alemães têm razão. Tal como Obama - muito mais do que eles - também tem (e Stiglitz, para quem tiver a bondade de o ler).

Em suma:
 
Pode ser que seja um regresso à retórica. E à política: a uma certa ideia de Europa.
E que não vai depender - para ser uma esperança - do quanto se vai gastar, mas de como se vai gastar.
Alea jacta est.

 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O bailado da alma


Recebi-o ontem e li-o de um só jorro. Fiquei esmagado.
Abençoado hemisfério direito.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Fischer e a batalha perdida pela normalidade

Por causa deste post em Malomil (link), voltei a Fischer-Spassky, o maior jogo de xadrez de todos os tempos, (também) por não ter sido apenas um jogo de xadrez, como se vê magnificamente aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=jQPL7gZGoT4

Não creio, porém (e refiro-me ao post do Malomil), que Spassky seja (ou alguma vez tenha sido) um homem "normal": quando, no final do 6.º jogo contra Fischer, Spassky aplaude Fischer, mostra não o seu amor pelo xadrez, mas que, já na altura, travava uma batalha mortal com uma certa "normalidade", que entendia ter que se concretizar numa fleuma aflitiva.

Isso vê-se bem aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=YAyurhYHP6o

Talvez - já tão velho como Spassky - seja Korchnoy (que, lá está, nunca chegou a campeão do mundo) a melhor personificação de uma certa "normalidade" do génio, obviamente temperada por um inevitável cinismo conformado:

https://www.youtube.com/watch?v=z3k8o4B-tJI

E, claro, há Kasparov - o mestre do "equilíbrio vencedor". Deve ser a parte que me fascina menos - à excepção do "instinto" (que nunca esquece) - mas é certamente a que mais lhe rende.

https://www.youtube.com/watch?v=egAgvLgk848

Haja vontade.



quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Stevie Wonder's Clinic

Depois do post imediatamente anterior (Dave Weckl - "Higher Ground", num cover que, para mim, supera o original) (eis o link, por causa dos IPads: https://www.youtube.com/watch?v=4RS5RsSPssw )

fica a prova de que "superstition" não é para todos.
Por exemplo, vê-se aqui: um exemplo em que o cover de "superstition" não convence, mas em que, a seguir, há um cover triunfal de "Signed, Sealed, Delivered" (eis o link: https://www.youtube.com/watch?v=4ApHH39yI4c ):


Keith Karlock (bateria, em cima) é muito bom, e Jaffe (guitarra, em cima e abaixo) também - como se vê abaixo, só com temas de Stevie Wonder (link: https://www.youtube.com/watch?v=fwXY8edX6QI ):


Há muitas versões boas de temas de Stevie Wonder, incluindo de consagrados - um bom exemplo é a de "As (always)" de Gene Harris (link: https://www.youtube.com/watch?v=b20pX_9F8vI ):


E há até covers em que participa o próprio Stevie Wonder, como aqui (link: https://www.youtube.com/watch?v=EnMsZAVt-ZM&index=18&list=RDfwXY8edX6QI ):


Há tributos para todos os gostos na internet (mais um exemplo: https://www.youtube.com/watch?v=7YUvrwier-4 ):

 
 
Sendo que não deve haver melhor tributo do que este ( https://www.youtube.com/watch?v=MuJLcBMR9po ):
 
                                     
E jam sessions com "Boogie on a reggae woman" (como aqui: https://www.youtube.com/watch?v=rmnGZgYCwzs&index=22&list=RD4ApHH39yI4c ):


E quase que me esquecia do baixo fenomenal de Victor Wooten com "Isn't she lovely" (link: https://www.youtube.com/watch?v=eynnYLXW3Fo ):


Mas... chegados a "Superstition", não há quem convença em pleno.
Há esta excepção, sobretudo se se levar em conta que se trata apenas de guitarra acústica, sem mais ajudas (e "Superstitious" exige muito mais - desde logo, uma bela banda): https://www.youtube.com/watch?v=gw6qrR74gzQ&index=15&list=RDfwXY8edX6QI


Mesmo com um Stevie Wonder já mais velho, o original (e ao vivo) permanece insubstituível ( https://www.youtube.com/watch?v=3RRWI6O57IE ):


Pois. E o tema tem mais de 40 anos.




Dave Weckl / Jay Oliver - Higher Ground (Stevie Wonder)


Thanks, G.