domingo, 10 de maio de 2015
quinta-feira, 7 de maio de 2015
quarta-feira, 6 de maio de 2015
terça-feira, 5 de maio de 2015
Roma não paga a traidores
Numa das mais espantosas e menos lembradas cenas de Eyes Wide Shut, Cruise, naquela noite olímpica e do tamanho de uma vida inteira, é atraído por uma prostituta para casa dela, num evento secundário.
Nada se passa, à excepção de que há uma incrível tensão a trespassar o ecrã.
Ela é lindíssima e ele sabe. Por um acaso, ele não vai poder tocar-lhe. Mas gosta tanto dela, só naquele breve momento, que lhe quer pagar à mesma, embora ela comece por recusar.
Não há nada nisto que seja pouco natural. Tudo faz sentido. E nem por um momento duvidamos de que Cruise lhe vai pagar. 150 dólares, se me recordo bem.
Este é o simétrico perfeito de "Roma não paga a traidores".
Na cena de Eyes Wide Shut, não há prestação, mas o pagamento é uma consequência lógica e evidente, nunca posta em causa.
Quando se proclama que "Roma não paga a traidores", há prestação, mas não há pagamento. Por razões igualmente óbvias e de moralidade insuspeita.
É habitual criticar-se o costume romano. Aponta-se um certo cinismo amoral ao acto do romano que suborna e depois não paga ao subornado, malgrado este tenha perpetrado o mal que prometera.
Em Eyes Wide Shut, posta a coisa ao contrário, não há dúvidas nem críticas que possam subsistir. É a prova de que os romanos tinham razão.
segunda-feira, 4 de maio de 2015
quarta-feira, 29 de abril de 2015
terça-feira, 28 de abril de 2015
Se / Kipling / trad. Felix Bermudes
Se...
Se podes conservar o teu bom senso e a calma
Num mundo a delirar para quem o louco és tu...
Se podes crer em ti com toda a força de alma
Quando ninguém te crê...Se vais faminto e nu,
Trilhando sem revolta um rumo solitário...
Se à torva intolerância, à negra incompreensão,
Tu podes responder subindo o teu calvário
Com lágrimas de amor e bençãos de perdão...
Se podes dizer bem de quem te calunia...
Se dás ternura em troca aos que te dão rancor
Mas sem a afectação de um santo que oficia
Nem pretensões de sábio a dar lições de amor...
Se podes esperar sem fatigar a esperança...
Sonhar, mas conservar-te acima do teu sonho...
Fazer do pensamento um arco de aliança,
Entre o clarão do inferno e a luz do céu risonho...
Se podes encarar com indiferença igual
O triunfo e a derrota, eternos impostores...
Se podes ver o bem oculto em cada mal
E resignar sorrindo o amor dos teus amores...
Se podes resistir à raiva e à vergonha
De ver envenenar as frases que disseste
E que um velhaco emprega eivadas de peçonha
Com falsas intenções que tu jamais lhes deste...
Se podes ver por terra as obras que fizeste,
Vaiadas por malsins, desorientando o povo,
E sem dizeres palavra, e sem um termo agreste,
Voltares ao princípio a construir de novo...
Se puderes obrigar o coração e os músculos
A renovar um esforço há muito vacilante,
Quando no teu corpo, já afogado em crepúsculos,
Só exista a vontade a comandar: Avante...
Se vivendo entre o povo és virtuoso e nobre...
Se vivendo entre os reis, conservas a humildade...
Se inimigo ou amigo, o poderoso e o pobre
São iguais para ti à luz da eternidade...
Se quem conta contigo encontra mais que a conta...
Se podes empregar os sessenta segundos
Do minuto que passa em obra de tal monta
Que o minuto se espraie em séculos fecundos...
Então, oh ser sublime, o mundo inteiro é teu!
Já dominaste os reis, o tempo e os espaços!
Mas, ainda mais além, um novo sol rompeu,
Abrindo o infinito ao rumo dos teus passos.
Pairando numa esfera acima deste plano,
Sem receares jamais que os erros te retomem,
Quando já nada houver em ti que seja humano,
Alegra-te, meu filho, então serás um Homem!...”
"If..." - Rudyard Kipling
IF / Rudyard Kipling
If—
By Rudyard Kipling 1865–1936 Rudyard Kipling
(‘Brother Square-Toes’—Rewards and Fairies)
If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don’t deal in lies,
Or being hated, don’t give way to hating,
And yet don’t look too good, nor talk too wise:
If you can dream—and not make dreams your master;
If you can think—and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you’ve spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build ’em up with worn-out tools:
If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breathe a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: ‘Hold on!’
If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with Kings—nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you,
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds’ worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that’s in it,
And—which is more—you’ll be a Man, my son!
segunda-feira, 27 de abril de 2015
Sobre a democracia
Foi a propósito de nada.
Perguntei-lhe - sem que a resposta me interessasse verdadeiramente, porque já a sabia: "o teu país é uma democracia, não é"?
Com um ar vago, ligeiramente divertido, mas também desconfortável, devolveu-me outra pergunta: "Democracia... O que é isso"?
Sem pensar, e confesso que sorrindo, retorqui numa penada, confiante que se tratara apenas de um problema de comunicação: "aquele sistema em que as pessoas votam e elegem os Governos e os Presidentes, etc....".
Com mais rispidez, respondeu-me prontamente: "Eu sei lá".
O normopata era certamente eu.
Acontece.
sexta-feira, 24 de abril de 2015
quinta-feira, 23 de abril de 2015
quarta-feira, 22 de abril de 2015
Sobre a definição de Normopata
Mesmo com a tenacidade dos loucos, ainda não encontrei melhor definição de normopata do que esta:
http://www.normopategos.blogspot.com/2015/04/o-normopata.html
Durmam bem.
http://www.normopategos.blogspot.com/2015/04/o-normopata.html
Durmam bem.
domingo, 19 de abril de 2015
sábado, 18 de abril de 2015
Diário de um normopata (IV) (e ainda: "can you bring politics back?")
Believing
They say you should "believe". And you sometimes do.
You know that "believing" makes you kind of special. So you do "believe".
They say you should "believe" in change. So, sometimes, you do.
The disappointment brings you back to real life. And then...
You find out that becoming a normopath may save you - from yourself, of course.
HDF
sexta-feira, 17 de abril de 2015
quinta-feira, 16 de abril de 2015
quarta-feira, 15 de abril de 2015
sexta-feira, 10 de abril de 2015
quarta-feira, 8 de abril de 2015
sexta-feira, 3 de abril de 2015
Como quer que seja
Dizem-me que chegarás num barco voador vindo de Hong Kong.
E dizem-me – e eu sei –
que não poderei esperar-te no cais porque, à conta do que deve e tem de ser
feito, só quem embarca o pode pisar.
Suspeito que só seja
assim mercê de uma renovada e secreta conspiração, cujo desígnio é privar-me de
mais esse gosto, tal como sucede com outros, e sem que eu perceba, como quase
sempre, a verdadeira razão por que tenha que ser assim.
Que hei-de eu dizer-te?
Dir-te-ei que, como
quer que seja, estarei nesse cais. À tua espera, ou, se preciso for, a embarcar
dele, noutro barco voador, assim tu o queiras. Mesmo que tardes.
Dizem-me porém que o cais, afinal, não existe e que só eu acredito nele.
Talvez.
Mas, como quer que
seja, pouco importa. Será nesse cais que te esperarei, ou será dele que
partirei. Insistentemente, sem que haja tempo nem regra que o possa fazer exaurir-se.
Não significa isto que
será de certeza como agora o digo. Mas é certo – isso sim – que, se nisto
pudesse haver certezas, o mesmo cais não se ergueria, invencível, sobre um rio
que, aliás, é de águas turvas. E isso – digo-to eu – é mesmo assim. E como quer
que seja.
HDF
Silva Lopes morreu
Em 2012, escrevi aqui sobre Silva Lopes:
http://arruadas.blogspot.com/search?q=silva+lopes
Descobri, hoje de manhã, que Silva Lopes morreu. Já chega de gente desta a ir-se embora de uma assentada. Até porque temos poucos.
http://krugman.blogs.nytimes.com/2015/04/02/jose-da-silva-lopes-rip/?_r=1
http://expresso.sapo.pt/morreu-silva-lopes-o-economista-gentil-e-e-preciso-dar-por-isso=f918366
http://arruadas.blogspot.com/search?q=silva+lopes
Descobri, hoje de manhã, que Silva Lopes morreu. Já chega de gente desta a ir-se embora de uma assentada. Até porque temos poucos.
http://krugman.blogs.nytimes.com/2015/04/02/jose-da-silva-lopes-rip/?_r=1
http://expresso.sapo.pt/morreu-silva-lopes-o-economista-gentil-e-e-preciso-dar-por-isso=f918366
quinta-feira, 2 de abril de 2015
quarta-feira, 1 de abril de 2015
"Eu não tenho a certeza se tu és a alegria ou se és a tristeza" (Estrela da tarde)
No poema de Ary dos Santos a que Carlos do Carmo deu a voz mais conhecida e ao qual não me atrevo a atribuir adjectivos (por não me ocorrer um com a magnitude necessária) - "Estrela da tarde" - há incontáveis peças de que não consigo escapar.
Uma delas, porventura a que prefiro, é a que descreve aquela tarde - em que "era tarde, tão tarde" - como aquela em que também "eu entardecia".
Mas é a chave da estética que, a mais do muito que sobra, está presente naquelas palavras.
Não se trata propriamente (só) do belo mas, verdadeiramente, do que é sublime - dessa diferença na qual pretendeu Kant, logradamente ou não, buscar a prova da existência de Deus.
Os alemães falam em Schadenfreude para significar o contentamento que se nutre do infortúnio dos outros (o "harm-joy" anglosaxónico não tem a mesma força). Nunca percebi porque é que Schadenfreude não traduz, antes de mais, o contentamento com o infortúnio do próprio sujeito que desse sentimento experimenta.
No poema de Ary, é esta última dimensão que (também) está presente: há um contentamento - e, logo, uma alegria -, sentida na primeira pessoa do singular, com aquilo que de triste experimenta o mesmo sujeito. Ora, é esse limbo que faz do belo... sublime: essa contida tensão trazida pelo paradoxo e pela antinomia ("naquela triste e leda madrugada").
Digo que é esta a chave da estética - o mesmo limbo. Na música, na pintura, na poesia, e no que mais houver: uma tristeza que, por ser tristeza, se faz feliz. E que faz feliz.
sexta-feira, 27 de março de 2015
quarta-feira, 25 de março de 2015
As Beiras
Quando Clara e António Alçada foram avisar Herberto do Prémio Pessoa
Em dezembro de 1994, Herberto Helder foi o escolhido pelo júri do Prémio Pessoa. Mas ninguém tinha o telefone do poeta nem sabia bem onde o encontrar. Dois membros do júri, António Alçada Baptista e Clara Ferreira Alves, partiram de Seteais, onde a reunião do júri do Pessoa decorre todos os anos. Foram à procura do escritor, com uma única pista: o nome da rua. O relato desse encontro foi publicado pouco dias depois no Expresso, em dois textos separados. O Expresso republica os textos de António Alçada e de Clara Ferreira Alves, que recordam o encontro extraordinário com um dos maiores poetas da língua portuguesa, que morreu segunda-feira.
"NÃO DIGAM A NINGUÉM"TEXTO DE ANTÓNIO ALÇADA BAPTISTA
Foi assim: ninguém tinha o telefone do Herberto Helder, eu só sabia o nome da rua porque tenho muita dificuldade em decorar números. Foi então que a Clara propôs irmos à procura do poeta na rua que eu tinha. Só havia dois prédios de habitação. Um deles, era quase uma torre e tinha um painel de campainhas. A Clara tocou uma delas, ao acaso. Daquela gradinha de rede veio uma voz. "Quem é?". A Clara perguntou se era da casa do poeta Herberto Helder. "Mas quem é?". Ela disse o seu nome. Então a porta abriu-se e nós subimos. A Olga estava à entrada da casa. Eu gosto muito da Olga, primeiro por ela e depois porque nos toma conta do Herberto. Digamos que ele faz parte do nosso Património e ela é a Conservadora. Eu disse-lhe baixinho: "Olga, o Herberto ganhou o Prémio Pessoa, são sete mil contos.
"Como é que isto vai ser?"
Ela fez-me uma cara de conformação e só com um gesto de cabeça fiquei a saber que não iria aceitar.
O Herberto estava na sala. Falou à Clara e depois a mim.
Eu disse, meio a brincar meio a sério: "Vimos numa difícil missão..."
Ele, com toda a simplicidade dele, disse-me logo que não, calculando que era um prémio.
Não foi possível demovê-lo e sentimos que aquilo era tão fundo e tão importante que não devíamos insistir. Ele disse:
"Vocês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro... "
"Não pode ser, o júri escolheu-te a ti, a decisão está tomada; respeitamos que digas que não... "
Ele ainda acrescentou:
"Peço que vocês sejam meus mandatários e digam ao júri que eu agradeço mas não posso aceitar"
Eu queria transmitir bem que não havia aqui nenhuma arrogância: a sua recusa não era contra ninguém. Era uma decisão do seu mais íntimo, que logo nos mereceu o maior respeito. Eu só lhe disse: "Eu já gostava de ti e vi agora que é possível ainda gostar mais..."
A Clara falou muito com ele porque ambos gostavam de se conhecer. Ela sabe fazer conversas inteligentes como se fossem banais. A certa altura viemos embora com alguma comoção por dentro e desabafámos no carro.
"Já ninguém faz isto... "
"Todos ganhámos este prémio. Quando a regra é a procura de dinheiro, é bonito que um homem pobre dê exemplos assim. "
Eu, confesso que passou pela cabeça de um bocadinho de mim que ele pudesse aceitar o prémio. Sempre eram sete mil contos. Talvez uma segurança até ao fim da vida. A verdade é que quase me apeteceu voltar atrás e pedir-lhe desculpa por este "mau pensamento". Mas eu era um homem feliz: o Herberto não nos deixou ficar mal...
LOUVOR E SIMPLIFICAÇÃO DE HERBERTO HELDERTEXTO DE CLARA FERREIRA ALVES
"O dinheiro fazia-me jeito, estou a precisar de um helicóptero", diz o Herberto. Para as viagens ele utiliza - que seria de nós sem um cómico "cliché"? - as asas do poema. E no passeio em frente à casa, onde o António Alçada e eu medimos os passos em volta do poeta, é proibido aterrar. É não. Por razões pessoais e secretas, a pessoa recusa o Prémio Pessoa.
Há uma regra de senso nestas coisas da literatura. Nunca conhecer de perto quem se admira muito. Nos idos de 60, este senhor publicou Os Passos em Volta, que é uma prosa de diamante, clara e dura, eterna. E havia a poesia, ouro garimpado com esforço, separando as palavras da terra que as enlameia, da pedra que as confunde, da corrente que as arrasta. Quase ninguém tem paciência e braço para tal trabalho de homem, a tempo inteiro, mal remunerado. Como diz o António. "Tem um preço, ser o Herberto Helder".
Sete mil contos não chegam.
A casa é pobre, de quem cuida mais dos versos que de si mesmo. O monte de papéis, os livros à beira do abismo, os desenhos na parede, o costume. Os escritores ora são desabridos ora desarrumados. O que não são é desprendidos. O escritor respira a contemporaneidade e aspira à posteridade, sabendo que para ter a segunda precisa da primeira.
A casa é pobre, de quem cuida mais dos versos que de si mesmo. O monte de papéis, os livros à beira do abismo, os desenhos na parede, o costume. Os escritores ora são desabridos ora desarrumados. O que não são é desprendidos. O escritor respira a contemporaneidade e aspira à posteridade, sabendo que para ter a segunda precisa da primeira.
Este senhor desprendeu-se. Os elogios caem-lhe das mãos, a notoriedade explode-lhe na cabeça. Enfim, "não quer dormir sobre o assunto? Este prémio não é um prémio literário, etcétera".
Ele quer falar de tudo menos de prémios. Ou de dinheiro. "Seria vil eu aceitar por causa do dinheiro". Diz as palavras como se estivesse a compô-las, Vil é uma palavra escolhida, serve para a ironia e a seriedade, embora o substantivo seja a especialidade do Herberto.
O António Alçada e eu demos mais uns passinhos em volta... Não? NÃO.
Partíramos de Seteais buscando um homem, como Diógenes, e tínhamo-lo encontrado. O António arrumou as emoções e, composto na frase: "Sabes que te digo? Ainda gosto mais de ti por causa disto."
Batemos para Sintra, por uma estrada sem mistério, ruminando o mistério das palavras e dos que ainda as escrevem.
Foi um prazer conhecer a pessoa do Herberto.
Ler mais: http://expresso.sapo.pt/quando-clara-e-antonio-alcada-foram-avisar-herberto-do-premio-pessoa=f916640#ixzz3VMHhHZwA
quinta-feira, 19 de março de 2015
Damian Salazar na Recoleta
Já andei pela Recoleta, em Buenos Aires. Teria valido a pena ver Damian Salazar.
segunda-feira, 16 de março de 2015
Diário de um normopata (III)
Eram 8h32. O despertador só estava programado para o despertar às 9h15, mas agora acordava sempre antes daquele apito insuportável - como nunca sucedera outrora: havia até tempo para, quando a leitura do jornal o não distraía o suficiente, calar antecipadamente o lembrete estridente, remarcando-o para a manhã do dia seguinte.
Numa renovada rotina, seguía-se uma banana a servir de pequeno-almoço e um café numa chávena que dizia "LOL", o que funcionava como uma espécie de troféu daquela tão ambicionada normopatia - uma vida nova e desconhecida, mas sempre repetida.
Havia, em seguida, a dança da poupança de energia: metodicamente, desligava agora sempre a luz da sala maior (por onde acabava por fazer um curto périplo, também ele rotineiro, a fim de se aperceber do tempo que fazia lá fora, para poder decidir o que vestir) antes de acender o aquecedor da casa de banho. Não havia poupança de energia que se visse, mas a convicção de que a medida assim tomada era racional enchía-o de um certo contentamento - até pelo facto de a ver como uma obrigação, cujo cumprimento era ligeiramente incomodativo.
A seguir, o banho da manhã fazia-o pensar, por vezes, no significado destas novas rotinas. E, de vez em quando, deixava escapar um sorriso divertido a propósito delas, que não deixava de ser de escárnio por uma certa alienação que sempre teve pouco que ver consigo e com as suas manhãs.
Corrigia, porém, imediatamente o desvio, pensando rapidamente que não podia pensar no que pensava (ou deixava de pensar) naquelas novas manhãs.
Com a certeza, claro, de que, amanhã, haveria mais. Sem surpresas, evidentemente.
sábado, 7 de março de 2015
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
sábado, 14 de fevereiro de 2015
Diário de um normopata (II)
Experimentei, outra vez, a velha "vénia de nariz", que repeti mil vezes: em rigor, desde que me lembro de existir.
Só que, desta vez, não estava em Coimbra.
É, de facto, espantoso como a "vénia de nariz" só funciona em Coimbra. Nas outras partes do mundo, não há esta irmandade congénita da "vénia de nariz".
Depois de ter lido em Daniel Abreu (em qualquer coisa sobre vinhos e Figueiró dos mesmos) que só em Coimbra o cumprimento - mesmo entre praticamente desconhecidos - se faz com uma "vénia de nariz" e de me ter reconhecido na descrição, tentei hoje a "vénia de nariz" (com tudo o que lhe é próprio: o quase imperceptível reclinar de costas em diante e o ligeiro, mas ostensivo, afundar do nariz, seguido do retorno imediato à posição anterior) em outras paragens. Falhei, obviamente. Não havia ninguém que pudesse retorquir, e a "vénia de nariz" pressupõe - e exige - uma comunhão de acenos. De nariz, claro.
O malogro nesta recuperação de um traço esssencial de uma certa normopatia longínqua fez com que me alegrasse pensando na hipótese de o reclinar de narizes fazer com os que os mesmos caíssem ao chão, no momento das tais vénias, desconcertando os intérpretes do habitual expediente.
Mas não. Os narizes não podiam cair. De facto, nem sequer faziam vénias.
Tudo normal, portanto. Para um certo descanso meu.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015
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