Já aqui falei do monumental "Hitler", de Ian Kershaw.
Agora, cruzei-me com "Até ao fim".
Trata-se de outro livro excepcional, que explica o que levou a Alemanha (o seu povo e não o seu ditador), no início de 1945, a preferir uma destruição avassaladora, em detrimento de uma derrota com menos custos.
Na rua, já imune à propaganda, dizia-se que era preferível «um fim com horror a um horror sem fim».
A poesia de Herberto Hélder é das poucas coisas boas que restam nos dias dilacerados que, por cá, correm.
"Servidões", o novo livro de poemas inéditos (Assírio & Alvim), é, por isso, um extraordinário momento - cada vez mais escasso - para um regozijo genuíno: uma celebração, queira isso dizer o que quer que seja.
Alguns poemas estão aqui (link), ditos por Fernando Alves (a voz dos "Sinais" da TSF).
Tenho o vício (felizmente, tenho vários) de ver o Trio D'Ataque na RTPN aos Domingos à noite. Podia ter-me dado para pior...
Mas, desta vez, não consegui deixar que o programa chegasse ao fim sem me agarrar ao teclado do computador.
Como a fúria é considerável (há coisas inexplicáveis...), são convenientes alguns pontos prévios:
- Não conheço pessoalmente o Senhor Rui Oliveira e Costa (e nem quero, mas isso é irrelevante). O que escreverei é sobre a personagem televisiva que o cavalheiro incarna.
- Não tenho rigorosamente nada contra o Sporting ou os adeptos do Sporting, para lá das rivalidades saudáveis de quem gosta de futebol e é adepto de outro clube rival. Sou amigo de imensos sportinguistas e não me lembro de me aborrecer seriamente com ninguém por causa de futebol (coisa diferente seria, aliás, surreal).
- Sendo adepto do Benfica (que sou), não deixo de apreciar a inteligência, a tenacidade ou a capacidade argumentativa de variadíssimos comentadores da nossa praça que zurzem o Benfica, por serem adeptos do FC Porto ou do Sporting: acho que faz parte das regras do jogo e inclusivamente simpatizo com a maior parte dos mais conhecidos. Por exemplo: acho Miguel Guedes (indefectível portista), quase sempre, feliz nos comentários que faz (embora quase nunca concorde com ele...), aprecio a genuinidade de Eduardo Barroso (como já aqui escrevi uma vez) pesem embora muitos excessos em que vulgarmente se deixa cair, e achava uma piada imensa, muitas vezes, a Pôncio Monteiro. Como acho, de resto, a Dias Ferreira, malgrado o estilo.
- Gosto de ver futebol e, sobretudo, do Benfica, ainda mais este ano, reconheço, por duas razões simplicíssimas: porque o Benfica tem jogado bem e porque me resolvi decididamente (de há quase um ano para cá e não sei por quanto tempo mais) a não ver quaisquer programas de televisão que não sejam puramente lúdicos (nos quais o futebol se inclui). É uma espécie de resistência tenaz contra o estado de coisas que aí está, mas essa é conversa para outro dia.
Dito isto, quero ir directo à questão: Rui Oliveira e Costa (ROC) é, seguramente, o indivíduo mais repugnante que me lembro de ver em televisão. É uma espécie de pústula que ressalta no que possa haver de menos sadio.
Não me refiro ao facto de ROC ser um completo ignorante em matéria de futebol e ser comentador residente de um programa televisivo votado ao assunto. Nisso não há problema de maior. E até podia ter piada. Mas não tem. E não tem porque ROC amesquinha os outros por não perceberem (tal como se passa com ele) rigorosamente nada do tema: foi assim, por exemplo, com António Pedro Vasconcelos, a quem desdenhosamente ROC, com a educação que lhe é característica, disse, em directo, por mais do que uma vez, e com sorriso trocista e tom acintoso: "tu não percebes nada disto".
Com ROC passa-se um fenómeno raro na espécie humana: ROC não percebe nada de coisa alguma. O drama é que ROC se acha um especialista. E em várias coisas.
ROC acha que sabe de bola. Mas não faz a mínima ideia do que é um jogo de futebol. As suas análises aos "4x2x3x1" e aos "4x4x2" de várias equipas (em que insiste em espraiar-se) são exercícios delirantes para puro deleite dos psicanalistas.
ROC acha que sabe de sondagens, mas basta-se com a tabuada. Daí que a sua "eurosondagens" atribua vitórias eleitorais ao seu amigo José Couceiro. E que se irrite com ferocidade (como uma vez também aconteceu com António Pedro Vasconcelos, num directo da RTP) quando lhe recordam que é incapaz de lidar com um computador e com as suas funcionalidades mais básicas (como o e-mail!).
ROC acha que sabe de política americana, de sistemas eleitorais e de organização estatutária das entidades societárias e associativas, como é o caso do "seu" Sporting. E ROC acredita piamente que sabe mesmo, a ponto de nas últimas eleições para a presidência dos EUA, num directo da SIC, ter insistido (agarrado a um papelinho com contas de merceeiro), mesmo perante os resultados dados como "fechados" pela CNN e pela CNBC (que, com certeza, só terão asnos, na opinião de ROC, a fazerem contas), que Obama ainda corria o risco de perder em Estados nos quais a vitória lhe era imprescindível.
E, claro, ROC sabe também imenso de Direito e, por isso, diz que as escutas do "Apito Dourado" foram ilegais e um verdadeiro atentado, mesmo que um juiz as tivesse autorizado.
Perguntar-me-ão: e qual é o problema?
Eu respondo: nenhum, como, em geral, acontece sempre com a ignorância profunda e obstinada. Não vejo problema nenhum no facto de ROC, por exemplo, não perceber que as escutas não foram "ilegais" (ele costuma dizer, preocupado, que, por isso mesmo, nunca as ouviu, embora eu fique na dúvida se é mesmo essa a razão, ou antes o facto de ele não saber aceder ao youtube), mas que apenas não tiveram validade probatória no tipo de processos que estava em causa.
Repito: neste tipo de coisas, em que a profunda ignorância de ROC é ostensiva, não vejo problema algum, à parte da sua saliente veia opinativa.
No que vejo problema, e largo, é na soberba com que abre a boca. No ar infecto de superioridade com que fala dos outros, mesmo valendo zero.
Dou o exemplo clássico: ROC é implacável com as capacidades linguísticas de Jorge Jesus (JJ).
No Trio D'Ataque, foram inúmeras as vezes em que despudoradamente fez troça da maneira como Jesus se exprime nas conferências de imprensa. ROC baba-se de gozo com os pontapés na gramática dados por JJ e com as metáforas usadas por ele. Mas ROC fá-lo ao mesmo tempo em que, repetidas vezes, acrescenta um "s" às segundas pessoas do singular: "percebestes?", "compreendestes?", "fizestes". Ora, o que dizer quando o autor destas cavalidades se dá ao requinte de troçar do português falado pelos outros? Só uma palavra simpática me ocorre: um quadrúpede.
Mas, no que a isto diz respeito, o momento mais alto é invulgarmente atingido nas numerosas vezes em que ROC decide fazer um "SUPÔNHAMOS", nos programas em que pegajosamente participa. Sim, um "supônhamos". Com ar majestático, ROC entrega-se frequentemente a este tipo de exercícios: "façamos aqui um supônhamos que o Sporting não ganha ao Casa Pia..." ou "façamos aqui um supônhamos que o Benfica não ganha a liga Europa...". Apetece sempre responder-lhe: "supônhamos" que não eras um imbecil? O mundo não seria, certamente, o mesmo.
Falta só a parte (porque a paciência não dá para mais) para aquilo a que Miguel Esteves Cardoso, um dia, crismou de culambismo, num brilhante artigo de O Independente.
Os culambistas estão sempre com quem ganha, sujeitando-se às mais patéticas faltas de coerência.
ROC é um culambista profissional. E exasperante, pois torna-o de tal modo notório que ascende ao zénite do mais fedorento dos culambismos.
Não me recordo, até hoje, de ter assistido a um exercício de Pyongyang TV mais flagrante do que o episódio do Trio D'Ataque em que Godinho Lopes (já com a sua direcção exangue) foi o convidado. Como me lembro bem do que inúmeras vezes ROC disse (pouco menos do que o pior possível) de Bruno Carvalho quando este era apenas um candidato à presidência do Sporting e o silêncio total (pontuado por elogios tímidos) que pratica hoje.
ROC, ao que consta, chegou a dizer que rasgaria o cartão de sócio se Bruno Carvalho ganhasse. Mas claro que preferiu manter-se como representante do Sporting num programa de televisão quando o clube passou a ser presidido por ele.
Termino com a interrogação que me assaltou o espírito no momento em que acabei de escrever estas linhas: não acharão também os simpatizantes do Sporting tudo isto grotesco?
Para saciar a minha curiosidade, decidi visitar o que se diz no maior fórum do Sporting Clube de Portugal na internet sobre este personagem. Está aqui (ver link).
Era o primeiro jogo da história do River Plate na 2.ª divisão argentina: a suprema humilhação para um clube histórico. Chovia a cântaros, num dia fadado para silêncios fúnebres. Puro engano.
Ao que se assistiu foi à celebração impressionante de um amor puro: o mais irracional e, também por isso, um dos mais enternecedores: o amor por um clube de futebol ("cada vez te quiero más", cantavam os adeptos).
Um amor puro e quase perfeito. Porque não é pelo Benfica.
Dizem-me (em especial, um amigo comum muito chegado) que Diogo Vasconcelos era um homem verdadeiramente excepcional.
Não tive a sorte de o chegar a conhecer. Mas quando morreu, em 2011, pensei sempre vir a lembrá-lo, de preferência volvido já algum tempo sobre a sua morte, assinalando o brilhantismo do que costumava, repetidamente, dizer, tal como várias vezes me recordam: "Somos o que partilhamos".
É uma frase tão simples, quanto extraordinária (ver link). E que, ao que creio, indicia, entre outras coisas, a impossibilidade do puro individualismo e a inevitabilidade do ser-com-o-outro, em que insisto em falar.
Coisas boas.
Mas, para os mais cépticos, há sempre a alternativa: "somos o que negociamos".
É o TT (Tourist Trophy) da ilha de Mann.
Corre-se todos os anos, desde princípios do século passado. Morrem, em média, 1-2 pilotos por ano.
Não é em pista: há casas em redor, penhascos, árvores e a estrada percorrida (60 km) é a de todos os dias. A velocidades que chegam a ultrapasssar os 300Km/h.
Só visto.
«A pergunta também vale ao contrário: porque é que o FC Porto
dificilmente perde com o Benfica, mesmo na Luz? Há três tipos de respostas
possíveis: de circunstância, subjetivas e concretas. Só acredito nestas e começo
com uma nota prévia: em quatro anos no Benfica, Jesus ganhou algumas vezes ao FC
Porto mas não ganhou tantas quanto parecia provável, nem sequer quando parecia
por cima em termos de rendimento, opções disponíveis e motivação. Como agora. E
só ganhou uma vez no Dragão, para a Taça, perdendo três vezes na Luz.
As
causas de circunstâncias são as que se referem às arbitragens, a uma ausência, a
erros ou grandes exibições individuais. Proença, Hulk, Roberto, Emerson ou Artur
explicam um jogo, não uma tendência. As subjetivas são as que se refugiam nos
chavões, tão difíceis de confirmar como de desmentir, de um bloqueio anímico
ante o rival, de menor maturidade competitiva, blá-blá-blá.
Tretas.
Chegamos ao essencial: a forma de jogar do que chamei "gémeos
falsos", candidatos com idêntico rendimento pontual mas identidades marcadamente
distintas. Onde o Benfica é emoção, o FC Porto é razão, que se o Benfica faz de
cada posse de bola um ataque, o FC Porto quase faz de cada ataque uma posse de
bola. O Benfica só se sente confortável quando domina, o FC Porto sente-se
sempre cómodo quando controla, mesmo não dominando.
Nestes jogos, o FC Porto
é mais igual a si próprio, que o seu modelo não é tão arrasador contra equipas
mais pequenas mas, pelo equilíbrio, adapta-se facilmente a jogos de maior
exigência. O Benfica sai da zona de conforto quando não tem a iniciativa
permanente e os jogadores acusam a mudança de chip se lhes pede que reparem na
cara do adversário, para "marcar" Xavi ou Messi, Moutinho ou Lucho, habituados
que estão a ignorar anónimos do Moreirense ou do Olhanense. Em suma, o FC Porto
mantém o modelo, os princípios de jogo, mesmo quando altera o sistema, enquanto
o Benfica mantém o sistema mas acaba, forçado ou deliberado, a jogar segundo
princípios diferentes».
Segundo noticia hoje o jornal Record (ver a notícia neste link), o Sporting (sim, o Sporting Clube de Portugal) foi considerado, pela IFFHS, o melhor clube português de futebol em 2012.
"A menos que Cristo desça à Terra para miraculosamente
estender a mão a Cristiano Ronaldo, na próxima segunda-feira, dia 7 de janeiro,
Lionel Messi receberá, pela quarta vez consecutiva, a Bola de Ouro, o troféu que
distingue o melhor jogador de futebol do Planeta. No momento em que for
anunciado o nome do argentino, o português, impecavelmente vestido de negro, com
dois brilhantes nas orelhas e três litros de gel no cabelo, olhará
envergonhadamente para o chão e, depois de contar até 10 para não chorar como
uma criança, encarará a audiência e esboçará um sorriso tão genuíno como umas
Levi’s compradas na Feira do Relógio. Naquele segundo assassino, o Mundo
identificará a agonia de alguém que há muito se encontra em estado de negação.
Na cabeça de Ronaldo, Messi não é melhor do que ele. Não é mais rico do que ele.
Não é mais bonito do que ele. Não. Não. Não.
Vamos aos números: em 2012,
Messi marcou 91 golos em 68 jogos. Foi o melhor marcador do campeonato espanhol,
com 50 golos, e venceu a Supertaça Europeia de clubes e o Mundial de clubes. Já
durante esta temporada, marcou 26 golos em apenas 17 jornadas da Liga. E
terminou o ano com 25 golos em jogos internacionais, igualando o recorde de
Vivian Woodward, que durava há mais de 100 anos.
Agora Ronaldo: marcou 46
golos na Liga e um total de 63 (menos 28 do que Messi) em todas as competições,
novos máximos na sua carreira. Para além disso, foi campeão pelo Real Madrid,
num ano em que a equipa bateu todos os recordes da história do clube. E foi
semi-finalista do Europeu de futebol. Esta temporada, as coisas estão-lhe a
correr menos bem: o Real Madrid está a fazer um campeonato desastroso e Ronaldo
– um génio do futebol cujo maior azar foi coincidir com um jogador único e
irrepetível - já leva 12 golos a menos que Messi.
A distância numérica
entre Messi e Ronaldo é óbvia. Mas o futebol é muito mais do que estatística - é
talento, genialidade, improviso e simplicidade. E também aqui Messi volta a
vencer folgadamente. Mas o que é uma evidência para quase todos os que gostam de
futebol, não o é para Ronaldo. Nem pode ser, porque é desse atrito que ele se
alimenta. No filme “Clube de Combate”, de David Fincher, a dada altura o
personagem Tyler Durden, desempenhado por Brad Pitt, afirma que não nos podemos
conhecer a nós mesmos sem que antes participemos num combate duro. Talvez seja
isso que verdadeiramente está em curso para o jogador português: um processo de
profunda descoberta, travestido de uma disputa fratricida carregada de ambição,
obsessão e raiva. Sim, Ronaldo vai perder este combate. Mas, paradoxalmente,
será o facto de o ter disputado que lhe dará o direito a figurar entre o lote
dos melhores jogadores da história do futebol".
Jorge Jesus, diz-se, ganha 4 milhões de euros brutos, por ano, no Benfica.
Nada que me deixe mais satisfeito: foi dos bons investimentos - e não são assim tantos - que a actual direcção do clube fez.
Bem sei que o valor em causa se deve ao temor que Jesus rumasse ao Porto, temor esse com o qual o treinador jogou aquando da sua renovação. E daí? Jesus valeu-se, nem mais nem menos, do seu "valor de mercado".
Acresce que continuo a crer que um indivíduo tem direito a fazer-se pagar o melhor que pode pelo seu trabalho.
E, que se saiba, não houve coacção. Apenas o reconhecimento tácito de que este funcionário era uma peça fundamental para remediar uma anemia de mais de 20 anos no que toca à competitividade (não era só a falta de títulos...) da mais importante modalidade do clube.
Mas se é para falar de números, acho da mais elementar justiça lembrar (à laia de custo-benefício) os jogadores que Jesus encontrou quando chegou ao SLB e que, fruto do seu trabalho, se transformaram (porque nunca tinham valido tanto) em muitos milhões: Di Maria, David Luiz e Coentrão são os principais exemplos. Javi, Ramires e Witsel já chegaram com Jesus, mas a sua imensa valorização teve, por certo, muito que ver com o seu talento formador (é, aliás, a propósito disto que me questiono, por vezes, acerca do que Jesus teria feito, por exemplo, de um Matías Fernandez ou de um Elias, só para olhar para o outro lado da 2.ª circular).
Mas olhemos apenas para esta época.
Sou dos que pensou, em Setembro, o seguinte:
1) Era impensável ter a lateral-esquerdo Melgarejo, cujas rotinas defensivas eram nulas.
2) Não fazia qualquer sentido manter Maxi Pereira como única e exclusiva opção para a lateral direita, dadas as características do jogador (ver link).
3) Perder Javi Garcia e Witsel, ainda que em negócios compensadores, já com o mercado fechado quanto a aquisições, era impensável para efeitos de manuenção da competitividade da equipa, já que o meio-campo defensivo (sempre fundamental) ficava praticamente deserto (sobrava, sem adptações ou surpresas, Matic).
4) Ter um amontoado de dispendiosos extremos de qualidade (Sálvio, Ola John, Gaitán, Nolito, Enzo Perez e, como Jesus sempre insistiu, Bruno César) seria garantia do desastre, dado o desequilíbrio evidente do plantel.
5) Comprar Lima, com 29 anos, por 4 milhões era um exagero, e emprestar Nélson Oliveira, uma asneira.
Tomei assim como certo, desde logo, que o Benfica penaria até Janeiro, altura em que poderia "remendar" o plantel, dilacerado pelas vendas do início de Setembro, que me pareceram reveladoras, uma vez mais, da absoluta insensibilidade da Direcção para o plano desportivo (tínhamos que vender Javi mesmo tendo em conta os 40 milhões de Witsel, ou vendemos o primeiro sem saber que venderíamos o segundo?).
Era, pois, muito simplesmente, tudo uma questão de saber como nos aguentaríamos até à reabertura do mercado, isto é, a quantos pontos estaríamos do FC Porto neste momento.
Puro engano.
E por mérito de Jesus:
1) Melgarejo começou titubeante e estava tudo pronto para que ficasse sob pressão constante. Jesus manteve a aposta nele e fabricou mais um lateral (como fizera - aí com especial brilhantismo - com Coentrão). Melgarejo não é brilhante, mas já se viu muito pior. E, como tal, já pouco se ouve falar dele: como num passe de mágica, o problema parece nunca ter existido.
2) Maxi está muito pior do que nos anos anteriores, especialmente a defender: a condição física é paupérrima (ao contrário das equipas de Jesus, costuma arrebitar a partir de Fevereiro), os cartões amarelos são uma constante e a disciplina táctica é um susto. Mas para substituir Maxi (cujo brio e tenacidade se mantêm intocados), Jesus já "inventou", em vários jogos e sem problemas de maior (lembro-me, por exemplo, da exibição no Celtic Park), o prestimoso André Almeida (que também já deambulou pelo meio-campo defensivo, quando foi preciso). Em suma: a alternativa a Maxi parece hoje já existir (e não é Cancelo, como alguns sugeriram).
3 e 4) Sem ninguém para o miolo, à excepção de Matic, Jesus encarregou-se de fazer dele um "6" ou um "8", conforme as necessidades. O sérvio corre, desarma, passa... como nunca fizera. Pode estar num pico de forma, mas as transformações são de tal ordem (sobretudo na velocidade, que era perto de zero), que é impossível não o notar.
Mas era preciso mais alguém: não foi só Javi e Witsel que desertaram. Jesus nunca pôde contar (salvo raríssimas excepções), com Carlos Martins e Aimar.
Por isso, Jesus tirou miraculosamente da manga Enzo Pérez e André Gomes.
Quanto a Pérez tranformou-o, sem danos de maior, num centro-campista minimamente válido, arredando-o das faixas. Quanto a André Gomes (que, entre outros campos, já jogou em Camp Nou e em Alvalade), prestidigitou-o numa alternativa igualmente válida (e com personalidade) para o meio-campo e, mais do que isso, numa opção potencialmente cheia de valor acrescentado para o futuro (vá-se lá saber porquê, a imprensa nunca se lembra que era jogador do FC Porto).
Resumindo: de um meio-campo deserto, Jesus fez um meio-campo interessante. Juntou-lhe Sálvio (sempre preponderante, independentemente das oscilações de forma) e Ola John (cuja entrada na equipa foi sabiamente gerida, até para futuro proveito de Gaitán), formando uma equipa que não defende tão bem quanto seria desejável (mas que já defendeu pior) e que ataca vigorosa e, regra geral, eficazmente.
5) Jesus acreditava que a aposta em Lima teria rendimento desportivo imediato. Lançou-o logo, portanto, e com pleno êxito: golos, técnica q.b., uma disponibilidade física impressionante e uma ligação eficaz entre o meio-campo e o ataque naqueles jogos (como o de Alvalade) em que a equipa se deixa "desligar" entre os médios e as unidades mais ofensivas.
Quanto a Nelson Oliveira, poucos se lembraram dele, entre hesitações e lesões na péssima época do Deportivo. Mas, sobretudo, porque a gestão competente do trio Cardozo-Lima-Rodrigo tem surtido em pleno.
Dou ainda de barato o facto de Jesus não ter podido contar com Luisão em cerca de dez (!) jogos da Primeira Liga e ter garantido que Jardel (que começou a época na equipa B) o era capaz de substituir com competência e eficácia, porque isso, atento o descrito acima (e a suprema qualidade de Garay), até pareceu de somenos...
Em suma:
Aconteça o que acontecer a este Benfica 2012/2013, já há razões mais do que suficientes para aplaudir Jesus.
Porque é justo.
Não me esqueci que Jesus só ganhou uma Liga em 3 anos, quando podia e devia ter ganho duas (não foi o Porto que ganhou a última, foi o Benfica que a perdeu).
Não me esqueci do quarteto defensivo delirante e medroso escalado para Liverpool em 2010 (com Coentrão e Maxi no banco, Sidnei e Luisão a centrais, Amorim a lateral direito e David Luiz a lateral esquerdo...).
Mas não me esqueci também do resssurgimento europeu do SLB de Jesus face ao descalabro total das épocas que o precederam: em 3 anos, quartos-de-final da Liga Europa, meias-finais da Liga Europa e quartos-de-final da Champions.
Duvido que o Benfica ganhe este campeonato. Mas tenho a certeza que disputará o título até perto do final.
E isso, certamente, deve-o a Jesus.
PS - E veremos por quanto o Benfica venderá os 85% do passe de Matic que detém, os 50% do passe de Garay e os 25% do passe de Ola John que possui... Felizmente, parece que André Gomes é todo nosso.
Esta semana, Teresa Caeiro voltou aos frente-a-frente na SIC Notícias. Desta vez, o antagonista foi Bernardino Soares (do PCP).
Sempre bem preparado e (goste-se ou não dele) argumentativamente sólido, Bernardino esmagou (é a palavra certa) a sua antagonista, enquanto se conseguiu ouvir o que dizia (tantas foram as interrupções e o berreiro).
Nada de inesperado, portanto, até porque o tema mais aceso foi a greve dos estivadores.
Confesso, porém, que não cessa de me surpreender o papel paupérrimo que Teresa Caeiro vem desempenhando nestes formatos.
Tornou-se impossível debater com ela o que quer que seja: o ar patético de suposta superioridade petulante que insiste em usar é deprimente, a pobreza da sua argumentação (seja qual for o tema sobre a mesa) é chocante e, pior do que tudo, os gritinhos e as interrupções constantes - repito, constantes - aos seus interlocutores são absolutamente exasperantes.
Dá dó.
Sobretudo para quem, como eu, costumava simpatizar com a personagem.
Vá-se lá saber porquê.
Ontem, dia 5, foi o dia da Faculdade de Direito de Coimbra e o auditório encheu-se para ouvir João Ferreira do Amaral, Ulrich, Silva Lopes e Carvalho da Silva sobre a crise económica.
Ferreira do Amaral foi, como sempre, interessante.
Silva Lopes foi torrencial.
Não me canso de o ver como uma das vozes mais esclarecidas do panorama actual (ver link).
"O chefe da missão do Fundo Monetário Internacional (FMI)
para Portugal, Abebe Selassie, defendeu, numa entrevista ao "Diário de
Notícias" e "Jornal de Notícias", que, no segundo trimestre de 2013, o PIB
deverá inverter a sua tendência de queda e regressar a terreno positivo em
2014. O representante da troika disse também que Portugal poderá voltar a
ter taxas de desemprego mais baixas no longo prazo. No que diz respeito à
necessidade de se refundar o Estado social, no âmbito do pacote de
poupanças de pelo menos quatro mil milhões de euros, Abebe Selassie diz que o
Governo português deve debater o que "realmente quer fazer" nos sectores da
saúde, na educação pública e nos apoios sociais.
Três coisas rápidas:
Primeira: porque raio um funcionário do FMI, que ninguém elegeu,
se acha no direito de dar entrevistas em que manda postas de pescada sobre as
grandes escolhas políticas de um Estado soberano? O senhor Selassie está em
Portugal, diz-se, para acompanhar a aplicação de um memorando assinado pelo
Estado português. Que se sente na sua secretária, no seu horário de trabalho, e
o faça. A participação, através da comunicação social, no debate nacional sobre
as grandes opções política de Portugal, país do qual não é cidadão e onde não
vive, não está contemplada nas sua funções de mero burocrata.
Segunda: não sei se o senhor Abebe Selassie leu as conclusões da
instituição para a qual trabalha e se sabe que o FMI conclui, recentemente, que
em vez de se perder cinquenta cêntimos por cada euro de austeridade (onde se
incluem o aumento de impostos e os cortes na despesa do Estado), como previa, se
perdiam entre 90 cêntimos 1,70. Ou seja, que a economia perde mais do que
ganha com a austeridade. Bem sei que no mastodonte de incompetência que é o
Fundo Monetário Internacional - que tem deixado um rasto de destruição em tudo o
que toca -, aprende-se lentamente e se trabalha em piloto automático, mas seria
bom que as conclusões a que chegam servissem para alguma coisa.
Terceira: as precisões da troika para a evolução do PIB
não valem um cêntimo. Recupero aqui um excelente quadro, feito pelo jornal
"Público", sobre o que foi sendo previsto nas sucessivas revisões do
memorando de entendimento. Na sua primeira versão, dizia-se que o aumento do
PIB seria, em 2014, de 2,5%. A previsão manteve-se em Setembro de 2011,
na primeira revisão. Na segunda, em dezembro, já era de 2,4%., Na
terceira, em abril de 2012, era de 2,1%. Na quarta, em Junho, era ainda de
2,1%, mas na quinta, em outubro, quando finalmente os efeitos das
receitas recessivas da troika se começaram a sentir a sério, tinha passado para
1,2%. Um mês depois, em novembro, a sexta revisão já fala de 0,8%.
Acho que estamos conversados sobre as capacidades técnicas destes senhores em
preverem os efeitos económicos do que defendem. Por isso, se é para
destruírem um país, que ao menos o façam calados".
Luis Filipe Vieira (LFV) venceu ontem, sem surpresa, as eleições para a presidência do meu Benfica.
O resultado eleitoral (83%) demonstra, quanto a mim, a ausência de alternativa credível ao status quo: Rui Rangel não foi capaz de se mostrar como uma saída viável para o panorama actual, que é pouco menos do que desolador.
Desolador porquê?
Porque não há alma benfiquista neste mundo que se reveja neste presidente.
Um presidente que cauciona erros palmares na construção da equipa principal de futebol todos os anos (não me refiro à necessidade de vender, mas à planificação elementar do que se compra e do que se vende);
Um presidente que não sabe proferir um discurso aos sócios, nem nos momentos (escassos) das vitórias;
Um presidente que não cumpre as exigências estatutárias para ser candidato às eleições (porque é óbvio que LFV não é sócio há 25 anos ininterruptos do SLB - ver link);
Um presidente que, em 2009 (nas eleições anteriores), incumpriu flagrantemente os estatutos quando antecipou as eleições, após se demitir, numa manobra ilegal e digna de uma república das bananas;
Um presidente que é sócio do FCP e do SCP;
Um presidente que, é preciso admiti-lo, leva lições sucessivas de Pinto da Costa, porque o tenta imitar no estilo, quando essa seria a última coisa a fazer.
Enfim.
Claro, porém, que Vieira fez obra.
Fez o estádio. Fez o centro de estágio. Protegeu as modalidades. Fez (mal ou bem) a Benfica TV. Incrementou a marca Benfica.
E, sobretudo, levantou o clube do abismo aterrador do que foram os anos de Damásio e Vale e Azevedo.
Por isso tem o reconhecimento que lhe vale 83% numas eleições em que (de novo) correu sozinho.
Reconheço isto.
Como reconheço, serenamente, o que aí vem nos próximos quatro anos do mandato de LFV que agora se inicia: mais do mesmo.
Isto é:
- O Benfica ganhará, quando muito, um campeonato nos próximos quatro;
- O Benfica continuará a ter 90 jogadores sob contrato (uns 70, se excluirmos os jogadores que transitam das camadas jovens);
- O Benfica continuará a ter uma estratégia errática no que toca ao poder instituído no futebol profissional e na arbitragem (com a FPF à cabeça);
- O Benfica verá o FCP continuar a sua hegemonia dos últimos 25 anos.
Estou certo disto.
Oxalá me engane.
HDF
(este post está excepcionalmente assinado com o meu acrónimo, uma vez que o 2.º signatário deste blogue integrou a comissão de honra da candidatura de LFV).
Chega dos dislates de Ferreira Leite. Chega dos seus comentários "económicos". Basta!
Tenho o maior dos respeitos por esta estimável senhora, cuja idoneidade e seriedade não me atrevo a questionar: tanto é mais do que o bastante para a respeitar e estimar, sobretudo nos dias que correm.
Repito: não duvido da sua honestidade, dos seus princípios e do seu carácter. Genuinamente.
Mas é tudo.
Do ponto de vista político, principalmente hoje, reconheço-lhe zero.
Desde que abandonou a liderança do PSD, Manuela Ferreira Leite nunca logrou abrir a boca para dizer alguma coisa que aproveitasse ao país.
Pensei, a princípio, que o fenómeno se devesse a uma rezinguice (até certo ponto, compreensível) pelo falhanço rotundo em que redundara a sua tentativa de glosar uma "dama de ferro" na liderança do PSD. Mas desenganei-me rapidamente: já lá vai tempo demais sem que o disparate tivesse cessado.
Ferreira Leite foi provavelmente a mais tacanha ministra da educação de todos os tempos, ainda na época da governação de Cavaco.
A crispação foi tanta (já no estertor do cavaquismo) que a respeitável senhora se constituiu, num passe de mágica em que a política é fértil, numa espécie de reserva moral e "técnica" do PSD.
Até aí, tudo bem. A vida tem destas coisas.
E as catacumbas do Banco de Portugal serviam para a guardar.
Manuela voltou a entrar em acção no governo de Durão e Portas.
Nunca ninguém até então, como ela, falara tanto na necessidade de austeridade, contenção do défice, controlo das contas do Estado. Estávamos no pré-socratismo e a maioria dos portugueses nunca tinham ouvido falar com tanto alarme do défice, de programas de estabilidade e crescimento e no pacto com a mesma designação.
Se já ninguém se lembra, eu recordo: foi aí que o número mágico dos 3% do défice efectivo do orçamento saltou para as parangonas dos jornais e para tudo o que era telejornal. A depressão e a "fossa" da austeridade (que, agora, tanto afligem Ferreira Leite) começaram aí. Precisamente aí, quando ela era ministra das finanças.
Esclareça-se: os mais brutais disparates feitos nas finanças portuguesas já vinham do passado, mas foi no ministério de Ferreira Leite que começou o assanhamento da retórica depressiva - ninguém se lembra de que foi então que nos disseram, pela primeira vez em muito tempo, que estávamos "de tanga"?
Eu lembro.
Lembro-me bem que Ferreira Leite cavalgou nesta retórica até ao governo de Durão se despenhar em chamas. Isto, claro, depois de um desempenho de Manuela nas Finanças que toda a gente faz por esquecer e que teve como pontos altos a "luz verde" do seu ministério para a aquisição dos famigerados submarinos e, sobretudo, a venda de créditos fiscais ao Citigroup. Isto, claro, para não falarmos no uso e abuso de receitas extraordinárias (a meter traficâncias com arrendamentos de imóveis do Estado) para mascarar os buracos orçamentais.
Como vivemos num país sem memória, tudo isto ficou obnubilado pela espuma dos dias. Também, evidentemente, porque a seguir tivemos o inolvidável Governo de Santana, cujas erupções diárias como que faziam a História do país voltar a zeros todos os dias. E porque Manuela, reconheça-se (muito embora, não desinteressadamente), se perfilou, dentro do PSD, como uma das mais ferozes adversárias desta insanidade.
Depois, veio Sócrates. E, claro, vieram os respectivos desmandos.
E Manuela, quase sem saber porquê, já líder do PSD (após purgas inesquecíveis), no fim dos primeiros quatro anos da governação socrática, viu-se diante da oportunidade de chegar ao poder.
Uma oportunidade real, que teria poupado ao país os dois anos seguintes do segundo Governo de Sócrates, cuja sorte estava à partida traçada pela sua incapacidade de governar sem maioria absoluta (e de se entender com quem quer que fosse para formar esta maioria).
E foi aqui que todas as dúvidas - se é que existiam - se dissiparam.
Relembro que Sócrates estava em dificuldades (a crise financeira internacional já rebentara há bastante tempo) e que havia sondagens que colocavam o PSD de Manuela em São Bento.
O que se seguiu foi o maior maior espectáculo de incompetência e falta de habilidadepolítica de que há memória (e que, repito, custou dois anos - dois dolorosos anos - de inacção ao país).
PS e PSD estavam lado a lado.
Manuela chegou aos debates decisivos depois de se ter recusado a ter uma equipa a prepará-la para os confrontos decisivos. Na sua cabeça, não precisava de ninguém. Mesmo no século XXI.
O primeiro debate foi com Portas (para fixar o eleitorado mais à direita). O resultado foi desastroso. Portas esmagou de tal forma, que me é difícil recordar um debate em que um dos contendores tenha saído tão vergado.
O último dos debates foi com Sócrates. Outro massacre brutal, frente a um preparadíssimo adversário.
Num destes debates, Manuela trocou três vezes - repito, 3 vezes - o IRS com o IRC. E não se enganou nas siglas: o erro era real, e tinha a ver com a taxa de imposto. Não era um lapso. Foram 3 vezes a falar de uma taxa de tributação sobre as empresas que é impossível numa economia de mercado. Três vezes, num desnorte total.
Sócrates, mesmo em grandes apuros, venceu as eleições.
Não foi, na verdade, Sócrates (de quem o país já estava exausto) que as ganhou. Foi Manuela Ferreira Leite quem as perdeu. E com toda a justiça.
Porque o eleitorado se apercebeu que a suposta superioridade "técnica" de Leite era uma fantasia. Porque ficou patente a falta de preparação da candidata e a sua teimosia obstinada em rodear-se de gente pensante que a pudesse "preparar".
Porque se tornou evidente - não tenho receio das palavras - que tudo se tratava de uma enorme imposturice.
O povo percebeu tudo isto e, entalado (mas sábio), preferiu ver Sócrates acabar consigo próprio, sob pena de o seu fantasma (caso fosse desinstalado precocemente) ficar perenemente a pairar sobre os destinos do país.
E assim foi, com Manuela rapidamente desalojada (dada a sua manifesta incapacidade para receber o poder de bandeja) e com Passos Coelho pronto para receber no colo aquilo que dois dedos de testa teriam antecipado dois anos.
Aí está, pois, o Governo que temos.
Mas com a incansável Manuela sempre nos seus calcanhares. Rosnando. Em repetidos e sucessivos apartes, sempre a coberto da sua "competência técnica" em matéria financeira e orçamental.
Hoje, Manuela, numa conferência, decidiu dizer, para os media ouvirem, que "interessa pouco não entrar em falência se está tudo morto" (ver link).
É uma espécie de glosa a Keynes, que dizia, esse sim sabiamente, que a "longo prazo, estaremos todos mortos".
E Manuela concretiza: “se conseguirmos fazer a consolidação orçamental até 2014 interessa-me pouco não entrar em falência se simultaneamente está tudo morto.”
Digo eu: Basta! É demais.
Depois de ter aplicado umas finanças de pacotilha quando esteve no Ministério e ter inaugurado o furacão da austeridade (que nunca mais cessou, com maiores ou menores intermitências), depois de ter inaugurado a retórica da "tanga" e ter trazido, pela sua mão, o país para a recessão e o estado depressivo de que nunca mais se viu livre (no ciclo vicioso que conhecemos bem), como é que Ferreira Leite tem cara para vestir agora a pele do cordeiro preocupado com as repercussões sociais da austeridade?
Como é que Ferreira Leite se dá ao luxo de condenar a austeridade deste orçamento? Ela, a "dama de ferro" da austeridade.
Tenho escrito pouco aqui. E não fora hoje, 17 de Outubro, ter ouvido, no jornal das 22h da SicN, Silva Lopes, provavelmente suceder-se-iam mais uns dias até que voltasse a estas paragens.
Nos dias que correm, é extraordinariamente difícil manter a lucidez no comentário e na análise. E a televisão tornou-se um desfile insuportável de opiniões medíocres e interessadas. Normalmente, um cortejo de banalidades.
Silva Lopes, com a competência habitual, luziu, hoje à noite, neste decrépito cenário.
Lúcido, reflexivo mas assertivo, politicamente desinteressado, tecnicamente coerente e sem catastrofismos ou demagogias baratas. Uma raridade, portanto.
Mas o que disse, então, Silva Lopes?
Coisas concretas e acertadas, sem falsas simplificações - outra extraordinária raridade, nos dias de hoje. E sem empolgamentos à moda de Medina Carreira.
Comecemos pelo Orçamento (OE).
Estribado em contas simples, mas sem serem de faz-de-conta, Silva Lopes explicou, serenamente, que o cenário macro-económico em que o Governo alicerçou o OE dificilmente se verificará, o que inevitavelmente redundará na necessidade de novas medidas de austeridade, a fim de que os compromissos com a troika em matéria de défice não sejam quebrados.
Até aqui, não há novidade: nenhum mortal crê no contrário. Não há memória de um OE em Portugal (a cargo deste ou de outro Governo) que assente em previsões económicas com aderência à realidade.
Ainda a propósito do OE, debruçando-se concretamente sobre o IRS, Silva Lopes disse também o que se mete pelos olhos dentro: a diminuição dos escalões do IRS dá cabo da progressividade do nosso imposto sobre o rendimento das pessoas físicas, a despeito de o Governo usar precisamente a bandeira da progressividade para justificar as recentes opções fiscais.
Aqui, Silva Lopes foi até mais longe: explicou que, ao invés, caminhamos para a regressividade e demonstrou-o com mais alguns cálculos que, todavia, não puderam ficar inteiramente claros porque a inefável Ana Lourenço, sempre de bujarda em bujarda, o interrompeu até ao limte do suportável.
Foi pena. No entanto, penso que tudo teria ficado mais nítido (e mais tempo teria sobrado) se Silva Lopes se tivesse limitado a vincar uma ideia simples (mas que toda a gente que sabe o que significa o conceito de imposto progressivo entende): quanto menos escalões diferenciadores dos rendimentos existirem, menor é a capacidade do imposto para fazer o tratamento diferenciado dos diferentes rendimentos, pelo que, obviamente, a taxa média do imposto se torna menos sensível às variações na capacidade contributiva (e, logo, menos progressiva).
Mas adiante, até porque o melhor estava para vir.
Silva Lopes já desancara o brutal aumento de impostos trazido pelo OE e as mexidas no IRS. A seguir, explicou, sem sobressaltos (pese embora os apartes abelhudos com que Ana Lourenço o ia distraindo), o que toda a gente também já percebeu: esta receita de que o Governo agora lançou mão não resolverá o que quer que seja, porque apenas acentuará o ciclo vicioso em que estamos enredados.
De facto, maior carga fiscal (a curva de Laffer que o diga...) e mais austeridade apenas trarão maior contraimento à economia, a qual, por sua vez, por estar cada vez mais anémica, gerará nas contas do Estado (até pelo minguar das receitas fiscais) novos buracos que, por sua vez, reclamarão mais austeridade. E assim por diante...
Isto é óbvio, e é o que a esquerda esclarecida tem dito, cheia de razão.
Faltava dizer o resto, que a esquerda irresponsável não diz, e que Silva Lopes deixou muito claro: rasgar o acordo com a troika e dizer "não pagamos" (mostrando, ou não, o rabo em manifestções de rua) não resolverá qualquer problema. Pelo contrário, agravará tudo. Como é evidente. Porque aí, sim, posta a troika em debandada, ficaremos com os rabos a descoberto, quer queiramos, quer não. Sem conseguir financiar a economia com um tusto, sem o Estado ser capaz de assegurar o mais elementar dos pagamentos.
E, então, "em que é que ficamos"?
Ficamos com a extraordinária honestidade de Silva Lopes, capaz de evidenciar as más escolhas que o Governo, desde Setembro, tem feito (não resisto a apontar que o ministro Gaspar foi para férias cheio de prestígio...), mas também de admitir que o problema não pode ser resolvido com um patético "que se lixe a troika".
Mais: como muito boa gente tem dito (Krugman, por exemplo - ver link), Silva Lopes também pensa - e bem - que o problema é apenas em parte nosso (e do nosso suposto vício de "vivermos acima das nossas possibilidades"). Indo à raiz dos problemas, tudo tem sobretudo que ver com os dogmas monetaristas e de estabilização dos preços a todo o custo, em que a UE sempre assentou. E numa terrível incompetência da União para lidar com a crise, na medida em que os empréstimos aos países em apuros são sempre curtos e fora de tempo, o que lhes impõe sempre mais austeridade e, por conseguinte, mais recessão (a qual, por sua vez, mais austeridade reclama).
Resumindo: o medo crónico que a Alemanha sempre teve dos surtos inflacionistas (dado o trauma da década de 30) tem tolhido a Europa de soluções que uma crise da gravidade desta exigia.
A incompetência das lideranças puramente tecnocratas e a fraqueza política da União faz o resto.
Já achava tudo isto.
Depois de Silva Lopes ter dito, fiquei com a certeza.
Percebe-se agora, na plenitude, o significado deste cartaz.
Duarte Marques, líder da JSD, disse ao PÚBLICO (ver aqui) - e estou a citar - que "ele é muito bom, mas se o António Borges tivesse passado uns anos na "Jota" há muito erro que não cometeria ...".
Fiquei esclarecido.
Para Duarte Marques, o "futuro" é isto.
No exemplo dado, Borges simboliza as oportunidades perdidas. Pressuponho que a antítese seja, por exemplo, Relvas (com vasto currículo - talvez por inteiro - nas Jotas).
Para Duarte Marques, Borges deveria ter trocado a construção de uma carreira internacional prestigiada e cheia de sucessos na Goldman Sachs pela emoção única de colar uns cartazes ou pelo frenesim de brincar aos caciques em eleições de bairro.
Tivesse Borges feito isto e teria aprendido que não faz qualquer sentido lançar para a discussão pública (depois de devidamente autorizado pelas chefias do governo e do partido) uma hipótese de solução para o imbróglio da inefável RTP.
Borges teria sabido que não vale a pena. E teria sido muito mais "competente", cuidando do seu "futuro" político. Isto, claro, segundo a cartilha do "jovem" Duarte Marques. Porque, para ele, a competência é tudo.