quarta-feira, 17 de setembro de 2014

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Carta a Madalena Caixeiro - "Há mar e mar"

Falou-me, há uns dois anos, no prazer de ficar.
Porque eu o tinha experimentado, pretensamente, desde sempre (numa teimosia que eu pretendia que fosse rebelde), nunca me esqueci dessa tarde de Verão.
Disse-mo num tom levemente altivo, como se eu não fosse entender. E eu, sem me importar, regozijei: eu também queria (e achava que tinha) o prazer de ficar - até ao fim. E sabia, claro, que esse prazer se alimentava de uma espécie de segredo impartilhável, sob o pretexto de que os outros não seriam capazes de compreender.

Nessa tarde de Verão,  percebi que a vontade (sim, a vontade) de ter o prazer de ficar não era só minha, o que tornava esse prazer, tudo somado, menos sedutor. E que o meu deleite com o pretexto em que ele se ancorava - pese embora tivesse que ser só meu - era também Seu, ainda que pudessem ser diferentes (e eram com certeza) os cambiantes do nosso artifício.

Passou, porém, pouco tempo até que eu aceitasse que o meu verdadeiro prazer não estava em ficar, por muito que isso me soubesse a rendição. O meu prazer era voltar.
Não era ir, não era ficar. Era voltar.

Escrevi, por isso, nessa altura (e neste blogue), isso mesmo, ainda sem me esquecer da mesma tarde de Verão:
"Já me falaram no prazer de ficar.
Mas como fico tanto, adoro a vertigem de ir - e só, para anular o tempo.
E para então, sim, poder voltar. Sempre."

Outro tempo passou e eis que dei comigo, agora sem rede, a "fugir de mim para me encontrar".
Também isto foi - outra vez - o prazer de voltar (desta vez, a mim), por muito que eu tivesse querido apenas ir.
É onde estou.
Mas percebo enfim que pouco releva ir, ficar, ou voltar (onde?), porque o que importa são as tardes de Verão.
Se ficar for isso, eu fico também.

Um beijo,
H.
 
Em Junho de 2014.

 

segunda-feira, 19 de maio de 2014

A propósito do Direito (e a propósito de tudo e de nada)



Há vários anos que, sem azedume, desvalorizo olimpicamente o Direito.
Desencanta-me o serviço que acaba prestando. E não posso senão menosprezá-lo: diverte-me.

Apesar de em tempos idos me ter feito esquecer disto, nunca estive tão certo de ter razão (como se isso importasse).

Depois do tédio dos interesses, o que, afinal, sempre releva é o verbo e a vírgula, que são o que fica. E a volta feita de uma argúcia mal empregada porque podia ter sido noutra sede.

Não por não ser bom quando temos razão - o que é mais raro do que devia. Mas por ser o Direito, no fim, uma fatal contingência e pouco mais do que persuasão.
Não é cinismo. 
Bem sei que há o belo, o bom e o justo. Mas o Direito (que, na sua insignificância, até constitui ofício) remete-se a uma simples coincidência com eles: a um instrumento. Pode até ser belo, sem ser bom ou ser justo (qual justo?), quando o critério é só meu e prescinde do outro num juízo que só pode ser nosso.
É certo que o Direito não é só carne, o que o torna mais perturbante. E há a forma  - que, nele, por ser muitas vezes cheia de tudo, constituiu um último reduto de esperança para mim. Mas sobra sempre - depois do que não pude (nem quero) ter visto - o travo do argumento elegante e o contentamento fugaz que dele é próprio.
É pena, porque era um sonho ambicioso na floresta das coisas. Mas vale o que vale: pouco - porque há sempre um mas - e, por isso, nada.
"E todavia"...



Em Maio de 2014
 

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Vasco Pulido Valente e o 25 de Abril




Deixei passar um certo tempo (não, primeiro, por ter querido mas, depois, por isso ter sido útil) para ler esta entrevista de Vasco Pulido Valente (link).
Não é que se lhe desculpe porque, em rigor, não há nada para desculpar. Pulido Valente não disse o que pensa, o que é um hábito seu. Trata-se apenas de outro dos seus deboches, desta feita despido da elegância da sua escrita - o que piora tudo e chega a tornar-se grotesco.
Mas era que fosse insuportável que (este) Vasco queria que fosse o seu ódio: para que, no enredo das contradições e dos dislates, não houvesse tempo para ter pena. Dele, claro.
Por isso não tem interesse mandar-te à merda, Vasco. Porque era o que tu querias - e nós sabemos.

 

domingo, 13 de abril de 2014

Que memória, depois, guardarei eu deste tempo?

 
Kasparov (outra vez ele) falou de memória e de fantasia. E, claro, também do tempo.
Sem as querer anular, acho sempre que a fantasia também é (porque se faz de) memória e que a memória é, numa boa parte, fantasia.
Podia ficar a faltar o tempo mas, desse, pode apenas apropriar-se a memória.
É pouco - como a carne. Mas já é alguma coisa.
 
Devo andar criativo...
- o que, evidentemente, não é bom: pelos desassossegos e pela abundância nefasta de vírgulas.

 

sexta-feira, 4 de abril de 2014

O tempo e a música

 
 
 
Dizem - digo eu, pelo menos - que a música tem a singular propriedade, verdadeiramente única, de ser capaz de nos transportar no tempo, fazendo-nos sentir, depois de certo tempo ter passado, exactamente como sentíamos certas coisas num outro tempo.
Visceralmente.
 
Não se trata de um efeito inteiramente voluntário, porque resulta apenas - ao menos inteiramente - quando a música em questão está um certo tempo (outra vez o tempo...) sem ser ouvida.
 
Todavia, o efeito pode ser parcialmente voluntário (ou até induzido), pese embora isso seja certamente abnorme: podemos passar x anos sem ouvir certo tema para que depois possamos sentir, num momento futuro, o que cá atrás sentíamos (e como, cá atrás, o sentíamos).
 
Todos sabemos que este se trata de um efeito maravilhoso (porque realmente mágico) mas que, decerto, é conhecido e experimentado por muitos (e eu acrescento: ainda bem!).
 
Fenómeno diferente (e, para mim, desconhecido até há bem pouco tempo) é um outro.
Refiro-me à música de que sempre moderadamente gostámos mas à qual, por uma ou outra razão, nunca ligámos muito e que, um dia qualquer, também por razão alguma, nos toma de assalto e nos esmaga por, de repente, a acharmos monumental.
A música "não nos diz nada" (isto é: não opera em nós o efeito que primeiramente descrevi porque, como música, era insignificante) mas passa, subitamente, a dizer-nos muito, sem que possamos compreender porque nunca nos tinha dito nada.
Qual metamorfose, é uma outra propriedade assombrosa. Também por ser - esta sim - integralmente alheia à nossa vontade.
E talvez também porque, num exercício maquinal, logo nos damos conta de que projectamos que a mesma música - velha e por nós conhecida, mas só agora verdadeiramente por nós descoberta - nos poderá transportar, num momento futuro, cá para trás.
Quando quisermos.
 
Abril de 2014

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Vigorous writing (E.B. White)

 
 
"Vigorous writing is concise. A sentence should contain no unnecessary words, a paragraph no unnecessary sentences, for the same reason that a drawing should have no unnecessary lines and a machine no unnecessary parts. This requires not that the writer make all his sentences short, or that he avoid all detail and treat his subjects only in outline, but that every word tell" - E.B. White (Elements of style).
 
 

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Numa '"ânsia colectiva de tudo fecundar" (José Mário Branco): a minha esquerda

Se lhe chamam esquerda, nisto sou de esquerda. Porque esta é a minha esquerda - aquela que, para mim, é a verdadeira esquerda e de que pouco me importa que dela me aproprie. Aquela para a qual não releva o contraste entre direita e esquerda (o que é isso?), por ser irredutível o que acima disso paira e verdadeiramente interessa (e que - ainda bem... - nao tenho que descrever aqui).


Guardei isto (na sua absoluta genialidade), para mim, durante 15 anos, mesmo sabendo que não era só meu e que a ficção de que fosse (que eu sabia, sem pudor, ser intolerável) não importava.
Mesmo há 15 anos - e sem que isso também relevasse ou, de algum modo, a razão importasse - eu já sabia, para desconforto de alguns (que nunca, em rigor, compreendi), quem tinha sido Pinheiro de Azevedo, Acácio Barreiros, Jaime Neves e outros, que salpicam o início triunfal de "FMI".

Mas foi há bem menos tempo que descobri que o que, afinal, mais releva em o "FMI" é isto, no que hoje encontro, também, a tal (minha) esquerda, bem diferente - e acima - daquilo que se convencionou chamar-se de "esquerda" (ou de "direita"):

"Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar..."

Foi aqui que, confesso, não resisti a recostar-me numa almofada (decerto, para alguns, de cunho capitalista) e, despropositadamente (mas com um sorriso), lembrar-me de Sócrates. Sim, de José Sócrates e da sua "esquerda" (a par da de outros)... Ele há coisas do diabo!
Demorei também demasiado tempo a descobrir isto (é para ouvir de fio a pavio):


Mas cheguei cá a tempo.
Afinal, José Mário Branco tambem diz que "resistir é vencer" (o nome do disco e do concerto). Como se vê (e ele que me perdoe), trata-se apenas de dizer - numa língua diferente da de Churchill e partindo de outro ilhéu ideológico (porventura de apriorismos mais sãos) - "we shall never surrender".
Não há, no que verdadeiramente interessa (que é muito pouco), diferenças de monta.

Obrigado pelo Zé Mario, Pio.

(texto editado em 5 de Dezembro de 2015)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O Pedro e a Carolina

Deambulando, encontrei isto no Malomil (ver este link e o link para que ele remete).
Nao me soube a uma historia como outra qualquer.

O (meu) mundo esta' perigoso.



(Afinal, dizem que hoje e' dia dos namorados).

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Isoldes Liebestod - Waltraud Meier


I'm back on track.
Once more.

Os ultimos dias foram passados em Guilege, Canquelifa e Madina do Boe.
Por Tete tambem passei.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Demasiado perigoso

"I just can't listen to any more Wagner, you know... I'm starting to get the urge
 to conquer Poland" - Woody Allen.
 
 
 

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Bom Natal

Quis eu - e o destino também - que este Natal seja passado na Ásia.
Depois do desencanto (nem sei bem por que razão) com os últimos Natais, far-me-á bem que assim seja. Re-aprenderei - como tantas outras coisas que já soube (e que agora descobri outra vez) - o valor do Natal.
Do que já estou certo é de, outra vez, ser capaz de dizer (coisa que nos últimos anos não fiz, por não conseguir fazê-lo senão com inteira genuinidade): Bom Natal!
Muitas vezes - e para muitas coisas - é preciso estar longe. Não pelo prazer de ir ou de ficar. Mas pela alegria de voltar.

 

domingo, 24 de novembro de 2013

Growing up

 


"The greatest enemy of knowledge is not ignorance, it is the illusion of knowledge".

Game over


Kasparov vs Magnus Carlsen

 

Em 2004, Kasparov jogou num torneio - como o video demonstra - contra Magnus Carlsen. Carlsen tinha 13 anos de idade e um comportamento desconcertante. Empataram.
Esta semana, Carlsen sagrou-se campeao do mundo de xadrez (contra Anand).
Chamam-lhe o "Mozart do Xadrez". Quem o treina? Kasparov.


 

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O meu encontro com Kasparov


Hoje conheci Kasparov.

Na minha imensa insignificância, confesso que não resisti à tentação de o olhar nos olhos. Tentei repetidas vezes – para lhe captar a expressão deles. Saboreei-o umas poucas.
Disse-lhe, no fim daqueles curtos minutos: "It was a great honor to meet you".
Logo no momento seguinte, compreendi que nunca uma formalidade tinha feito tanto sentido quando dita por mim a um estranho.
Foi como apertar a mão a um pedaço da História. Perturbante mas feliz.
E era apenas um homem.


PS – Ainda era dia 20. Kasparov veio a Macau (onde estará dois dias) para promover a sua candidatura a presidente da FIDE. Oxalá ganhe.