quarta-feira, 29 de junho de 2011

GRÉCIA HOJE

Podemos privatizar-te? (VI)


RTPN




0 catastrofista


Foi a 26 de Maio de 2008. Já lá vão mais de 3 anos. Azedos.
Basílio Horta (agora deputado eleito do PS) exercitava o país imaginário de Sócrates.


Podemos privatizar-te? (V)

Continuas privatizado


A parte boa do episódio Bairrão (a única, aliás) reside na circunstância de não ter acedido ao Governo alguém que se opunha à privatização da RTP, ou, pelo menos, do inefável Canal 1.
Mesmo no Ministério da Administração Interna, a influência haveria de ser funesta.



Moral da história: cá se fazem, cá se pagam. E não se metam com o Arruadas.

terça-feira, 28 de junho de 2011

FECUNDADO



Facto: uma das habituais "inconfidências" de Marcelo Rebelo de Sousa, desta vez, fez com que alguém se tramasse a uma escala incomum - o desemprego, nos dias que correm, não é apetecível (mesmo quando se tem, em princípio, algum "mercado").

Consequência: porque (o seu "comentário") vive disso (entre outras coisas), Marcelo fez, neste caso, com que Bairrão deixasse de poder viver do emprego que tinha.

Questão: será que o mediático professor de direito dissertará, para a semana, acerca da magna questão de saber se os danos que causou são RESSARCÍVEIS?

Há muito boa gente que responderá, de bom grado, à pergunta.


No início deste "verão quente", aqui fica a edição "vintage"


 

O Hércules de Vancouver

O Ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, esteve recentemente numa feira de artesanato onde, perante o espanto dos jornalistas, afirmou que gostaria de ser tratado não por "senhor ministro", mas sim pelo seu primeiro nome - Álvaro.
Embora não concorde com estas influências anglo-saxónicas, assim como não concordo com outras  importações culturais  (halloween, sambas e afins), por uma questão de espaço útil de escrita (e só apenas isso), vou-me referir ao sr. ministro por Álvaro.
O Álvaro, segundo alguns rumores, seria primeira escolha para secretário de estado mas, perante algumas negas, acabou ministro. Até aqui tudo bem.  Afastado do país há muitos anos, acabara de voltar a Portugal para ser ministro e de uma pasta importantíssima para o futuro do país. Era um regresso em grande (qual D. Sebastião), só que - já diz o povo - "não há bela sem senão" e, em vez de ter sob sua alçada um ministério importante mas limitado à economia, inovação e energia, esperava-o um super, hiper, mega ministério, com diversas pastas além das já mencionadas (emprego, turismo, obras públicas, transportes e telecomunicações). Diga-se, aliás, que não tenho memória de um ministério com tantos secretários de estado (6) como vai ter este da economia.


Assim, prevejo duas hipóteses: ou o Álvaro tem a força, a coragem e a liderança do lendário Hércules, ou, dentro de alguns meses, vamos estar aqui a comentar a sua saída prematura do governo e a consequente divisão deste mega-ministério (em dois ou três).
Boa sorte, Hércules. Aliás, Álvaro!

RSN

segunda-feira, 27 de junho de 2011

A condição africana


Aqui não era Luís Bernardo quem estava a dirigir as tropas.

Bem Seguro

Decerto que a maldade que a TVI fez a Sócrates aquando do anúncio do pedido de ajuda ao FEEF/FMI ainda está fresca na memória dos que viram. De todo o modo, o episódio fica aqui:


Vem isto agora ao caso porque o homem (o "Luís") a quem Sócrates pergunta insistentemente se "fica melhor assim ou assim?" já tornou público que acompanhará António José Seguro na corrida à liderança do PS.
De seu nome Luís Bernardo, assessor de Sócrates nos últimos 6 anos (e elemento-chave do seu inner circle), é militante do PS (secção de Queluz) e amigo de Seguro.
Dadas as relações tensas entre os fiéis a Sócrates e os apaniguados de Seguro, depreende-se que Luís Bernardo deve ser bastante versátil.
Uma coisa é certa: A. J. Seguro pretende ficar bem na fotografia. E a máquina já está ligada.

Marcelo Rebelo de Sousa (II)

Ontem, fiz aqui referência ao facto de o comentário na TVI de Marcelo Rebelo de Sousa não prenunciar nada de bom - alguma coisa tinha que estar a correr mal na constituição do governo.
Hoje, já se percebeu: BERNARDO BAIRRÃO!

Marcelo não dá ponto sem nó.


A verdadeira troika

Num dia em que se conheceram os secretários de estado e sensivelmente 10 dias depois de terem tomado posse os ministros deste governo de coligação, a grande questão interna com que Passos Coelho (sim, espera-se que seja ele) se vai debater será como gerir, com estabilidade e eficácia, ministros e secretários de estado oriundos de três realidades/sensibilidades completamente diferentes.

Vai ser necessário liderar, gerir e harmonizar 3 grandes grupos (a verdadeira troika):

1-      militantes do PSD;

2-      militantes do CDS-PP;

3-      independentes sem qualquer experiência política.

No primeiro grupo, foram impostos ao líder de governo alguns nomes que não geram consenso dentro do PSD, alguns inclusive tiveram que ser “encaixados” em pastas que não seriam por natureza as suas e contra algumas distritais do partido (ex.: distrital do Porto versus Aguiar Branco). Estes serão em princípio leais ao PM, mas tentarão obviamente impor as suas ideias/convicções aos restantes membros do Governo, até porque sentem que o resultado das eleições legitimou essa posição dominante. Acontece que foram colocados em pastas de menor importância estratégica e em ministérios que não terão folga financeira para implementar os seus projectos nesta fase de “caos económico-financeiro” que Portugal enfrenta.

No segundo grupo, a liderança será feita através de Paulo Portas, já que os nomes propostos pelo CDS-PP são companheiros de muitas viagens do líder do partido, e esse será porventura o maior problema para Pedro Passos Coelho: como influenciar, liderar alguém que já é liderado de forma tão intensa e competente por um político experimentado.

No terceiro grupo, residirá, provavelmente, o maior problema. Se a independência é vista pelos portugueses como um bom trunfo nos tempos que correm, como vai o nosso PM liderar um conjunto de pessoas com provas dadas no mundo universitário/empresarial, como vai impor as suas ideias quando elas não coincidirem com as convicções (de uma vida inteira) dos independentes, convicções que foram inclusive passadas por muitos deles para o papel (livros; blogues; revistas; etc.), como vai o PM evitar que afirmações despropositadas do ponto de vista político sejam proferidas por pessoas que não têm a tarimba necessária para lidar com os media (e quem não se lembra do caso Campos e Cunha)?

Admirei a coragem do PM na escolha do seu governo, mas como disse o novo (e ultra-elogiado) Ministro das Finanças vai ser preciso ter sorte, pois cada declaração proferida fora do contexto, cada medida anunciada de forma leviana e não exequível, custará muito dinheiro a Portugal. É que os investidores, depois de quinta-feira, vão ter os ouvidos virados para Portugal – e convém dizer aquilo que eles querem ouvir.

Assim, a missão não se afigura fácil. Mas esperemos que esta troika se entenda. Pelo interesse nacional, claro.
RSN

O grande imbróglio

Uma boa perspectiva do tremendo imbróglio que se poderá desencadear no caso de ocorrer um default da Grécia (ou de Porugal, Irlanda, Espanha, etc.) pode ser visto no artigo (do The New York Times) para o qual remete este link.

Vale a pena ler.
Prevê a possibilidade de uma borrasca épica. E à escala global. 



O River Plate desceu de divisão pela 1ª vez em mais de 100 anos

O River Plate, de Buenos Aires, empatou em casa (1-1), perante 52.000 espectadores, com o Belgrano de Cordoba. Caso não ganhasse, o River descia de divisão. Estão aqui os golos:



Para quem ignore, Boca Juniors e River Plate são os dois "grandes" de Buenos Aires - uma espécie de Benfica e Sporting daquelas paragens.

A dramática descida de divisão do River é, pois, um facto histórico no futebol argentino, o que deu azo a distúrbios de grande magnitude na capital (ver este link).

As imagens do final da partida ficam aqui:



Ao ritmo a que andamos a seguir as pisadas da Argentina, talvez uma destas, um dia destes, também aconteça por cá.
Como costumava advertir Vasco Pulido Valente, "o mundo está perigoso".


Here we go!





Futre e (ainda) os votos de Fernando Nobre

Consta ruidosamente por aí que, dos 21 votos nulos registados na 1ª votação para a Presidência da AR (na qual Nobre obteve 106 votos), 15 tinham lá escrito "Eu voto no Futre".


Dado que o PSD tem 108 deputados e que há a certeza que vários deputados do PS votaram em Fernando Nobre, é certo que Futre também equipa de laranja.
A bola é mesmo redonda.


domingo, 26 de junho de 2011

Boas notícias (III)

João Filipe Queiró aceitou ser secretário de estado do ensino superior do novo governo.
Depois de Crato, esta é outra notícia excepcional.


Estou estupefacto pelo facto de, logo num momento destes, se anunciar a chegada de pessoas superiormente inteligentes à educação e ao ensino superior.
Claro que lhes farão a vida negra. Mas vai dar trabalho.


Marcelo Rebelo de Sousa

Marcelo Rebelo de Sousa acabou de dizer, no seu habitual comentário semanal na TVI, que o governo de Passos Coelho "entrou com o pé direito" e que o primeiro balanço "é muito positivo".
Logo, deve estar alguma coisa a correr mal.



Parece que também já o descobriram aqui!





sábado, 25 de junho de 2011

Podemos privatizar-te? (IV)

Nobre TAP

Depois da falsa partida com Nobre, parece (sublinho: parece) que Passos Coelho não arrancou melhor com a tirada dos vôos em "económica" na TAP (ver notícia neste link - consta que as viagens de membros do governo na TAP custam nicles).
A ser assim, trata-se do desfecho merecido para um golpe de propaganda medieval. É que, nesse capítulo, Sócrates era mais competente.

Goodfellas? No. Taxi driver!




"Are you talking to me?"


sexta-feira, 24 de junho de 2011

quinta-feira, 23 de junho de 2011

J. Ferreira do Amaral sobre o euro

João Ferreira do Amaral explicou ontem na SIC notícias, serenamente e com uma clareza dolorosa, as razões que o fazem acreditar que uma saída de Portugal da zona euro é uma inevitabilidade - trata-se de mera questão de tempo: em 2014 ou, no máximo, em 2015, estaremos confrontados com essa dura realidade, pressupondo que não abdicaremos de pagar aos nossos credores (sob pena de nos vermos afastados dos mercados de financiamento por um prazo insuportavelmente longo).


Ferreira do Amaral vê no défice da nossa "balança de pagamentos" a razão daquela inevitabilidade e não acredita que a eurozona inverta na medida necessária os mecanismos que tem usado para responder ao que a ameaça.
Deste modo, perante a impossibilidade de garantirmos a "discriminação positiva dos bens transaccionáveis" (já não temos tempo para isso), tudo se reduz, na sua opinião, a termos coragem para colocar, desde já, o problema sobre a mesa, encarando-o de frente e sem alarmismos (esta parte agrada-me sobremaneira). Na sua óptica, a grande vantagem deste exercício lúcido analisa-se na possibilidade de a saída do euro ser "apoiada" (ou "com ajuda"), de modo a que não se processe com a brusquidão e os inconvenientes que afectaram, por exemplo, a Argentina no início da década (com o fim da paridade peso-dólar). Isso permitiria, por exemplo, que as aplicações financeiras existentes no país (depósitos bancários incluídos), mesmo com o renascimento do escudo (forçosamente desvalorizado em cerca de 25-30%), vissem garantido o seu valor em euros (aqui a clareza já não foi tanta...).
Após ter encetado uma vasta e interessante análise da conjuntura global actual (o que envolveu referências ao impacto que também terá para a zona euro a mais que provável turbulência que assolará os EUA a partir de Agosto), Ferreira do Amaral não se coibiu, com plena honestidade, de assumir que a sua visão dos problemas assenta em pressupostos que são discutíveis - mas identificou claramente o tipo de pensamento económico a que adere (e que condiciona a sua visão do que aí está) e não o absolutizou.
De entre as várias comparações com interesse, incluída aquela que identifica a nossa actual situação (de recusa em analisar todos os cenários) com o que já fizemos durante a Guerra Colonial (em que esperámos, até ao fim, pelo apoio americano, por muito que ele parecesse impossível), Ferreira do Amaral teve ainda tempo para explicar, com o exemplo da ex-RDA (cuja moeda foi absorvida pelo marco da Alemanha Federal, não obstante as enormes disparidades entre as economias em causa), as razões que o fazem crer que não seja solução viável a actual política da UE consistente em encharcar de subsídios (isto é, apoios que nada resolvem em termos estruturais) os países da periferia da eurozona (o modelo que, grosso modo, está a ser usado nos "resgates").
Em suma: muito e bom material de reflexão, honesta e serenamente exposto. E sem mensagens subliminares de política partidária doméstica.


Fica aqui a prova, se necessário fosse, de que o papel do novo ministro das finanças não deverá nunca resumir-se, sem mais, à implementação do programa da troika.
Para além disso (que não é pouco), há muito mais para antecipar, pensar e decidir.

Pacheco Pereira

Há mais de uma década que insisto em admirar Pacheco Pereira, insensível aos altos e baixos da sua visibilidade e da sua aceitação conjuntural.
Sem nunca ter trocado palavra com ele, Pacheco conquistou aquele lugar perverso no círculo de amigos imaginários que, cada um de nós, menos inconscientemente do que cremos, acaba por construir.
Como tal, Pacheco não esteve sempre acessível e, às vezes, era eu que o afastava por uns tempos (normalmente, exausto da sua persistência) - mas estava sempre quando era finalmente chamado pela minha vontade outra vez: quando era, enfim, necessário ou simplesmente solicitado, ao que sempre acorria com a sua constância (tão precisa) de inteligência, tenacidade e crença.
Como se faz com os amigos - que são sempre poucos - aprendi a respeitar Pacheco. E regozijava-me de cada vez que o encontrava (num artigo, no flashback ou, depois, na quadratura) com opinião parecida com a minha, o que variava com o calor do momento, dado que Pacheco teimava em não abandonar os seus, defendendo-os, por vezes, para lá do absurdo - mas sempre com a inteligência e a tenacidade que já lhe assaquei.
Assim, entre muito mais...
Vi Pacheco a defender o cavaquismo dos seus mais mordazes críticos, mesmo quando Cavaco se tinha já tornado a caricatura de si próprio e os que o rodeavam não conseguiam já disfarçar a putrefacção de uma década de poder executivo endinheirado.
Vi Pacheco a criticar implacavelmente o período áureo do Guterrismo, quando ainda não estavam à vista os seus vícios e o seu desnorte, e quando era quase suicídio mediático atentar contra a suposta superioridade intelectual da terceira via.
Depois...
Vi Pacheco a zurzir Pedro Santana Lopes como ninguém e a exibir, com o poder que poucos tiveram, a insanidade dos seus 6 meses de Governo.
Vi também Pacheco, sem receios, e sem tergiversações, condenar implacavelmente a liderança de Menezes - a quem nunca deu tréguas, nem fez concessões (pelo menos, ao vivo e a cores...) - enquanto, com a mesma ferocidade e empenho, denunciava Sócrates nos seus "momentos Chávez" e punha a nu as diferenças que existiam entre o país que Sócrates publicitava e aquele que realmente existe.
Sempre - fosse ou não possível concordar com ele ao longo de tantos anos - com a constante de que o que Pacheco dizia transpirava crença: olhava-se para Pacheco e ele, de facto, resplandecia, pela única razão de que o homem - por arte ou genuinidade - simbolizava uma espécie (muito particular e cheia de cambiantes) de discurso livre (e que se algum interesse servia era apenas o seu, o que nunca me repugnou particularmente). O comprometimento era apenas com a sua agenda - e da sua agenda, parecia sempre constar o que lhe parecia justo e são, não obstante as modas e a maioria das restantes opiniões.


Provavelmente vítima de si próprio, Pacheco Pereira é hoje uma sombra do que descrevi.
Está sombrio e rezingão. Opaco. Exuberantemente desinteressante.
Por um único motivo: porque a sua agenda lhe impõe hoje que defenda pouco mais que nada.
Fiel a si próprio, Pacheco fala hoje apenas em honra a si e aos seus ódios (justificados ou não). E, portanto, o país passou a estar completamente ausente das cogitações que subjazem às suas críticas, aos seus remoques e ao seu azedume.
Só percebi agora que, durante todos estes anos, fosse a opinião de Pacheco a que fosse, o que a tornava interessante e válida era o facto de o país, mais ou menos remotamente, ser sempre a razão última das coisas que, mal ou bem, ía dizendo (e, logo, da sua agenda).
Hoje, o país já lá não está. E Pacheco, perdido, tacteia erraticamente à procura de uma qualquer fé que não se resuma a acreditar nele próprio.
Sem brilho, claro.

Até depois.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Podemos privatizar-te? (III)



Bernardo Ferrão - privatizado a tempo


PMP/HDF

Vai-te privatizar!

Mais inconsequências


O BE é a maior inconsequência do nosso sistema político.
É um luxo caro e supérfluo.
Porque não é um partido político.
Um partido faz-se de causas, de ideologia e de um projecto de acção - e nada disto existe no Bloco: apenas a demagogia interesseira do anti-poder e o oportunismo da anti-esquerda (que o ódio ao PCP sobejamente revela).


Salvam-se, à conta dos seus atributos, Daniel Oliveira e Ana Drago.
Há (sempre) males que vêm por bem.




JMS/HDF

terça-feira, 21 de junho de 2011

Está resolvido!!!

                                                        
(som da bancada parlamentar do CDS durante a votação para a presidência da Assembleia da República...)

Podemos privatizar-te? (II)


(Foi na RTP. Quanto aos intérpretes, ambos foram já privatizados)

Goodbye Sócrates

Hoje, primeiro dia de Verão no calendário, o PR deu posse ao novo Governo.
O Arruadas, ciente de que o adeus de Sócrates constitui uma perda insuprível para a animação da blogosfera, deixa-lhe aqui um tributo, na voz (mágica) do enorme Stevie Wonder.

Podemos privatizar-te?



A frase de Daniel Oliveira

"O ódio aos políticos chegou a um ponto em que a inexperiência executiva é vista como um bom currículo para os novos ministros".

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Inconsequências


JMS

O chumbo de Nobre

Nobre acaba de "não passar" no plenário e, honrosamente, recusou-se a ver o seu nome submetido a uma terceira votação.
É, com todas as letras, o primeiro revés político de Passos Coelho. Não vale a pena aribuir-lhe outro epíteto.
Um desaire que é ridículo: no estado em que está o país, é incompreensível que o Parlamento, numa questão que reveste significado meramente simbólico e burocrático, tenha logo tratado de enfraquecer politicamente quem tem pela frente tão espinhosa missão.
Pior. O desaire é ridículo e, sobretudo, desnecessário: foi Pedro Passos Coelho quem deu azo a este seu primeiro revés, ao ter-lhe ocorrido a aritmética brilhante de ir buscar Fernando Nobre - não era preciso, nem rendeu votos.
Mas a mensagem mais forte que fica a ecoar é a que Portas fez questão de deixar: os votos dos deputados do CDS serão sempre necessários para que o PSD de Passos sobreviva nos próximos quatro anos.
O poder também está no Caldas. E Portas quis mostrar que está disso ciente.

Outra vez?

António José Seguro, louvavelmente, veio dizer que quer "abrir" o PS:



Será que não há candidato à liderança do PSD ou do PS que não diga isto?

Boas notícias (II) - Um "ministério para a educação" em vez de um "Ministério da Educação"

Para quem quiser saber porque é que a nomeação de Nuno Crato como ministro da educação é uma boa notícia, deixo aqui o link para um vídeo que descobri no Corta-fitas.

Que diabo, basta ouvir Crato falar para se perceber que... são mesmo boas notícias tê-lo como ministro.


Aquilo que Nuno Crato sintetiza na fórmula "um ministério para a educação" (e ele explica o que isto quer dizer, conferindo à ideia um conteúdo que definitivamente nada tem que ver com um mero slogan) demonstra, por si só, que ele é o homem certo no lugar certo - porque compreende, desde logo, que o ministério anda a fazer, há anos, aquilo que não é suposto que faça: tem que fazer (e bem) muito menos do que hoje faz (abandonando um maximalismo insuportável e sem sentido) e deixar de se avaliar a si próprio (que é o que hoje faz quando avalia os alunos apenas com o objectivo de propagandear resultados).

Resta uma consolação caso torpedeiem o que Crato planeia fazer (o que, de resto, é o mais provável): já não podemos descer mais fundo do que estamos. Boa sorte.

domingo, 19 de junho de 2011

A Politicoesfera e o despertar de um génio

Há poucos dias, explicitei aqui a excelência da análise política com que João Lemos Esteves nos vai brindando na sua Politicoesfera.

Para quem não sabe, a Politicoesfera (ver) integra o núcleo de blogs a que o Expresso online entendeu dar voz, certamente pela sua qualidade excepcional.

Curioso acerca das qualidades que Lemos Esteves vai evidenciando, encontrei aqui um bom exemplo delas, nos comentários que teceu a propósito do debate televisivo travado entre Paulo Rangel e Aguiar Branco, aquando da última corrida à liderança do PSD:


Fiquei esclarecido.
O futuro do comentário político está a salvo.

Portas - a propósito de "no comments" e... "pastilhas"

Paulo Portas viu um post no Arruadas que não foi do seu inteiro agrado.
O tal post consistia essencialmente neste vídeo:


O MNE sentiu-se incomodado e requereu o direito de resposta.

O Arruadas preferiu formular-lhe uma pergunta que garantisse a possibilidade de o visado esclarecer o conteúdo do famigerado vídeo.

Aqui vai a ansiada resposta:



No comments again, man...

Mas podes pôr no teu facebook, se quiseres mesmo...

E este?

Pelos vistos, outra "pastilha" (Portas dixit) para ser tomada.

Never mind.

We still have hope.
And we still trust you. We have to.

sábado, 18 de junho de 2011

Inconsequência

Estreio-me como ARRUACEIRO para apresentar uma leitura diferente da que o arruaceiro-mor (HDF) apresenta em relação ao novo governo.
Directo ao ponto - não pode haver estado de graça para este governo. A equipa anunciada carece de um elemento fundamental para o período que se avizinha: consequência.

A equipa que se apresenta é composta por um grupo de políticos sem experiência técnica de fundo nas matérias respectivas ou um grupo de técnicos sem experiência política. Tudo bem, nada disto seria particularmente grave se todos eles tivessem a capacidade de "fazer acontecer". O programa da Troika está desenhado; o grande desafio é executá-lo. Não são necessários grandes pensadores técnicos ou visionários políticos no muito curto prazo (no longo prazo, sim, mas isso é outra questão) - a prioridade é não ir à falência.

Assim, é preciso quem tenha energia e liderança para mover mundos e fundos para implementar o grupo assustador de iniciativas que nos espera. E, de todos os que se apresentam no elenco governativo, o único que tem um histórico de "fazer acontecer" é o novo ministro da saúde - não lhe invejo a sorte...

Todos os outros são um apanhado de feitos significativos nas áreas respectivas, mas irrelevantes à escala dos desafios que se colocam.
- O Ministro da Educação que se dedicou à divulgação da Matemática (certamente de forma brilhante, mas irrelevante como experiência para implementar processos de avaliação para 120 mil pessoas);
- Uma doutorada em Direito a tratar de agricultura, mar, etc.: certamente douta na "transmissão contratual do direito de crédito", mas sem um único elemento no seu CV que indicie ter liderado um grupo de pessoas superior ao conjunto da empregada doméstica e da secretária;
- O Ministro das Finanças apresenta inúmeras publicações num currículo relevante na sua área respectiva, mas, mais uma vez, não se lhe conhece actividade sequer comparável a controlar o que os outros 10 ministros gastam. Aproveito aqui para deixar a minha farpa: referir o BdP como exemplo de competência é altamente dúbio - nos últimos 10 anos, na única função relevante que o BdP ainda tem (supervisão bancária), apareceram um BPN e um BPP... estranho que ninguém ataque quem devia estar atento;
- O Ministro da Economia, cuja maior façanha são artigos de opinião e um blogue interessante, e que sai de uma Universidade prestigiada, mas secundária no teatro global da Economia: se queriam académicos, era preciso ir buscar os tubarões - o Sérgio Rebelo ou o Luís Cabral....

E por aqui poderia continuar. O meu ponto-chave é: tudo pessoas respeitáveis e certamente muito competentes no seu historial - mas completamente inconsequentes face à escala do nosso desafio.

Os nossos Governos com técnicos extraordinários e com políticos de carreira fazem inúmeras leis, regulamentos, portarias e decretos que são tratados de boa conceptualização, mas não "fazem acontecer". O exemplo da nota 10 dos exames no CEJ é isso mesmo: uma não-acção feita para ser tão inconsequente quanto possível. Os objectivos, metas e planos publicados em DR que, se alguém se desse ao trabalho de ler com atenção e documentar o respectivo não cumprimento, ilustram o nosso fado. É esta a nossa história. E assim continuará a ser, pela amostra que se apresenta. "Inconsequentes".
Mas deixo uma nota: espero estar enganado.

JMS

O presente envenenado

Diz-se por aí (sim, é apenas um rumor e, por isso, vale o que vale) que Paulo Rangel foi convidado por Passos Coelho para ser ministro (o Expresso, na edição de amanhã, dirá o mesmo).
Rumor ou não, isto torna interessante uma certa exercitação (como agora está em voga dizer-se) de análise.
Sobretudo se for verdade, como o rumor pretende que seja, que a pasta oferecida a Paulo Rangel foi a da Educação (e Ensino Superior).
Se isto for verdade, fica à vista o que há muito se sabe: Passos Coelho respira política por todos os poros - com o que isso tem de bom e de mau.


Oferecer a Paulo Rangel o ministério da Educação colocava Passos Coelho, desde logo, na posição confortável (no interior do partido) de não lhe poder ser imputada a não formulação do convite - o facto é: Passos convidou Rangel, ponto final.
Convidou-o, claro, mas para uma pasta que Passos Coelho sabia que Rangel dificilmente aceitaria: o problema estava resolvido logo à partida. Aos mais fervorosos adeptos de Rangel não restava senão ficarem mudos e quedos.
Porém, o que faz da jogada um decalque dos manuais de táctica política é a margem de vantagem que deixava em aberto para o caso de as coisas não correrem conforme esperado.
É que se Paulo Rangel porventura aceitasse o convite, isso significaria que Passos Coelho o sujeitaria a exercer funções, em princípio durante quatro anos, num domínio em que é praticamente inevitável um brutal desgaste político (a que o prestígio acumulado por Rangel não delapidado na candidatura a líder do PSD improvavelmente sobreviveria).
Em suma: em qualquer dos casos, um tiro certeiro (e, em alguns cenários, mortal).
Consta que a política também se nutre disto.


PS - Sim, no ARRUADAS também se comentam "não-factos".

Boas notícias

O regabofe dos trogloditas

Sem que isso interesse muito ou pouco, teimo em gostar do Arrastão.
Contudo, o último post de Sérgio Lavos (ver aqui) só pode ser para "regabofe" (como ele diz) de um troglodita.
Com tanto para poder criticar (e gozar), Lavos preferiu babar-se com o que não tem piada, nem nexo.
Deprimente.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

O peso de Gaspar

O novo ministro de Estado e das finanças chama-se Vítor Gaspar.
Uma pesquisa rápida inculca que o homem tem um currículo académico e técnico prestigiante. A pesquisa foi mesmo necessária - e nisso não há mal algum - porque o grau de notoriedade mediática da personagem era nenhum (o que até pode ser bom augúrio).
Certo é que a política monetária da UE é dos temas que mais estudou e que os corredores de Bruxelas lhe são familiares: ingredientes necessários para os tempos que correm.


Vítor Gaspar dar-se-á a conhecer como ministro rapidamente, dada a urgência das primeiras decisões que terá que tomar (e saber explicar), pelo que é escusado tentar antecipar qual será o seu desempenho. Travaremos conhecimento apertado com ele a muito breve prazo.

O que há para registar neste momento é a incontornabilidade de uma evidência: Passos Coelho decidiu entregar a pasta mais sensível e relevante deste Governo a alguém cujo currículo político equivale a zero. E cuja influência e experiência políticas são igualmente nulas.

Estou convencido de que este Governo, ao contrário do que parece óbvio, beneficiará de algum estado de graça (pelas razões que expus aqui), mas isso carecerá de um desempenho minimamente aceitável no domínio da comunicação e gestão políticas de todos os acontecimentos que se avizinham.
Aquilo que teria sido uma aposta certamente louvável em outras circunstâncias - uma lufada de ar fresco centrada na competência estritamente técnica - pode, na conjuntura actual e na que se segue, não se revelar a melhor cartada. A estrita competência técnica e científica poderia ter ficado reservada como critério para a escolha dos Secretários de Estado do ministério, em complemento da opção por um ministro com grande peso na área financeira, vasta margem de manobra política e não menor influência. Com peso num Conselho de Ministros (bicolor) que passará a vida a exigir-lhe dinheiro (e cada vez mais, dia após dia).
Passos Coelho ou escolheu caminho diverso, ou viu-se forçado a escolhê-lo.
Veremos o que isto dá.
E é bom que funcione.

O novo Governo

Finanças - Vítor Gaspar (google still searching...)
Economia - Álvaro Santos Pereira
Negócios Estrangeiros - Paulo Portas
Justiça - Paula Teixeira da Cruz
Administração Interna - Miguel Macedo
Assuntos Parlamentares, Autarquias e Desporto - Miguel Relvas
Educação e Ensino Superior - Nuno Crato
Segurança Social - Pedro Mota Soares
Agricultura, Ambiente e Território - Assunção Cristas
Saúde - Paulo Macedo
Defesa - José Pedro Aguiar Branco

Secretário de Estado Adjunto do Primeiro-Ministro - Carlos Moedas
Secretário de Estado da Presidência do Cons. de Ministros - Marques Guedes

fonte: Diário Económico, 18h05

A premonição

Lobo Xavier disse ontem, na Quadratura, que o próximo ministro das finanças não deveria ser "alguém que fique com cara estranha quando lhe falam na curva de Phillips".


Resultado: Bento ficou de fora.

Porque quis, claro.
E isto, evidentemente, apesar de dominar a curva de Phillips desde a 4ª classe.

A verdadeira ARRUADA

O despautério no caso do CEJ

Por razões que me abstenho de enunciar (e, convém esclarecer, nunca pisei o chão do Limoeiro), tenho um especial pudor em opinar sobre o CEJ.
Essas razões não me impedem, todavia, de sublinhar o óbvio: o já (tristemente) célebre caso do "copianço" (ver aqui) não vem a calhar.
A inoportunidade tem que ver com o dado simples - esse sim, muitíssimo relevante - de que o CEJ, nos últimos tempos, vem definhando em ritmo acelerado. Como escola e, pior, como instituição.
O caso do "copianço", sintomático disto mesmo, gera assim o risco de fazer com que a nuvem seja tomada por Juno: o fundamental seria discutir as razões (e os efeitos) da progressiva desvalorização do CEJ e do seu papel como instituição independente (e de excelência) formadora de magistrados. Numa palavra: as causas da sua degradação. Qualitativa e institucional. Não esquecendo, claro, que já fomos um dos exemplos de ponta na Europa no que toca ao sistema (ao modelo) de formação de magistrados.
Isto assente, limito-me a formular um juízo sobre a sanção que foi desencantada para o lamentável episódio da fraude nos testes do CEJ. Não sem dificuldade, diga-se, porque a solução encontrada é de tal modo absurda que a racionalidade acaba, quase por inteiro, toldada.
Quis a direcção do CEJ aplicar a todos aqueles que realizaram o teste - quer aos que patentemente copiaram, quer aos que não aparentam tê-lo feito - a mesmíssima sanção: nota de dez valores (isto é, nota mínima para aprovação)!
A solução singulariza-se por um aspecto absolutamente determinante (e estarrecedor): não é justa para quem quer que seja. Logo, é aterradoramente injusta para todos!
Quem copiou é absolvido com dez. Quem não copiou, ou é premiado com a mesma nota (10) - nos casos em que o teste realizado não chegaria para tanto -, ou é punido com ela (nos casos em que o teste realizado mereceria avaliação mais generosa).
Mais: o anátema da intrujice recairá sobre todos.
Em suma: uma solução kafkiana, com todos os requintes inerentes.
E uma solução desnecessária. Era, por exemplo, possível anular todas as provas e ordenar a sua repetição (com novas questões, esclareça-se -  e convém mesmo esclarecer, porque nenhum cuidado é pouco quando se resolvem problemas assim).
Triste, para lá do evidente, é que tudo isto reforce o que da Justiça vem sendo dito (cada vez mais ruidosamente). Agravando, assim, evidentemente, um dramático círculo inextricável: a Justiça piora porque não pode conviver com a degradação da sua reputação. Quanto mais piora, mais desfigurada fica a sua imagem. E assim por diante.
Nisto, também estamos a caminho do insuportável.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Missing in action

Sem razão

Daniel Oliveira, no arrastão, continua hoje o folclore iniciado pelo artigo de Pezarat Correia (agora, entretanto, publicado).
O artigo de Pezarat nunca foi, como alguns disseram, censurado. Não foi, a princípio, publicado: um jornal não tem que publicar todos os artigos de opinião que lhe são enviados. O juízo de não publicar é criticável. Mas não arrisca ser apodado de censura.
Daniel Oliveira, com a lucidez do costume, não imputa o pecado censório ao jornal em causa. Mas adere à opinião de Pezarat: na essência, Portas não poderia voltar a ser ministro depois de ter dito que "viu" as provas da existência de armas de destruição em massa no Iraque, muito simplesmente porque tais armas nunca existiram. Portas teria, pois, mentido e, em consequência, ficado inibido, para sempre, de desempenhar altos cargos na nação.
Ora, é aqui que Pezarat e (por arrasto) Daniel Oliveira não têm razão.
Não têm razão porque sabem que um ministro da defesa nem sempre pode dizer a verdade, justamente em honra aos superiores interesses do país. No caso, podia estar em causa uma justificação deste tipo.
Depois, porque não vale a pena brandir argumentos que tresandam a um puritanismo exacerbado: na Europa, e em outras partes deste mundo, foram vários os que juraram que havia as tais provas.
Porém, o que fundamentalmente é decisivo para que a argumentação não proceda tem a ver com a parte da "mentira" (que é o cerne da questão).
Portas disse que "viu" as "provas".
Quem pode garantir que, ao dizê-lo, estava a "mentir"? Em bom rigor, ninguém: as "provas" que Paulo Portas diz ter visto podem ter sido forjadas (e lembro-me que Collin Powell, na ONU, apresentou algumas, em versão vídeo). Basta ter ocorrido isto (o que é bastante plausível) para que Portas fique absolvido da infracção que tanto impressiona Pezarat e (agora) Daniel Oliveira.
Deve haver "mentiras" piores no currículo de Portas. Ou não.

Qual Nobre?

Precisamente

"Em política, é necessário pensar para lá das evidências, quase sempre tão atractivas como ilusórias. Digo isto tendo em mente a "evidente" viragem à direita do eleitorado, que reuniu um número de votos significativamente superior ao de toda a esquerda somada.
Trata-se de um dado inquestionável, mas sobre cujo significado convém reflectir, quer tendo em conta o actual contexto de crise em que o País vive quer tendo presentes os novos parâmetros da democracia contemporânea e o modo como os cidadãos a vivem e praticam. Deste ponto de vista são três os pontos a sublinhar, que condicionarão fortemente os próximos tempos.
O primeiro é que os resultados de 5 de Junho traduziram (como de resto acontece cada vez mais frequentemente) muito mais uma rejeição do poder em funções, e sobretudo de quem o protagonizava, do que verdadeiramente uma opção. Este facto torna os primeiros tempos cruciais para o novo primeiro-ministro: lembro que, numa circunstância análoga, em 2002, foi justamente esta a prova que Durão Barroso não conseguiu passar, tendo este facto pesado no fracasso do seu mandato.
O segundo é que, a par com a mudança de maioria, que teve uma clara expressão política na "coligação" PSD/CDS, nestas eleições manifestou-se também, e de diversas formas, uma intensa insatisfação com a nossa democracia, que não se deve ignorar: com a forma da representação, com o papel dos partidos, com a selecção dos elegíveis, com a falta de clareza dos processos de deliberação, com a irresponsabilidade dos decisores, com a corrupção dos agentes políticos e não só, tudo a apontar par uma profunda descredibilização da democracia portuguesa que, na trajectória de crise aguda em que nos encontramos, pode ter consequências tão inesperadas como nefastas. (Foi a este estado de espírito que o "10 de Junho" deste ano deu mais destaque, infelizmente na forma de uma catilinária tão saudosista quanto frustre, que mais parecia uma leitura das "farpas" da Campanha Alegre de Eça de Queirós, já lá vão 140 anos!...)
O terceiro ponto tem a ver com o significado das eleições nas democracias individualistas de massas, em que vivemos. Tradicionalmente, o voto aprovava um programa e escolhia um governo, que tinha quatro anos para, sem grandes perturbações, o executar. Mas também aqui a tradição já não é o que era, e agora as coisas já não se passam de todo assim.
Nas eleições actuais escolhe-se sobretudo uma personalidade, numa opção que se associa normalmente à rejeição de uma outra, e o resto é uma constelação de ideias, de intenções e de sinais que ficam à mercê da opinião pública e do incontornável, complexo e contraditório jogo de interesses que ela traduz, através dos poderosíssimos instrumentos mediáticos que todos conhecemos bem.
Dizer-se, como se tem dito, que nestas eleições o programa da troika foi aprovado por 80% dos portugueses, somando os votos do PSD com os CDS e os do PS, é um disparate político que não tem correspondência na realidade. De resto, se assim fosse, por que razão os mesmos que o proclamam se haveriam de mostrar tão preocupados com o abismo que se pode abrir entre a maioria política e a maioria social?!...
É fundamental ter presente que a democracia - e insisto neste ponto há muito tempo - deixou nas últimas décadas de funcionar com base na confiança cega e no cheque em branco. Pelo contrário, ela funciona crescentemente com base na suspeita e no escrutínio permanente, que só podem aumentar - e muito! - em época de crise. A democracia desdobra-se hoje em dia numa permanente, multiforme e intensa contrademocracia, como Pierre Rosanvallon tem mostrado em análises fulgurantes, que os nossos políticos ganhavam muito em estudar.
Apesar de ser nas eleições que ela nasce, a confiança dos eleitores nas sociedades contemporâneas não fica, contudo, refém do voto. Ela fica como que suspensa, na expectativa da acção que lhe dê consistência, combinando diversas legitimidades que se cruzam com a do voto, nomeadamente as da participação e a da deliberação, que se afirmam - como vemos todos os dias - de formas cada vez mais inesperadas.
É por tudo isto que fico intrigado, e inquieto, com a frequência com que Pedro Passos Coelho tem prometido "ir além" do que o Memorando assinado com a troika estabelece. A margem de manobra é muito estreita, a situação não permite voluntarismos iluminados de qualquer espécie. Pelo contrário, ela aconselha muita prudência e, sobretudo, que antes de se olhar para o "além", se olhe com um lúcido realismo ali para o lado, para a situação da Grécia, de modo de tirar as lições que se impõem. E a tempo!".

Manuel Maria Carrilho, DN (texto parcial), 16.06.2011

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quarta-feira, 15 de junho de 2011

Pergunta do dia: O que fazer com Nobre?

1- Propor o homem para presidente da AR;
2- Fazer dele ministro (sem pasta);
3- Privatizá-lo.

A infecção

Parece que ainda restam muitos defensores da ideia de que a RTP não deve ser privatizada. E consta que Paulo Portas lhes é sensível.
Pelo que me pude aperceber, já só é a (suposta) necessidade do famigerado "serviço público de televisão" que resta como argumento aos arautos desta ideia genial.
Que o Estado esteja falido (sim, falido) e que a lição destes tempos seja sobretudo a de que não é possível viver acima das possibilidades (muito menos sustentando luxos patentemente supérfluos) é coisa que não parece impressionar esta gente.

Sendo assim, é escusado lembrar - porque quem defende a RTP pública não quer ouvir - que esta empresa custa centenas de milhões de euros por ano aos cofres estaduais, que os contribuintes zelosamente pagam. 
Como é escusado recordar que a RTP integra o lote das 10 empresas públicas que concentram 90% das responsabilidades financeiras geradas pelo famoso "sector empresarial do Estado" (SEE), cujo volume total ascende a qualquer coisa como ao equivalente a quase 10% do PIB (isto que se saiba, claro, porque, no que ao SEE diz respeito, as surpresas são inesgotáveis).

A única opção que resta é, pois, explicar que a RTP, hoje, não presta "serviço público" algum.
O único serviço que presta é desinformar e deformar.
A RTP desinforma porque, tal como anos infindáveis já provaram, nada rivaliza com ela em matéria de obediência cega aos poderes que estejam instalados: se o governo é "rosa", os decrépitos telejornais são insuportavelmente rosados; se o governo é "laranja", os paupérrimos conteúdos informativos são incontornavelmente alaranjados. Jornalistas apavorados com a influência de quem, no momento, manda são o ingrediente certo para programas de informação que ninguém consegue ver; entrevistadores subservientes em função do que dita a conjuntura política falam por si, e não há quem suporte ouvi-los.
Nem me venham com o argumento de que a inexistência de um "serviço público de televisão" gera o risco de os canais privados (alguns, hoje, a informar 24h por dia) poderem monopolizar tendenciosamente a "informação". É que se o problema é este, a solução está, obviamente, em gastar um vigésimo do que custa a inefável RTP, dotando uma autoridade reguladora séria de meios capazes e poderes efectivos.
Mas a RTP não se limita a desinformar. A criatura deforma, porque não é possível que os espíritos e os gostos fiquem incólumes perante a grelha da programação que os canais públicos, ano após ano, vão servindo. Neste ponto, abstenho-me de exemplificar: já ninguém conhece os programas, de tão fracos que são. Claro que vale aqui a consolação de que os canais privados não oferecem, em geral, melhor prato. Porém, há um pormenor que não é de somenos: não somos nós a pagar.


Já sei que a argumentação seguinte passa por afirmar que tudo o que ficou dito não é falso, mas que a conclusão a tirar é a de que, então, o que efectivamente necessitamos é de uma "outra RTP", que verdadeiramente cumpra a sua "missão" de "serviço público".
Puro engano. E demasiado caro.
É impossível pretender, num país com a nossa cultura e as nossas tradições, que as coisas mudem, em tempo útil, no que toca à subserviência que os funcionários do Estado precisam de manter face a quem os dirige.
É inútil acreditar na ideia de que algum bom gosto se imporá na programação - não é dele que as pessoas estão à procura e (honra lhes seja feita) são elas que decidem o que querem (e, portanto, devem) ver.

É, por isso, que privatizar a RTP é absolutamente necessário: porque, como as coisas estão no país e atendendo ao que o monstro custa, é absolutamente evidente que não há outra opção racional. Isto, sobretudo, quando está sobre a mesa - como hoje está - a hipótese de se privatizarem empresas que exploram monopólios naturais.
O que me preocupa, aliás, é que haja esse pormenor desagradável (e nunca descurável) quando se privatiza: é preciso que alguém queira comprar.
Se ninguém quiser comprar, então não vendam. Fechem, muito simplesmente: desmontem e vejam-se livres das peças! - o mercado publicitário já fica agradecido (depois de tantos anos saturado e distorcido). O país e os contribuintes também.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Porque é que Seguro ganha de certeza?

Porque (sobretudo no PS) toda a gente acha que Assis é bom tipo.

Que barrete!

Garcia Pereira recusou patrocinar a acção de Portas contra Ana Gomes.


Já nem às pequenas diversões temos direito!

As virtudes da ignorância

Patético-esfera

João Lemos Esteves, na sua Políticoesfera do Expresso online, brindou-nos ontem com mais uma das suas memoráveis pérolas (http://aeiou.expresso.pt/eu-desiludido-com-cavaco-silva-me-confesso=f655197).
A luminária, que há um par de semanas atrás, nos explicou, magnanimamente, que Sócrates venceu claramente o debate com Passos, vem agora confessar, preocupado, que está desiludido com Cavaco Silva.
É caso para perguntar: de que é que o menino estava à espera?
A interrogativa, porém, é inútil, porque o autor, depois de assumir ter votado em Cavaco, logo nos revela que, no seu superior entendimento, "o primeiro mandato foi mau; o segundo caminha no mesmo sentido". Ficamos esclarecidos: Lemos Esteves achou os primeiros 5 anos medíocres e, por isso, decidiu sufragar a recondução do homem que, agora, o "desilude".
Mas há mais. Ficamos também a saber que o desencantamento de João Lemos Esteves com o PR tem a ver com um feeling. Sim, um feeling.
O seu "feeling de que, com um governo PSD/CDS, Cavaco Silva muito, muito raramente irá suscitar a fiscalização de constitucionalidade de actos legislativos - e só em circunstâncias muito excepcionais (um diploma que é um total absurdo jurídico) vetará. Perante este cenário, somos levados a concordar com o entendimento popular de que estar Cavaco Silva no Palácio de Belém ou não estar, é a mesma coisa".
Palavras sábias e místicas.
Tradução: como o país está bem e goza de boa saúde (sobretudo financeira), sem precisar de estabilidade política, o João Lemos Esteves, depois de ter votado Cavaco a segunda vez, está decepcionado com a perspectiva de que o PR não entre em grandes regabofes de vetos e guerrilhas de constitucionalidade, fazendo frente ao novo Governo. Compreende-se: o PS está de rastos e, portanto, devia ser Cavaco a garantir a animação do comentário político (que o João, zelosamente, acha que faz).
De entre as preciosidades que o autor dá à luz, destaca-se ainda a seta (certamente mortal) que dirige ao PR: Cavaco deveria ter-se recusado a dar posse ao último Governo de Sócrates - que assim tivesse assegurado que o país não descansaria e que Sócrates ficava para sempre credor da "injustiça" que o afastara do poder são problemas menores. É que agora temos quatro anos de relativa paz (e, para o João, de tédio) ao virar da esquina.
Surpresa, ou talvez não. Também já tínhamos ficado a saber que a fiscalização da constitucionalidade de actos legislativos é para ser suscitada "dia sim-dia não". Senão, há razão para ficarmos decepcionados.
Mas o João, sempre prestável, não quer que fiquemos com dúvidas. E, por isso, alerta-nos: "Atenção: o problema não é os poderes do Presidente da República. É, isso sim, a interpretação que Cavaco faz dos poderes presidenciais constitucionalmente consagrados".
Obrigadíssimo.
Não votei Cavaco. Mas fiquei com vontade.