segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Do contra

É célebre a frase "sou tão do contra que, se houver Governo, eu sou contra".
Trata-se, porém, de um lugar-comum, sedento de simpatias.
Por isso mesmo, ser verdadeiramente "do contra" é tender a defender o Governo, qualquer que ele seja - de "esquerda" ou de "direita".
Trata-se de um exercício complicado, mas que aguça o engenho. E que garante a sina de estarmos sempre em saudável minoria em tudo o que é tertúlia. Porque não há tertúlia que se preze em que não se maldiga um Governo, independentemente da respectiva cor.
É bom sinal (porque significa que há liberdade para criticar as asneiras governamentais, que são, em geral - à "esquerda" e à "direita" - mais que muitas), mas é também um indício que leva a crer que eram os romanos que tinham razão sobre nós: "povo que não se governa nem se deixa governar". Se calhar, ainda bem.


segunda-feira, 11 de julho de 2016

Sim, é bola. E então?

Nos dias que se seguirão virá a ressaca da praxe: "isto é apenas futebol". E este amor próprio de que todos se insuflaram de repente cederá caminho ao cinismo que também é nosso.
Esquecer-se-á o arrojo de Fernando Santos que, imune ao problema de gerar expectativas que o podiam perseguir depois, resolveu, desde o início, que queria apenas ganhar, abandonando o discurso miserabilista que connosco nunca resultou: "só regresso no dia 11 e vamos ganhar". Fê-lo, de resto, sem nunca resvalar para a paranóia do "eu"; falou sempre em "nós", num equilíbrio perfeito para tanta ambição.
Nem o registo contará: foi o primeiro treinador português a ganhar uma competição importante de futebol sénior para Portugal. Com Ronaldo, com Sanches, com Patrício e os demais. Mas, sobretudo, com Éder - e na altura certa, como se a lógica fosse um tubérculo.

Já sabemos que amanhã seremos iguais: com os mesmos problemas, a mesma improdutividade, o mesmo défice, a mesma dívida.
Mas se, ainda que tenha sido por um só momento, esta vitória te fez feliz, não te importes. É esse momento que conta; é esse momento que ninguém te pode roubar. E é mesmo isso que interessa, ainda que seja só futebol.
Ganhámos.



sábado, 25 de junho de 2016

Let´s BREXIT

Nem tentem convencer-me de que alguém tem a mais ténue ideia do que vai acontecer. Como quase sempre, ninguém sabe.
Esta inclinação actual que pulula nos media para uma espécie de vidência é uma ofensa insistente a um dos mais salutares princípios desta vida: "de cada vez que o homem faz planos, Deus ri-se".

Desconhecendo o que vai acontecer, há pelo menos certezas sobre o que aconteceu. E uma delas é bem simples: tivesse a Grã-Bretanha votado no sentido oposto (o que sempre ocorreria por escassa margem) e nada aconteceria de diferente na UE. Nada.
Passariam 24 horas e o campeonato europeu de futebol faria esquecer que o projecto europeu tal como o conhecemos tinha estado a centímetros do fim. E nem era preciso haver Europeu de bola para isso. Até porque o referendo tinha sido convocado por Cameron pelas piores razões.

Gostava eu que o resultado tivesse sido diferente? Sim, provavelmente.
Mas não me venham vender que não devia ter havido referendo porque o resultado foi este. A democracia não é o vosso pronto-a-vestir. E são os defeitos dela que a fazem ser a mais bela forma de decisão até hoje encontrada.

Resultado: deal with it!
E agora (depois de nada haver a fazer quanto ao sentido dos votos que entraram nas urnas) pensem no que sobra de bom disto: é agora ou nunca que veremos se há "Europa" ou não.
É que desde os tempos de Delors que não há. E se não há, os Ingleses, ainda que (porventura) pelas razões erradas, votaram bem.

Resumindo: este choque era o único que podia servir à ideia de Europa com que se sonhou em tempos. Ou se aproveita, ou não. Não há nada de mais anglo-saxonicamente pragmático.
Agradece-se uma outra coisa: poupem nas descrições do "british way of thinking", tiradas do Readers Digest ou do Google, para explicar o voto dos britânicos.
A menos que tenham vivido lá uns anos, evidentemente (e não valem umas visitas ocasionais ao Big Ben para botar faladura...).

Let's brexit with no fear.
Chegou a altura de ver nisto a oportunidade que é. Se não for para ser aproveitada, andámos a brincar nas últimas décadas e é chegada a altura de mudar. Com ou sem dor - porque tanto faz.

domingo, 29 de maio de 2016

A história de Vítor Baptista no documentário do Expresso

Esta semana vi que (quase) tudo e todos andaram fascinados com um documentário do "Expresso" sobre Vítor Baptista.
Várias pessoas tiveram a gentileza de me enviar o tal documentário, e esperei por ter tempo suficiente para me pronunciar acerca dele.
Primeiro ponto: não fui dos felizardos que pôde assistir às exibições de Vítor Baptista. Com pena minha, porque estou certo de que era um fantástico craque.
Segundo ponto: não há cão nem gato que não conheça a história deste homem e, como tal, eu também - com os pormenores todos e com todas as supostas desventuras.
Terceiro: achei o documentário paupérrimo e indigno do fabuloso que foi Vítor Baptista.
Passo a explicitar.

O documentário é pobre em factos (mau no grafismo, patético na fotografia...) e ridículo na indigência das "petites histoires" (o admirável "episódio do brinco" está longe de ser o melhor de Vítor Baptista e já dá náuseas de tão estafado...).
O "documentário" refere-se apenas aos episódios que já toda a gente conhecia e concentra-se tão-somente no acessório (a glória desportiva, as origens humildes, a excentricidade e a queda nos malefícios da droga).
Mas adiante.

Sugiro aos que gostam do género (eu gosto) que vejam um dos muitos documentários (por exemplo, "one of a kind") que existem espalhados pela "net" sobre Stu Ungar. E, no cinema, que vejam (se possível, outra vez), "Leaving Las Vegas".
Só para recordarem o fascínio e a grandeza... da queda.

De facto, o que mais me irritou no entusiasmo com que este inefável documentário foi acolhido foram essencialmente três coisas: 1) o desconhecimento que parecia existir sobre Vítor Baptista (até eu, que não o vi jogar, conheço a história dele de trás para a frente e não fiquei a conhecer mais...); 2) o topete que é pôr homens como Valentim Loureiro (!) a falar de uma lenda que aparenta pouco ter conhecido; 3) a suposta "moralzinha de trazer por casa" que recheia o frenesim que excitou a maioria dos destinatários do "documentário".
Quanto ao último ponto agora referido, é muito simples: Vítor Baptista estar-se-ia borrifando para a lição "moral" que a maioria retira da sua história de vida.
Viveu o que quis e como quis.
Sugou o seu "tutano da vida".
"Aproveitou o dia".
Deve ter ficado grato por morrer e fê-lo sem remorso ou pena. Como um rei.
Ao olhar para trás, deve ter pensado muitas vezes na vida fabulosa que pôde viver. E decerto que encarou a sua própria queda com o entusiasmo de poder dizer: estou e estive sempre vivo.

O documentário delicodoce sobre o que a vida dele poderia ter sido caso tivesse escolhido o caminho "certinho" dar-lhe-ia náuseas. Ou pena.
Uma pena que, com certeza, nunca teve de si. Sobretudo, no fim.


domingo, 22 de maio de 2016

Que maravilha...

PARABÉNS!!!!




Invencíveis



Perdemos muitas vezes. Muitas.
E nāo é uma questāo de querer. É uma questāo de nāo poder. De nāo conseguirmos desistir. De acreditarmos que a vitória sempre virá, mesmo que a saibamos fugaz ou inalcançável.

Caímos ao chāo, outra vez. Pensamos que, desta vez, seria melhor ficarmos lá. Mas nāo conseguimos.
Era para ser dessa vez, mas nāo dá: é superior a nós.
Outra vez, mais uma vez e outra mais. Até ao fim.

Supostamente, haverá uma altura em que vai haver paz: se nāo formos imortais. E podemos sê-lo (o que piora tudo) - nos outros.
Triste malapata esta a minha. E tua também.


quinta-feira, 19 de maio de 2016

Risks



But perhaps the risk deriving from the possibility that you might be wrong in your beliefs (and you should always be aware of such risk) is just the perfect reason to die for, no? 
I mean... if you don't run risks you are already dead, man!...

Chatice: nem o meu inglês seria suficiente para fazer perguntas a esta lenda... quanto mais o resto :-(



frown emoticon quanto mais o resto!QUANTO MAIS O RESTO:-(

domingo, 8 de maio de 2016

"Sobrados de tempo"

Dizem-me - e leio - que havia tempos em que estávamos "sobrados de tempo".
Gosto do encadeamento das palavras; a composição tem a estética da matemática.
Mas cerro os olhos, penso nos eufemismos que detesto ("falecer" em vez de "morrer"...), e resigno-me à minha verdade pessoal: todos os dias andei atrás do tempo. Nunca me senti sobrado dele. Nem hoje, nem ontem - nunca.

É o que é.

O tempo - esse derradeiro mistério (para lá do que é insondável na morte) - convoca-me sempre para uma frase que antes saboreei com alguns bons amigos: "Este é o momento. Este é o tempo".
Depois, à medida que relembro um turbilhão de coisas, persiste em mim o frenesim do tempo. Daquele tempo que Einstein, com a sabedoria de sempre, definia simplesmente como "aquilo que o relógio diz", sem conseguir - nem querer - mais.
Aquele tempo de que andei sempre atrás, às vezes numa correria louca - sempre "cá dentro".

De facto, não dá para mais.
E aterra-me também a possibilidade de que o Direito tente reflectir, nas suas tantas imperfeições, sobre o tempo: "O tempo e a sua repercussão nas relações jurídicas" é provavelmente o capítulo mais grotesco dos temas tratados no Código Civil (porque exacerbadamente petulante mesmo na ambição do saber)... É quase a mesma coisa que ocorre quando os médicos querem dissertar sobre a alma: há coisas ditas com interesse, mas que sabem inescapavelmente a pouco e, no fim, a nada.
Pior só os juristas a fazerem-se de médicos em casa ou em inefáveis "escritórios", naquele exercício delirante que revigora o dizer antigo - e acertado - segundo o qual "de médicos e loucos todos temos um pouco".

Há, depois, a memória - que é provavelmente o único predicado do tempo em que persisto sempre. E de que não preciso de correr atrás, porque é ela quem se encarrega de me perseguir a cada passo.
Escrevi isto, algures no passado dos relógios:
"Sem as querer anular, acho sempre que a fantasia também é (porque se faz de) memória e que a memória é, numa boa parte, fantasia.
Podia ficar a faltar o tempo, mas desse pode apenas apropriar-se a memória.
É pouco - como a carne. Mas já é alguma coisa".

Foi, quase decerto, um momento de rara inspiração em mim.
Mas a que o tempo pode voltar atrás. Tal como acontece perenemente a todos.


domingo, 24 de abril de 2016

Algumas questões básicas de exegese da alma

1) Quantas vezes toleraste um "amigo" que sabes que não é teu amigo?
2) Quantas vezes te apropriaste das ideias dos outros, sabendo perfeitamente que não são tuas?
3) Quantas vezes fizeste por esquecer que sabes pouco ou quase nada?

4) Quantas vezes deixaste de ouvir o outro?
5) Quantas vezes trataste mal os outros só por saberes que não podem tocar-te?
6) Quantas vezes te impacientaste para explicar o pouco que sabes?
7) Quantas vezes trocaste o prazer rápido pela felicidade da conquista que conta?
8) Quantas vezes esqueceste que estas perguntas também são para ti?

As respostas (há muitas mais perguntas...) fazem parte de uma religião que é a que sigo. E pouco me importa que nome lhe chamam: é universal na razão.

(Do meu facebook)


Há que albardar o burro à vontade do dono


O meu avô materno, de longe (e bem longe) a pessoa mais inteligente e sagaz que conheci até hoje, dizia sempre, divertido, que é preciso "albardar o burro à vontade do dono" (o momento que reservava para o "statement" em que proclamava o instante em que a albarda era "atirada ao ar" era uma espécie de celebração gloriosa).
"Albardar o burro à vontade do dono" é um exercício de humildade fantástico que implica conhecer o outro e conhecermo-nos a nós. Sem concessão nos princípios, mas com a flexibilidade das regras.
De entre as várias lições de vida que Macau me trouxe (e que tive o privilégio de ir tentando aprender porque era delas que vinha à procura), o primeiro ano foi a confirmação acabada de que, de facto, os burros devem ser albardados à sua vontade, coisa que se torna mais fácil quando estão cegos pela imagem que, para seu conforto, foram formando de si - sempre preguiçando.
Depois, alguém faça o favor de explicar a esta gente que, feliz ou infelizmente, o Direito não é matemática - e que se fosse, seria complexo, mas muito mais simples.
Acresce que de verdadeira matemática sabemos (nós, juristas) pouco ou nada, o que piora tudo (a menos que nos lembremos disso a cada passo - outra vez com humildade).

Não sou capaz desta explicação, apesar de ela ser evidente.
Dá-me demasiado trabalho.
E estou, também eu, a ficar velho. E com menos burros para albardar - feliz ou infelizmente.

PS - Ah... e só para esclarecer: nunca tive "dono" (também graças ao meu avô). Mas essa é das peças fundamentais para "albardar o burro".

sábado, 9 de abril de 2016

João Soares: contra ventos e marés - não por ele, mas pelo que importa

A semana terminou com júbilo dos "media" e nas redes sociais: João Soares disse o que não devia e, por isso, foi defenestrado do governo.
Antes de mais, quero dizer que não conheço João Soares, não aprecio o estilo, e deploro a sua competência política. Nunca votei nele e dificilmente o faria - é um direito meu.
Assente - e bem assente - o que precede, eis o que se me oferece dizer sobre a troca de galhardetes ente João Soares, Vasco Pulido Valente e Augusto Seabra (é de uma verdadeira troca de galhardetes de que se trata: Seabra e VPV atacaram primeiro, Soares respondeu depois).
Vivemos hoje num mundo - em Portugal, copiando o que vemos noutros sítios - em que há uma sede de sangue implacável sempre que este jorra de feridas pequenas.
As grandes feridas já nos geram pasmo. E cuidados.

João Soares, num post facebookiano das 6:22 da manhã, prometeu uns tabefes a Augusto M. Seabra e a Vasco Pulido Valente.
Pela hora, é provável que tenha acordado mal disposto.
Esta promessa de uns tabefes (mera figura de estilo, como é óbvio) não é, no meu entender, a pior parte. A parte mais lastimável é aquela em que Soares, dando uma volta com pouco estilo, chama alcoólicos aos outros contendores.
Problemas evidentes disto: Soares era ministro e não pode falar ao mundo como um comum mortal, porque há uma espécie de código, ainda perene, que instila a convicção na populaça de que as figuras do estado têm qualidades semi-divinas. Duvida-se, aliás, se continuarão a usar a casa de banho.
Até aqui, tudo bem.
Mas sejamos sérios: leia-se a crónica de VPV (e eu sou suspeito porque gosto de muitas delas) e encontram-se lá criticas ao carácter e qualidades pessoais de Soares.
Não me interessa agora se bem ou se mal: o que é facto é que lá estão. E facto é também que Soares não deve ter gostado (e está no seu direito, porque ter-se tornado ministro não o obriga a engolir tudo - especialmente, o que vai para além da crítica ao seu desempenho governativo).

Provavelmente agastado e furioso com coisas que acabara de ler, Soares, eterno em tiros nos pés (foi assim que conseguiu perder a CML para Santana Lopes), dirigiu-se ao computador e escrevinhou o que foi capaz.
Reconheça-se que é difícil açoitar VPV por escrito (Miguel Sousa Tavares, por exemplo, que o diga). Vai daí, Soares, num estilo pobre, foi ao que tinha mais à mão: declarou apenas que distribuiria uns tabefes aos cronistas, mal tivesse oportunidade.
Oferecer retoricamente uns tabefes deve ser a arma argumentativa mais fraca nos dias que correm. É apenas o último recurso de quem perdeu a paciência e não tem arte para mais.
Mas é só isso.
É um pequeno episódio - mesmo muito pequeno - que mostra bem ao que chegámos.
Toda a gente da direita veio pedir a cabeça de Soares, num moralismo deprimente. Toda a gente de esquerda enterrou a cabeça na areia, sem argumentar. Para mais, era um ministro pouco importante: o da cultura.
O que quero dizer com isto é que, hoje em dia, como tantas vezes tento lembrar, já não há opinião não sectária (ou que pense pela sua cabeça, sem ser em manada) e que os media ganharam uma preponderância grotesca na determinação do que se pensa, muitas vezes - quase sempre - defendendo "ad nauseam" o "politicamente correcto".

Quem vir serviços noticiosos e espaços de opinião na TV (eu, para expiar os meus pecados, vejo), chega facilmente à conclusão da indigência aflitiva dos "jornalistas".
Sabem zero de Direito (isso posso garantir), embora opinem sobre casos judiciais e outros fenómenos jurídicos. Sabem zero (ou menos do que isso) de economia, embora de há uns anos para cá não falem de outra coisa. E sabem zero de cultura (de que também sei pouco): para eles, o mundo cultural é uma espécie de feira de "eventos".

Apanhado facilmente pelos "media" - que se indignaram com uma suposta "ameaça física" de João Soares a dois membros da "comunicação social" (ainda me hão-de explicar esta, porque acho que VPV insultaria quem lhe dissesse que é da "comunicação social"...) - o ministro estava perdido, sobretudo graças à sua intrínseca inabilidade política.
Em vez de ter ficado calado (para não dar lume à coisa), Soares veio perguntar - por SMS dirigido aos jornais (!) - se "tinha assustado alguém" (justamente para que se percebesse que só tinha sido uma questão de estilo: não queria açoitar ninguém). O que até tem a sua piada, mas é politicamente asnático.
Com isto fez crescer a bolha de criticas atávicas dos comentadores das televisões: veja-se, por exemplo, o eterno Bernardo Serrão (sim, aquele que perguntou, em directo, a Teresa Caeiro, na tomada de posse do anterior governo, porque tinha escolhido o vestido que levava à cerimónia...) que, tendo dificuldades em redigir o próprio nome, se lançou numa crítica lancinante ao insuportável comportamento do ministro.
Resumindo: no que começou por ser um episódio sem nada de especial, Soares conseguiu amplificá-lo e enredar-se numa teia que lhe fugiu completamente ao controlo.
Por pouco menos que nada!

Há primeiros-ministros que podem ter roubado milhões (não sabemos) mas que têm uma legião obstinada a defendê-los.
A João Soares ninguém defendeu.
Quase que apetece dizer: antes "gamar" do que "ameaçar".
Acho que também valia perguntar: está provado que foi Soares quem escreveu na sua conta de facebook? Não é que interesse, mas é só para se perceber a desigualdade com que os assuntos são tratados - nos media e nas redes sociais.

Costa, sempre politicamente magistral (e não interessa se se gosta ou não dele: enquanto o menosprezarem, irá de sucesso em sucesso, a menos que a Europa o trame), aproveitou logo para pôr borda fora um ministro que só escolhera por causa dos equilíbrios internos do PS. E não satisfeito, ainda disse que Soares "teria sido um óptimo ministro da cultura".
Mas se teria sido "tão bom" ou "óptimo" (o que, aliás, toda a gente duvida, inclusivamente o próprio Costa), porque aceitou o PM a demissão (que o próprio já antes induzira, através de uma curta declaração à imprensa)?
Porque as redes sociais - que o jornalistas muitas vezes copiam - e os serviços de imprensa já tinham feito todo o trabalho.
Para gáudio dos internautas. Para gáudio dos "jornalistas". Para gáudio de uma certa direita (que acha uma vitória colossal ter caído o primeiro membro do governo da geringonça). E para gáudio de uma certa esquerda (que se acha moralmente superior).

O triste disto é que o episódio mostra uma série de verdades insuportáveis:
1) em vez de discutirmos o que interessa, passamos a vida a rebolar de gozo com coisas minimais: as frases infelizes de Soares não são razão para que alguém "rasgue as vestes";
2) na comunicação social, atacam-se sem piedade pequenas "boutades", mas tratam-se respeitosamente (e com medo - porque não dizê-lo?) aqueles que são suspeitos de terem sido artífices de malfeitorias graves;
3) ser ministro passou a ser aquilo mesmo que VPV dizia, nas suas antigas crónicas, ser "perigoso" ("o mundo está perigoso"...).
4) a "opinião pública" não perdoa frases infelizes, mas elege alegremente Isaltinos, Valentins Loureiros, Macários, Judas, Avelinos, etc. Temos o que merecemos.

Não é que goste de João Soares. De facto, nunca gostei.
Mas agora corro o risco de gostar um bocadinho, o que me aborrece.
Tenham dó.


quinta-feira, 7 de abril de 2016

O DOUTOR BOLA



Rui Santos é o protótipo dos males que dilaceram este país.
É simples de evidenciar.

Não se compreende como é que um imbecil que mal sabe a regra do fora de jogo (como demonstrou no outro dia, quando acusou um jogador de estar em posição irregular depois de ter recebido um passe de um colega... para trás) dispõe, há uma década, de um programa semanal de opinião "futebolística" no qual disserta sozinho, sem contraditório.
O mau gosto na apresentação - e no aspecto - nem carecem de ser salientados: parece um playboy rural de metro e meio. Mas isso é, de facto, o menos.
O topete deste cretino ao dizer que é independente e sem clube (como se ter clube tivesse algum mal, conquanto esclarecidos todos para que possam julgar da sua opinião) colide com uma entrevista de há anos em que se assumiu como sportinguista. Mas não acho que seja verdade: este quadrúpede não é sportinguista - é brunildo-jesuítico, como fica à vista nos seus "comentários" recentes, sempre feitos a coberto de uma suposta "independência".
Crer, nem que seja por um segundo, no que reivindica para si Rui Santos - uma pretensa independência e objectividade - significa enterrar a cabeça na areia.
Rui Santos tenta falar bem e com palavras caras, num exercício de mediocridade atroz. Sempre respeitei quem tem uma linguagem simples e mesmo eivada de incorrecções. Desde que as ideias tenham um mínimo de honestidade, claro.
Não é esse o caso de Rui Santos, que pretende ser uma espécie de Dr. Bola, vomitando palavras cujo significado desconhece: alguém lhe explique, por favor, que ao contrário do que pretende dizer quando fala em "pressão supletiva" (como já várias vezes fez, sem que nenhum dos ignorantes que por vezes o circundam tenha sabido corrigi-lo), o que quer falar é em pressão suplementar (ou adicional).

Supletiva - ou seja, que nem precisa de ser mencionada - é a burrice deste prócere do futebol que temos.
Costuma criticar quem lhe convém - por vezes de forma infame - porque sabe que não tem contraditório.
Mas é um palerma sem verdadeira culpa. A culpa está em quem lhe dá o palco para se travestir de Dr. Bola.
Já chega.
É um insulto exibir em horário nobre os piores defeitos de que, por vezes, padecemos. Tudo porque, neste homem, esses defeitos são perenes.

E, note-se, não é uma questão de se ser do Benfica, do Porto ou do Sporting. É uma questão de decência.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

SOBRE AS VIRTUDES DO AFASTAMENTO DO PCP EM RELAÇÃO AO ESTALINISMO


Num tópico facebookiano de Bruno Abreu em que se reflectia sobre a não condenação do PCP em relação aos desmandos da "justiça" angolana, a conversa acabou por fluir para o estalinismo do PCP.
Deixei isto lá escrito (que agora editei), perante a defesa da tese segundo a qual o PCP se afastou, há muito, do estalinismo:

"Claro que o afastamento (mitigado) do PCP em relação ao Estalinismo tinha que acontecer. E aconteceu quando Kruschev (que fora perseguido por Beria) iniciou a "desestalinização".
O PCP e, em particular, Cunhal sempre fizeram da "disciplina" um dos esteios essenciais do seu "modus operandi": por uma questão de estilo, mas também de sobrevivência.
Ora, se os ventos que chegavam da URSS de Kruschev (russo, mas criado na Ucrânia) eram anti-Estaline (georgiano), claro que a "disciplina" obrigava a um certo afastamento do estalinismo. Tudo como sempre, portanto: a adoração do Diktat - o novo diktat.

É esta a verdadeira explicação para a existência de edições do "Avante" que evidenciam o afastamento em relação a Estaline. Mas essas edições são contemporâneas ou posteriores ao período em que Kruschev imperou (e ao V Congresso do PCP).
Não foi muito difícil ao PCP, quando o quis fazer, demarcar-se, mais ou menos vincadamente, do estalinismo. Tudo porque o estalinismo (e a evidência dos seus crimes atrozes, sobretudo na própria URSS) não constituía nenhuma "ideologia" (nem nunca Estaline perdeu tempo com devaneios "ideológicos"). O estalinismo era uma mera doutrina de acção: um modo de exercer o poder.
O estalinismo serve tanto a um totalitarismo de esquerda, como a um totalitarismo de direita. Conclusão: o PCP não teve que fazer uma inflexão verdadeiramente ideológica de cada vez que lhe interessou demarcar-se de Estaline. Era relativamente fácil. Isso já não é assim com Lenine; por isso é que nunca sucedeu".
Da próxima vez que falar sobre estalinismo, contarei aqui a única experiência estalinista a que assisti "in loco".
O estalinismo ainda existe em Portugal - até em pequenos redutos (amargurados) de poder(zito). Na minha experiência, envolveu o "julgamento" (moral, obviamente, como o estalinismo recomenda) de uma mulher grávida, à frente de "todos", com convite expresso à sua condenação generalizada (tinha-se "portado mal"). Com a receita completa: uma prédica inicial de auto-elogio (da "envergadura moral") do líder(zeco), seguida da palavra a circular pelos sequazes.

E, sim, foi em Portugal. Numa instituição pública. Em 2010.
Um mimo. Oxalá arqueológico. Mas inesquecível.

domingo, 3 de abril de 2016

Brandy (Herberto Hélder)


Levanto à vista


Ando há anos a dizer que há um risco sério de se gostar tanto da voz de Fernando Alves como da poesia de Herberto.

10 RAZÕES PARA APOIAR O ACORDO ORTOGRÁFICO

Como acho que os argumentos de quem defende o "acordo" são válidos (tenho esta mania de me esforçar por dar razão aos que sustentam o que não gosto...), resolvi presentear-me a mim próprio com uma lista de "razões" para apoiar esta empreitada.
Pode ser que resulte em mim. E que me convença, para além de ser um bom exercício de disciplina matinal.


1) O acordo é "SEXY". Há sempre alguma coisa de "sexy" (e de modernaço) na "mudança" e nas intenções semi-universalistas. Tem até uns toques de "esquerda progressista" e "politicamente correcta" (gosto, às vezes, da primeira; detesto sempre a segunda).
Volto daqui a nada: tenho que ir lavar novamente os dentes a seguir a enunciar esta primeira "razão". Estou com um sabor estranho na boca.

2) É boa ideia pôr todos os que falam a língua portuguesa a escrevê-la da mesma maneira, nem que seja à maneira "deles". 
O facto de Angola e Brasil não implementarem o acordo só nos deve dar mais força para o fazermos. Já.
Pena que isso não nos renda uns cobres extra, apesar da subserviência face à superioridade moral destes dois "países-irmãos": "irmãos", dizemos nós; "parolos" (quando falam de nós), dizem eles. Há, aliás, a vantagem de "parolo" manter a mesma grafia.
O piche angolano é, por exemplo, um bom motivo para que haja um tratamento de excepção na implementação do convénio; a exiguidade dos nossos recursos faz-nos merecer esta auto-punição imediata. O "alcatrão e penas" pode ficar para depois.

3) O "acordo" é um bocado do tipo "era boa ideia ter deixado o Eusébio, há umas décadas atrás, ir jogar para o estrangeiro". Era justo e era bonito. Sucede que, por causa do Benfica, tinha sido um barrete.
Era mais ou menos como mandar a Amália, com umas décadas de avanço, ir morar para Paris, para um apartamento do... Carlos Santos Silva.
Conclusão: apagar esta "razão".

4) O "acordo" é "chique", por ter uns laivos de multiculturalismo. Por motivos óbvios, apagar também esta "razão". E ir rapidamente trabalhar.
5) Como com o acordo ortográfico ninguém se vai entender, há uma panóplia considerável de erros ortográficos que passam a ser desculpáveis: um luxo, em momentos de crise, para que se poupe em livros!
6) Como a minha filha persiste, por enquanto (embora só com 4 anos), em não aprender cantonês e mandarim, nada como servir-lhe duas grafias diferentes desde tão tenra idade (em Macau não vigora o acordo e noutros países parece que será implementado no dia de "São Nunca" à tarde...). Pode ser que resulte. Pelo menos, é um começo...
7) Como não tem que imperar a racionalidade em tudo o que se escolhe, sou do Benfica. Porque não "ser do acordo ortográfico" também? Nahhh.. esta não cola...
8) Pôr os professores a fazerem exames de português não me parece mal de todo. E o Mário Nogueira também.
9) "A Bola" e o "Record" foram os primeiros a adoptar as regras do acordo. É um bom indício.
10) Segundo estudos recentes, consta que a má disposição prejudica a saúde e as ligações neuronais.

(O Gaitán tem o número 10; mas esta razão não pode contar porque seria a 11ª).
Em suma: boa sorte!

quinta-feira, 31 de março de 2016

Burro velho não aprende línguas

O acordo ortográfico é uma verdadeira dádiva.
Para encurtar razões, odeio o acordo ortográfico porque sim.
Não quero saber se faz sentido, estou-me borrifando para os argumentos que explicam a natural evolução da ortografia já tantas vezes ocorrida.
A verdade, nua e crua, é que o acordo ortográfico é daquelas coisas que merece uma moldura dourada: sem ele, haveria uma coisa menos com que eu pudesse embirrar à vontade, mesmo que sem razão.

É verdade que não devia estar em vigor à luz de inefáveis normas jurídicas? Não acho. Mas a verdade é que não quero saber.
É verdade que nenhum dos países signatários foi tão zeloso na sua implementação quanto nós? Claro. Mas é o costume. Somos frenéticos no que não releva.

Queria apenas dizer-vos o quanto me estou nas tintas para o acordo ortográfico. Nunca, mas nunca, vou escrever como ele manda.
Não vou argumentar. Quero simplesmente que vá para as urtigas e que morra longe. E, se quiserem, responderei em inglês: "call the police"!

Mas obrigado, acordo ortográfico... No emaranhado de cabotinice em que te enredas, há a feliz e brilhante manobra de as cabeças pensantes que se lembraram de te dar à luz terem ignorado Macau na sua... criação. Aqui não existe e é aqui que estou. Felizmente.
E ainda bem que todo o asneiredo de que me lembro mantém a mesma grafia: vou mantê-lo em "stock", num lugar especial.
E não, não estou mal disposto. Pelo contrário. Só tanto se me dá como se me deu.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Certezas matemáticas

É das poucas coisas na vida em que vigora a certeza matemática. Nunca falha.
Já tive a felicidade de trabalhar em vários locais, com imensas pessoas. Nos primeiros dias (e há testemunhas!), apenas catalogo de imediato um único género de sujeitos e de sujeitas, para os quais fico logo precavido: os que se revelam, sem notarem, pelos maus modos com que tratam os subalternos.
Na Europa, na Ásia, funciona sempre.
Normalmente meus "colegas", com as mesmíssimas funções, há um exército de idiotas que destrata os "funcionários", as "assistentes" (ou os "assistentes", embora estes sejam raros nos escritórios) e os membros do "secretariado".

É infalível: ou são autênticos débeis mentais, ou pertencem ao núcleo dos "esforçados".
Um "esforçado", apesar de cumpridor, tem zero de criatividade, é incapaz de fazer só por si e depende do rasgo e iniciativa dos outros para sobreviver (pelo que passa a vida a copiá-los). Como "sabe tudo" (a admissão da ignorância é uma qualidade que escasseia) tem como único propósito agradar ao "chefe".
É um mimo, porque normalmente o "chefe" tem um sexto sentido que o faz sentir uma certa repulsa por esta gente. Deve ser uma alquimia abençoada.

Vários anos a experimentar isto levaram-me a ser especialmente observador destas características na escolha das pessoas com quem trabalho. Quando posso escolher, claro.
O idiota que maltrata os que estão abaixo dele merece um tratamento implacável. Não que alguma vez vá aprender ou arrepender-se (é um defeito de carácter que não se corrige), mas impõe-se que se abatam sobre ele todas as maleitas e fúrias do capitalismo (que, aliás, servilmente aceita, sem hesitar ou questionar).
Não é apenas uma questão de não tratar mal os que estão funcionalmente "abaixo". É uma questão de os tratar especialmente bem.
É isto que é (e deve ser) revelador.

A única regra a seguir é nunca - em circunstância alguma - confiar neste exército de mentecaptos que faz abater o seu mau génio (aliás postiço) sobre os subalternos (exibindo simultaneamente uma enternecedora candura perante o "chefe").
Tudo porque são capazes de vender a mãe e oferecer a avó de brinde.

Mas o mais espantoso é a transversalidade desta prática: vi-a na Universidade (onde comecei a dar aulas novíssimo, com 24 anos e, confesso, me fazia alguma impressão o modo quase servil como éramos tratados por alguns), em escritórios de advogados, em empresas, em quase todo o lado. E há certamente muitos sítios, que nunca conheci, onde o mesmo fenómeno existe.
O denominador comum é a mania destes indigentes que pensam que "os piolhos comem alface e andam de avião".

Às vezes, fora o escárnio, chegam a dar pena.
É que, como que por justiça divina, acabam sempre mal. Ou logo, ou depois.
De facto, "quem nasce lagartixa nunca chega a jacaré".
Espera-se.

segunda-feira, 21 de março de 2016

O teu melhor


O desapontamento que os outros nos trazem é, muitas vezes, tão frustrante quanto simples de evitar.
Basta que nos contentemos com o facto de podermos saber que nos deram o seu melhor.

Quantas vezes damos o nosso melhor a alguém e isso é pouco? Muitas.
Mas a incompreensão do outro quando lhe demos o melhor de nós não pode ser a mesma de cada vez que nos dá o seu melhor.
Esta dádiva pode ser curta, cheia de defeitos e de hábitos que nos custam a suportar. Mas, nos casos em que pudermos saber que isto é o melhor que podemos receber do outro, já é muito.
Tento lembrar-me disto de cada vez que me revolto e dirijo a minha fúria contra o próximo que sei que tem afecto por mim.
Se souber que me dá sempre o seu melhor - que o tenta - já estou a dar-lhe também o meu melhor. Só porque o compreendo. E o mundo fica mais são.


domingo, 20 de março de 2016

Adeus / Goodbye

ADEUS
Era um dia normal em Istambul.
Uma mulher acena em sinal de adeus, momentos antes de uma bomba suicida ir pelos ares.
Não é só o terrorismo mas, de facto, há uma linha muito ténue (feita de espaço e de tempo) entre "o que é" e "o que virá a ser". Sempre.
E tu? Já te lembraste hoje que daqui a 15 segundos podes estar morto?
Aproveita o dia. Mas segue em frente.


GOODBYE
It was just another day in Istanbul.
A woman waves goodbye just moments before a suicide bomb goes off.
It is not only due to terrorism but there is a very thin line (made of space and time) drawn between the "present" and the "future". Always.
What about you? Have you realized today that you can be dead in the next 15 seconds?
Seize the day. But keep going.


http://www.express.co.uk/news/world/653956/Istanbul-suicide-bomb-video-woman-waves-goodbye

quinta-feira, 17 de março de 2016

O óbvio: Lula e Sócrates

Sim, já sei que aquilo que é vendido como "óbvio" se destina, as mais das vezes, a enfiar uma patranha em incautos. Mas há coisas que, de facto, se metem pelos olhos dentro.
1) É óbvio que é vergonhoso, ridículo e inaceitável que quaisquer escutas (pela intrusão que corporizam) sejam divulgadas à opinião pública. Mas daqui só deve (e pode) resultar a punição exemplar dos responsáveis pela sua divulgação. Não há outra consequência possível... o demais resvalaria para a bacoquice de imediatamente absolver os escutados só porque divulgaram o que disseram ao telefone;
2) A mais disso, quando as escutas são lançadas a público, isso significa que elas "estão aí" e que é impossível fazer de conta, no comentário político, que elas não existem: são factos e afirmações proferidas pelos visados, que não podem escapar ao juízo de quem as ouve. Não há como enfiar a cabeça na areia e só fica bem a quem apoiou ou apoia os escutados reconhecer isto mesmo;
3) Tornou-se praticamente impossível ter uma opinião livre e desengajada em qualquer parte do mundo: há um exército de próceres que segue e apoia cegamente certas personagens, sem se importar com o óbvio, defendendo o inacreditável, por mais que fira os olhos;
4) Para mim, não há esquerda nem direita no que é óbvio: os casos de Lula e Sócrates metem-se pelos olhos dentro;
5) Com o parágrafo anterior não me refiro à sua responsabilidade jurídico-penal: estou-me aliás nas tintas (até certo ponto) para ela. O que me interessa é a sua responsabilidade POLÍTICA, mesmo a que não é feita da prática de crimes (e que certamente deve transcendê-la);
6) Mas retornemos ao óbvio: há alguma circunstância em que possa defender-se que o que Sócrates já admitiu ter feito (e que possa não constituir crime - por exemplo, os pedidos de dinheiro incessantes a CSS e a compra de livros em quantidades industriais) possa escapar a um juízo meramente político? É óbvio que não. Livre (se for juridicamente inocente dos crimes que lhe imputam) ou preso (se tiver cometido crimes), é evidente que Sócrates se comportou de modo politicamente inaceitável (em qualquer das hipóteses) e que não tem condições (mínimas) para gerir a coisa pública (que é nossa): para chegar a esta conclusão, basta atentar no que o mesmo já teve que admitir como verdadeiro. Ponto final;
7) O episódio "ministerial" de Lula é tão patético que é óbvio que só pode pensar-se que este homem está disposto a tudo para não ser investigado. Factos são factos - e o juízo público e político sobre eles não pode (nem deve) ser evitado. As coisas são como são, mesmo quando há uma débil mental como Dilma (e que provavelmente não é culpada desta maleita de que padece) metida ao barulho;
8) É absolutamente evidente que, para além da responsabilidade criminal, impende sobre os políticos uma coisa diferente: a responsabilidade política pelos seus actos (e que dispensa os requisitos exigíveis para a punição criminal): ninguém obrigou os políticos a serem políticos - escolheram este caminho; lidem, pois, com as consequências da função. É a vida;
9) Mas o que é mais óbvio (e mais impressiona) é o exército de pessoas que se dispõe a tudo para contra-argumentar perante o óbvio. Esqueçam! Isto não é esquerda nem direita: é corrupção. E há corrupção grotesca (e pilha-galinhas também) quer à esquerda, quer à direita: a corrupção não tem cor. Assim como o patético e o grotesco também não.
Isto não é futebol. Não faz sentido defender a todo o transe as pacovinices e os roubos de um líder. Isto é política. Isto somos todos nós.
Chega de sectarismos bacocos. Aceite-se o que é óbvio.
Ficamos todos gratos. E a respirar melhor. Porque é óbvio.

quarta-feira, 16 de março de 2016

15 ANOS

Um estudante norte-americano decidiu ir, com amigos, para uma passagem de ano... em Pyongyang.
Foi, desde logo, uma ideia genial.
A ideia seguinte, igualmente fabulosa, foi furtar um cartaz de propaganda política do regime para trazer para casa como "recuerdo".

Correu mal.
Foi apanhado, julgado (por "crime contra o Estado") e condenado a uma fantástica pena de 15 anos... de trabalhos forçados (regista-se a clemência de ter sido poupado ao alcatrão e penas).

Genial do princípio ao fim: quer nas ideias brilhantes do condenado, quer no tipo de crime imputado, quer na pena aplicada.
Um mimo.

Jerónimo de Sousa que interceda pelo estudante. Oh... wait! He´s a yankee. No way!
Jesus Christ!...

domingo, 13 de março de 2016

As nomeações de Costa

Têm circulado notícias várias (nunca desmentidas) segundo as quais o governo actual já terá procedido a mais de 1000 nomeações (para gabinetes governamentais e quejandos).
Não me interessa propriamente a magnitude deste número: mil ou mais. Esta voracidade é característica de todos os governos do burgo (e apenas um sub-produto do "Estado Leviathan" que James Buchanan descreveu há muito).
E não é só cá, para sermos justos.

Aliás, este instinto predatório (de que PSD e CDS também sempre padeceram) tem agora uma nova justificação: é difícil aos nomeados fazerem-se rogados (quando isso sequer lhes passa pela cabeça) face às atraentes e novas condições impostas por Avoila para os funcionários do Estado.
O que interessava saber é quantos dos recentes nomeados são filiados (ou simpatizantes conhecidos) do BE e do PCP.
Isso, sim, seria interessante saber: tão-só para que se possa ter uma ideia do "preço" que Costa esteve (e está) disposto a pagar para alimentar clientelas que, agora, não são só as do PS.

Em suma: quanto "custa" manter um governo inédito em dezenas de anos de democracia?
As hordas de nomeados pelos novos governos (sejamos imparciais...) estão longe de constituir um fenómeno original e sobre o qual valha a pena dissertar (nisto, PSD, PS e CDS nunca foram diferentes - são factos).
Mas o que é novo é querer saber-se quanto "custa" (na dimensão "clientelar") o peculiar entendimento PS/BE/PCP. Isso, sim, tem interesse - para que se possam tirar as ilações devidas a respeito do que "custa" o "salutar entendimento das esquerdas".
Não é uma curiosidade sectária. É apenas curiosidade "científica".
E não tenho dúvidas de que, do ponto de vista "ético" (depois de tantos anos a perorarem a este respeito), BE e PCP estarão prontos a fornecer todos os esclarecimentos. Porque não lhes perguntam?

Factos são factos

José Ribeiro e Castro disse ontem, no congresso do CDS, o que é por demais evidente. Mas que, apesar de tudo, custa a entrar em cabeças politiqueiras (supostamente tacticistas...): que PSD e CDS não "ganharam" as eleições, sendo por isso a solução governativa actual perfeitamente "legítima".
Porque o aplaudo:
1) Não é verdade que Ribeiro e Castro assuma o que defende por despeito político (motivado por "afastamentos" de que haja sido alvo). A força simples dos seus argumentos torna aliás indiferente que assim fosse. Por alguma razão, o Congresso não o apupou;
2) Querer insistir no contrário é tão contraproducente como esperar que o actual governo caia com base na prosápia da "ilegitimidade" - por aqui, cairá lá para 2025!...;
3) Não tenho especial simpatia actual pelo CDS. Mas, caso pretenda ser uma qualquer espécie de "solução" política com futuro próximo (essa, sim, tão legítima como os festejos causados por BE e PCP terem acedido ao "arco da governação"), o CDS precisa de retirar do momento actual as vantagens do seu estatuto de pequeno partido, encostado, historicamente, pelo "voto útil". É o voto útil que justamente pode ter morrido (embora não de certeza...) no novo (e imprevisível) cenário político. E não se pode vituperar o voto útil às segundas, quartas e sextas, para o apoiar às terças, quintas e Sábados...;
4) Não houve nenhum "golpe de Estado": a prova é que ninguém está em pânico com o que aconteceu - nem cá, nem na Europa;
5) A estratégia política não se faz de "slogans" simplistas (ou de choradeiras persistentes) - a verdadeira (e eficaz), pelo menos;
6) Não acho as metáforas futebolísticas propriamente atraentes para a política (e Ribeiro e Castro, por comodidade, usou-as). De todo o modo, os arautos das teorias da falta de "legitimidade" deste governo fazem-me lembrar o Sporting (os meus amigos sportinguistas que me perdoem....): "só perdemos porque fomos "gamados" pelo "sistema"...". Pois...;
7) Claro que o actual governo pode cair brevemente, "encostado" por Bruxelas (e pelas fracturas que exigências europeias podem trazer à precária união PS/BE/PCP). Mas esse é um cenário contingente, falível e imprevisível. E que não terá nada a ver com faltas de "legitimidade", ou com derrotas (ou vitórias) "de secretaria" do governo de Costa. De resto, quanto mais perdurar a ladaínha da "ilegitimidade", mais fácil se torna que PS/BE/PCP encontrem razões para se manterem juntos;
Com efeito, factos são factos.
O resto é poesia, por mais respeitável que a poesia seja. E é.

quinta-feira, 10 de março de 2016

BENFICA: a diferença

Não são as vitórias.
Também perdemos, como os outros.

A diferença é que ganhamos (e perdemos) todos.
E que diferença quando (já perto das cinco da manhã em Macau) ouvi Rui Vitória dizer, muito sereno:
"Uma vitória justa da NOSSA parte...";
"ESTAMOS todos de parabéns";
"A equipa está acima de qualquer um de NÓS".

De facto, a diferença entre a fixação no "EU" e a humildade do "NÓS" já fazia muita falta.
Porque é o Benfica.


terça-feira, 8 de março de 2016

A liberdade para MORRER

Guardei durante vários dias comigo um texto fabuloso de Cristina Líbano Monteiro intitulado "Morrer".
O sobretítulo é "Eutanásia", como se vê neste link:
http://observador.pt/opiniao/morrer/

Tenho o gosto de conhecer a autora: primeiro, fui seu aluno; depois, seu colega. Espero que me perdoe a ousadia de agora me dirigir a este seu texto, que tanto me fez pensar.
Respigo do seu artigo - que é um grito de que, no intento último, discordo (mas de que gosto e que muito respeito) - o que, para mim, mais releva nele.
Aqui vai.

"Gostava de morrer como vivi. Com a mesma liberdade, com a mesma teimosia, com a mesma gratidão a quem cuidou de mim".
Percebo.
E percebo porque é o ser-se livre que aqui avulta.
Mas, sobretudo, aceito - porque, como mostra o texto de Cristina Líbano Monteiro, também a autora compreende o "ser-livre" como um "ser-com-o-outro", o que bem se observa aqui:
Gostava de morrer quando morrer. Receio dar ordens à morte. (…) E se cortando assim a relação com os outros, com toda a gente, ainda me faltasse dizer alguma coisa a alguém: um pedido, umas palavras de amor, de perdão…? E se rompendo assim a relação comigo própria, não chegasse a encontrar o sentido de tudo isto, da minha vida e da minha morte”?

Sem falar propriamente de eutanásia – fala em muito mais do que isso –, Cristina Líbano Monteiro dirige-se ao tema com a inteligência de sempre: privilegiando a ideia de liberdade como justificação para a sua negação ao direito à morte (e não apenas à “eutanásia”).
É o cerne da questão: no debate que aí está, é a liberdade (a liberdade de morrer, ou a liberdade de escolher a morte ou o momento dela) o tema central - e, no fundo, o fulcro dos argumentos de quem se bate pelo direito a morrer.
Cristina Líbano Monteiro sabe-o bem e foi por isso que escolheu vir por aqui. É esta a razão porque escolhe dizer – como se isso matasse a questão – que quer ser livre... para não morrer.

Como acima disse, o texto de Cristina Líbano Monteiro foi, desde logo, tão importante para mim por uma razão: porque ser livre (no caso, ser livre de recusar a morte) surge aqui como uma emanação dessa ideia fundamental de que, na verdade, só somos acabadamente “nós” na relação “com os outros” – sem eles, sem os que nos amam (ou não), sem a presença que temos neles, não existimos.
É, no modo como vejo as coisas, a verdade.
E é por isso que há um par de anos escrevi (para ler alto numa ocasião que não esqueço) que o suicídio, ao invés do que muitas vezes se ouve, não é a expressão máxima de liberdade. Porque é a opção – o exercício puro e último da vontade - de cortar irreversivelmente com os outros. 
Ora, se ser livre é, para mim, também “ser-com-o-outro” (e não só o mero exercício individual de uma vontade qualquer, porque não somos “nós” sem os “outros”) não pode o suicídio ser a expressão “máxima” do “ser-livre”. É ainda expressão de liberdade mas, amputando os “outros” de “nós”, não é o pináculo do ser-se livre. É, antes, um último reduto de liberdade – de uma liberdade já amputada (porque excindida dos outros), mas que não deixa de ser… livre.

Nas mágicas palavras de Anselmo Borges, morrer é “nunca mais ser”. Também (digo eu) porque deixamos irreversivelmente os outros.
Por isso penso compreender tão bem o grito a que o texto de Cristina Líbano Monteiro dá voz.
Sucede que se queremos falar do direito a morrer – do “direito a escolhermos a morte” (o que é bem mais do que o direito a exigirmos que nos auxiliem no acto do nosso suicídio quando já não somos aptos a praticá-lo sozinhos) – não pode ser a nossa liberdade de querermos permanecer vivos que arruma a questão da possibilidade do exercício da liberdade de escolhermos a morte.
Tornava tudo mais simples, mais certo. Mas não é assim.

Diz Cristina Líbano Monteiro: “agarro com as duas mãos, com senhorio, o meu ser em dor. Peço à minha liberdade que me acompanhe até ao fim. Autodetermino-me a morrer quando a morte vier”.
Admiro-a na sua opção – livre – de se auto-determinar a morrer “quando a morte vier”. A eutanásia (a verdadeira eutanásia – que é a pedido de quem quer morrer) não colide com isto (sob pena de se converter em mero homicídio).
Mas diz que “pede” á Sua liberdade que a acompanhe até ao fim.
Eu não “peço” nada à minha liberdade: exerço-a, pratico-a. Ela não está fora de mim.

Diz depois Cristina Líbano Monteiro: “não permitirei que ninguém me mate”.
Eu, sem o meu consentimento, também não: não suporto a ideia de que alguém decida roubar-me a vida sem eu querer. Mas quero manter a hipótese de – livremente – poder optar por um dia morrer, de poder mudar de ideias nesta vontade que hoje é a minha: a de viver.
Diz ainda Cristina Líbano Monteiro, noutra passagem belíssima:
Gostava de morrer com a mesma liberdade (ou falta dela) com que nasci. Dizem que então chorei e que foi bom tê-lo feito. Dizem que também sofri, pois talvez tendesse a viver para sempre no ambiente fechado em que até então cresci”.
Já eu não quero morrer com a mesma falta de liberdade com que nasci. Porque foi para isso que nasci – para o milagre de passar a ser livre.
Eu quero poder sonhar que voltarei ao ventre de minha mãe. E quero ser livre de acreditar que lá poderei regressar. É um direito meu.

Por fim, guardarei de Cristina Líbano Monteiro isto que também diz:
Gostava de morrer quando morrer. Não quero programar o dia em que hão-de chorar por mim. E se não chorarem? E se chorarem pelo abandono a que os votei, não por mim? E as lágrimas forem de quem se dispunha a cuidar-me, tornando-se mais pessoa, mais capaz de sentir o que a une aos outros?
Digo eu:
As lágrimas de quem se dispunha a cuidar-me serão também as minhas – as mesmas com que morrerei nos olhos.
E o choro dos que chorarem pelo “abandono a que os voto” será fugaz; não lhes imporei, assim, um sacrifício insuportável. Porque me amam, compreendê-lo-ão (amando-me porque amam o que sou “eu” e as minhas escolhas a cada momento; tal como os amo por serem” eles”): é isso que significa amarem-me.

A minha teimosia é (também) querer dar ordens à morte - mesmo que não possa. Porque compreendo a morte como a celebração da vida (que amo): não há morte sem vida, mas não haveria vida sem morte.
Sim, sou livre.

Obrigado pelo Seu texto, Cristina Líbano Monteiro.