sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Bom Natal

Quis eu - e o destino também - que este Natal seja passado na Ásia.
Depois do desencanto (nem sei bem por que razão) com os últimos Natais, far-me-á bem que assim seja. Re-aprenderei - como tantas outras coisas que já soube (e que agora descobri outra vez) - o valor do Natal.
Do que já estou certo é de, outra vez, ser capaz de dizer (coisa que nos últimos anos não fiz, por não conseguir fazê-lo senão com inteira genuinidade): Bom Natal!
Muitas vezes - e para muitas coisas - é preciso estar longe. Não pelo prazer de ir ou de ficar. Mas pela alegria de voltar.

 

domingo, 24 de novembro de 2013

Growing up

 


"The greatest enemy of knowledge is not ignorance, it is the illusion of knowledge".

Game over


Kasparov vs Magnus Carlsen

 

Em 2004, Kasparov jogou num torneio - como o video demonstra - contra Magnus Carlsen. Carlsen tinha 13 anos de idade e um comportamento desconcertante. Empataram.
Esta semana, Carlsen sagrou-se campeao do mundo de xadrez (contra Anand).
Chamam-lhe o "Mozart do Xadrez". Quem o treina? Kasparov.


 

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O meu encontro com Kasparov


Hoje conheci Kasparov.

Na minha imensa insignificância, confesso que não resisti à tentação de o olhar nos olhos. Tentei repetidas vezes – para lhe captar a expressão deles. Saboreei-o umas poucas.
Disse-lhe, no fim daqueles curtos minutos: "It was a great honor to meet you".
Logo no momento seguinte, compreendi que nunca uma formalidade tinha feito tanto sentido quando dita por mim a um estranho.
Foi como apertar a mão a um pedaço da História. Perturbante mas feliz.
E era apenas um homem.


PS – Ainda era dia 20. Kasparov veio a Macau (onde estará dois dias) para promover a sua candidatura a presidente da FIDE. Oxalá ganhe.



sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O verbo e a alma (Savimbi)


O verbo e a vontade


Sad but true (os relatos e o Benfica deste ano)



"O futebol tem o dobro da piada quando é visto através da rádio. Os profissionais do relato transformam um jogo de futebol numa tempestade de raios e coriscos. No relato, os futebolistas calçam uns patins homéricos e deslizam por ali como deuses gregos, como criaturas aladas que só precisam de três segundos para irem de uma baliza à outra, e há sempre adrenalina mesmo quando a bola está num meinho entediante, a nossa equipa está sempre na iminência de marcar golo mesmo quando a bola está no nosso guarda-redes. Não por acaso, a minha reacção ao meu primeiro jogo no estádio foi um lapidar "pai, eles correm devagarinho" . Habituado a ver o Benfica pelos relatos da Renascença, achei estranha a lentidão do jogo ali no estádio. Afinal, não eram deuses com asas, só gajos com chuteiras. Aliás, confesso que nunca me reconciliei com a velocidade normal do jogo. Sempre que vou ao estádio fico com a sensação de que estou a ver o slow motion de uma coisa que devia estar em fast forward.  
Invoco os santos dias da rádio para ter os instrumentos certos para descrever o entediante Benfica deste ano. É que o Benfas 13/14 é um bocejo até na rádio. Nem os relatos conseguem dar alguma beleza a esta equipa. Os homens que relataram para a Renascença o jogo de quarta-feira não escondiam o tédio. E a modorra é mais do que justificada, diga-se. Acorrentada ao trauma da época passada, presa a um treinador que não pode respeitar, a equipa não corre, não pensa, não arrisca.  O Benfica 13/14 é tão entusiasmante como quatro velhinhas a jogar canasta. Sim, o último Benfica de Jesus é um fenómeno geriátrico.
O contraste com o passado recente é doloroso. O Benfica de Jesus fazia lembrar o Isaías, isto é, fazia dez remates em dez minutos, era um frenesim de oportunidades e golos, uma descarga neptuniana de electricidade. Finalmente tínhamos uma equipa que jogava à velocidade dos relatos da rádio. Durante quadro anos, o ritmo do relato e o ritmo do jogo estiveram irmanados, os relatadores não tinham de inventar nada, só tinham de descrever. Mas aquele Maio luciférico apagou a electricidade, que não voltará tão cedo. Nem o mais genial dos relatadores pode dar magia a esta equipa".
 
Henrique Raposo - Expresso online



quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Sócrates: o texto (Daniel Oliveira)





Já se sabe que acho Daniel Oliveira um dos "comentadores" (seja lá o que isso for) que melhor pensa em Portugal.
Discordo dele muitas vezes, mas nem por isso deixo de apreciar como pensa bem.

E um texto demonstra, quase sempre, como pensa - bem ou menos bem - quem o escreve. Não é (como tantas vezes tentam vender) um problema de estilo, de vírgulas, de acentos, ou de gramática. Não. Um bom texto tem um fio, uma textura indecifrável, e (porque não dizê-lo?) uma matemática oculta, que deixa assinada - a traço mais ou menos grosso - a inteligência de quem o escreveu.

O mais recente texto de Daniel Oliveira é, para mim, a prova de tudo isto (ver o link aqui). E - insisto - não concordo com grande parte do que lá vem dito. Mas é um texto - e que texto.

Se quiserem ver a diferença - e porque o assunto é o mesmo -, façam o favor de dar uma saltada aqui (ver link).

Repito: a diferença não está no estilo, na técnica (que, no último caso, é rupestre), ou na gramática. Está mesmo no contraste entre a inteligência do verbo e a pura acefalia.
É pena, mas é mesmo assim.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Táctica e estratégia (a vida imita o xadrez)

 
 

Durante anos - e não é exagero - procurei uma síntese simples que expressasse bem a diferença entre táctica e estratégia.
Trata-se de algo que todos intuímos, mas cuja subtileza se presta pouco ao carácter (forçosamente) estático dos conceitos.
Há um par de meses, descobri em "A vida imita o xadrez" (de Kasparov) a imagem perfeita daquela diferença: o momento da táctica é aquele em que o jogador é forçado a mexer uma peça (sendo que, no xadrez, não é possível "passar"); a estratégia está presente mesmo quando não há peça alguma para mover.
Afinal, a vida imita mesmo o xadrez.
 


sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O empreendedorismo e a farsa

Nos últimos tempos tenho-me insurgido muitas vezes contra a conversa fiada do "empreendedorismo". Mas não tenho tido arte nem engenho (e, algumas vezes, paciência) para tornar convincente o que pretendo dizer.
Tenho percebido que passo, quase invariavelmente, por inimigo dos que ousam "inovar" e "empreender".
Nao é nada disso, claro.
 
Do que sou (e serei sempre) obstinadamente antagonista é da retórica do "empreendedorismo".
 
O empreendedorismo não é dizer balelas e truísmos com ar convincente. É fazer.
O empreendedorismo não pode ser convertido numa desculpa para diminuir o que se gasta com a instrução de uma população ainda hoje largamente iletrada. E que, agora, parece convencida de que vai "empreender", mesmo que saiba pouco ou nada (e achamos sempre que sabemos muito) sobre quase tudo.
 
O empreendedorismo jamais pode ser uma retórica porque não é passível de ser ensinado ou transmitido num toque de Midas. É uma pena mas é verdade: ou se é empreendedor ou nao se é. E não há mal algum em não ser, diga-se.
 
Se gosto de empreendedores? Em geral, sim. Bastante. Porque os admiro.
Só que há poucos. A esmagadora maioria dos que se apresentam como tal (e estou a pensar no Portugal dos últimos anos, onde eles pululam) são apenas desinteressantes e cansativos, quase sempre navegando na mais olímpica ignorância e estupidez.
 
O "empreendedorismo" que tenho visto a ser vendido em pacotes (inclusivamente por algumas figuras proeminentes no país) é apenas um número reles de pacotilha e que normalmente redunda numa desculpa primária para não fazer nada. Em suma: uma prosápia requentada tão patética quanto, por vezes, imoral (por amesquinhar os outros, tomados sempre por menos espertos).
 
Vou tentar ilustrar com um exemplo (que os "empreendedores" a que me acabei de referir jamais compreenderão porque acharão todos que estão do lado certo da equação):
 
 
 
 
 
Um fala do que já fez. O outro fala do que os outros devem fazer.
Um está preocupado com ele. O outro está preocupado sobretudo com o vizinho.
Um fala 7 minutos. O outro tem direito ao dobro do tempo.
Um vende bens. O outro vende lugares comuns (copiados de almanaques baratos) com um embrulho modernaço.
Um tem nos olhos estampada a inteligência. O outro fere os olhos por pretensiosamente achar que é mais inteligente que os demais.
Um vende uma ideia. O outro teve um cargo por iniciativa governamental.
Um rechaça numa penada o comentario hostil e invejoso. O outro tem a turba com ele, embevecida pela arte do espertalhão que demonstra que, afinal, tudo é simples.
(Sim, porque segundo esta "doutrina", é sempre tudo muito simples. Os outros é que não pensam, é que não sabem, é que nao vêem...)
 
Ah, e tal... Mas essa conversa é só porque um é um "menino da linha" e o outro podia ter nascido no Linhó.
Não! Trata-se do que eles dizem e tão-só disso mesmo: experimentem tapar a imagem dos vídeos e concluirão que é disso que se trata. Aliás, nunca preferi o que é benzoca.
 
Convém, aliás, notar que não há aqui culpa de ninguém: tanto um como o outro estão a fazer pela vida, coisa que, essa sim, respeito (porque há também os "empreendedores" de sofá, que são ainda piores). Só que um faz por si; o outro faz a vida à custa do desânimo dos outros: vende ideias (pueris) - coisa a que tem direito - e há quem, desesperado, as compre.
 
Enfim.
É uma chatice ser útil saber ler e escrever (até porque fica caro para os pais e para o Estado).
É uma chatice dar jeito estudar e aprender a fazer, competentemente, qualquer coisa (o que agora se confunde com "perda de tempo" porque, afinal, "não é preciso nem vale a pena").
E é muito aborrecido ter que parar, às vezes, para pensar com tino nas coisas, em vez de só se gastar tempo a pretender fazer com que outrem pense que já pensámos em tudo.
 
Por isso, o que está na moda é brincar aos empresários.
Ou, pelo menos, dizer que se conhecem alguns, com quem passámos 5 inolvidáveis minutos.
E depois bullshitar outra vez. De preferência, sem parar. Até os outros serem vencidos pelo cansaço.
 
Resumo-me à minha insignificância: não sou um empreendedor. Nem dos bons (o que tenho pena), nem dos maus (o que é um alívio).
Nao crio - isso de certeza - "propostas de valor", ou "sinergias". Nem vejo "para além da curva".
Mas se um dia esse talento - o de verdadeiramente empreender -, por uma coincidência feliz, me calhar em sorte, não vou perder tempo a maçar os outros, lembrando-lhes o quão pouco "empreendem". É que terei pouco tempo senão para, simplesmente, fazer.
 
 
PS - Ricardo Araújo Pereira criticou os personagens dos dois vídeos. Com a inteligência habitual, zurziu o homem que "bate punho". Mas criticou também o outro. Mal. Porque o fez somente com o argumento de que o Martim se pôde financiar com os pais, enquanto a generalidade das pessoas o não pode fazer. E daí? Sugerirá RAP que quem tem meios deve cruzar os braços?
 
 
 
 

sábado, 22 de junho de 2013

Crisis

 
 
 
Everything is condensed into one single moment,
it decides our life Franz Kafka.
 
The best indicator of a chess player's form is to detect the climax of the game - Spassky.
 
Crisis really means a turning point, a critical moment when the stakes are high and the outcome uncertain. It also implies a point of no return.
This signifies both danger and opportunity…
 
 
 

domingo, 9 de junho de 2013

O medo

 
O medo é, seguramente, uma das mais sublimes alquimias da alma. Com incontáveis virtudes.
Falo do verdadeiro medo: não de meros receios (os quais, por serem pequenos – e votados ao simples instante –, não têm a nobreza da perenidade do medo), ou do pavor (cuja natureza estridente o desfalca das qualidades indispensáveis para ser mais do que uma emoção). Muito menos falo do temor a alguém.
Refiro-me, pois, a ter medo (não a “estar com medo”) – tranquila e efectivamente, sem pejo em admiti-lo, como é monopólio de quem é inteligente. E, sobretudo, corajoso.
A diferença reside em somente “estar com medo” de partir, porque se pode, daquela vez, não voltar, ou ter, tão-só, medo de partir, sem mais (afirmando, se preciso for, que se tem o prazer de ficar).
Das coisas que mais me enternecem nesta vida são as tiradas dos que, solene e enfaticamente, declaram que nunca têm medo – de coisa alguma, jamais.
Os que melhor se exercitam neste embuste (cara-a-cara ou com plateia) costumam fazê-lo olhando-nos nos olhos. E o impacto é, quase sempre, considerável, variando apenas em função do talento do intérprete. Tudo mercê do poder de sedução da inexistência do medo. Não só porque todos temos medo, mas também porque nos ensinaram, insistentemente, que a ausência dele é requisito da perfeição.
Eu sorrio.
Não por ter assistido, em alguns casos, a um exercício de desonestidade. Mas por saber que, quase sempre, acabei de testemunhar um simples grito de revolta e de desespero. De alguém para quem o medo é particularmente insuportável, graças ao medo de o encarar: por ter medo de ter medo – coisa que, honestamente, nunca senti.
 
Sem surrealismos, começo pelo medo de crescer.
Sim, crescer. E descobrir, um dia de cada vez, que deixaram de ser responsáveis por nós. Que as nossas criancices e os caprichos delas já não têm porto seguro. E que, agora, já cuidamos de outros. Que vão crescendo também.
Crescer é também ser livre.
E da liberdade também se tem medo, a menos que não se entenda a maravilha que é dela fruir: medo do fascínio pelo devir da permanente escolha; do travo amargo das consequências; da adrenalina do passo a mais; do beijo que se quis que ficasse para a próxima vida.
Não concebo também que não se tenha medo da perda – da perda do outro. Do corte irreversível com o que é parte de nós. E da certeza de que, no limite, restará ninguém.
Há também quem tenha medo de se sentir feliz. Desse desnudamento. Como se a felicidade disso dependesse e se escapasse, como que por entre os dedos, mal dela damos conta.
Há ainda os que têm medo de amar. De se entregarem. Por temerem ficar reféns dessa dádiva.
Eu tenho medo da insanidade: da impossibilidade de voltar a cair em mim. E, tantas vezes, da crueza da verdade.
Mas não tenho medo de “ter medo”.
Nunca terei, enquanto fugir da desumanidade. E enquanto correr, bem vivo, todos os dias, para superar o medo.
Hugo Fonseca
Junho de 2013

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Outra vez Kershaw

 
 
aqui falei do monumental "Hitler", de Ian Kershaw.
Agora, cruzei-me com "Até ao fim".
Trata-se de outro livro excepcional, que explica o que levou a Alemanha (o seu povo e não o seu ditador), no início de 1945, a preferir uma destruição avassaladora, em detrimento de uma derrota com menos custos.
 Na rua, já imune à propaganda, dizia-se que era preferível «um fim com horror a um horror sem fim».
A Alemanha é isto.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Herberto Hélder: Servidões


A poesia de Herberto Hélder é das poucas coisas boas que restam nos dias dilacerados que, por cá, correm.
"Servidões", o novo livro de poemas inéditos (Assírio & Alvim), é, por isso, um extraordinário momento - cada vez mais escasso - para um regozijo genuíno: uma celebração, queira isso dizer o que quer que seja.
Alguns poemas estão aqui (link), ditos por Fernando Alves (a voz dos "Sinais" da TSF).
 
Que haja mais disto.
E menos dias que sangrem. 
 
 

terça-feira, 21 de maio de 2013

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Rui Oliveira e Costa


É quase meia-noite de um Domingo normal.
Tenho o vício (felizmente, tenho vários) de ver o Trio D'Ataque na RTPN aos Domingos à noite. Podia ter-me dado para pior...
Mas, desta vez, não consegui deixar que o programa chegasse ao fim sem me agarrar ao teclado do computador.
Como a fúria é considerável (há coisas inexplicáveis...), são convenientes alguns pontos prévios:
 
- Não conheço pessoalmente o Senhor Rui Oliveira e Costa (e nem quero, mas isso é irrelevante). O que escreverei é sobre a personagem televisiva que o cavalheiro incarna.
- Não tenho rigorosamente nada contra o Sporting ou os adeptos do Sporting, para lá das rivalidades saudáveis de quem gosta de futebol e é adepto de outro clube rival. Sou amigo de imensos sportinguistas e não me lembro de me aborrecer seriamente com ninguém por causa de futebol (coisa diferente seria, aliás, surreal).
- Sendo adepto do Benfica (que sou), não deixo de apreciar a inteligência, a tenacidade ou a capacidade argumentativa de variadíssimos comentadores da nossa praça que zurzem o Benfica, por serem adeptos do FC Porto ou do Sporting: acho que faz parte das regras do jogo e inclusivamente simpatizo com a maior parte dos mais conhecidos. Por exemplo: acho Miguel Guedes (indefectível portista), quase sempre, feliz nos comentários que faz (embora quase nunca concorde com ele...), aprecio a genuinidade de Eduardo Barroso (como já aqui escrevi uma vez) pesem embora muitos excessos em que vulgarmente se deixa cair, e achava uma piada imensa, muitas vezes, a Pôncio Monteiro. Como acho, de resto, a Dias Ferreira, malgrado o estilo.
- Gosto de ver futebol e, sobretudo, do Benfica, ainda mais este ano, reconheço, por duas razões simplicíssimas: porque o Benfica tem jogado bem e porque me resolvi decididamente (de há quase um ano para cá e não sei por quanto tempo mais) a não ver quaisquer programas de televisão que não sejam puramente lúdicos (nos quais o futebol se inclui). É uma espécie de resistência tenaz contra o estado de coisas que aí está, mas essa é conversa para outro dia.
 
Dito isto, quero ir directo à questão: Rui Oliveira e Costa (ROC) é, seguramente, o indivíduo mais repugnante que me lembro de ver em televisão. É uma espécie de pústula que ressalta no que possa haver de menos sadio.
Não me refiro ao facto de ROC ser um completo ignorante em matéria de futebol e ser comentador residente de um programa televisivo votado ao assunto. Nisso não há problema de maior. E até podia ter piada. Mas não tem. E não tem porque ROC amesquinha os outros por não perceberem (tal como se passa com ele) rigorosamente nada do tema: foi assim, por exemplo, com António Pedro Vasconcelos, a quem desdenhosamente ROC, com a educação que lhe é característica, disse, em directo, por mais do que uma vez, e com sorriso trocista e tom acintoso: "tu não percebes nada disto".
Com ROC passa-se um fenómeno raro na espécie humana: ROC não percebe nada de coisa alguma. O drama é que ROC se acha um especialista. E em várias coisas.
 
ROC acha que sabe de bola. Mas não faz a mínima ideia do que é um jogo de futebol. As suas análises aos "4x2x3x1" e aos "4x4x2" de várias equipas (em que insiste em espraiar-se) são exercícios delirantes para puro deleite dos psicanalistas.
ROC acha que sabe de sondagens, mas basta-se com a tabuada. Daí que a sua "eurosondagens" atribua vitórias eleitorais ao seu amigo José Couceiro. E que se irrite com ferocidade (como uma vez também aconteceu com António Pedro Vasconcelos, num directo da RTP) quando lhe recordam que é incapaz de lidar com um computador e com as suas funcionalidades mais básicas (como o e-mail!).
ROC acha que sabe de política americana, de sistemas eleitorais e de organização estatutária das entidades societárias e associativas, como é o caso do "seu" Sporting. E ROC acredita piamente que sabe mesmo, a ponto de nas últimas eleições para a presidência dos EUA, num directo da SIC, ter insistido (agarrado a um papelinho com contas de merceeiro), mesmo perante os resultados dados como "fechados" pela CNN e pela CNBC (que, com certeza, só terão asnos, na opinião de ROC, a fazerem contas), que Obama ainda corria o risco de perder em Estados nos quais a vitória lhe era imprescindível.
E, claro, ROC sabe também imenso de Direito e, por isso, diz que as escutas do "Apito Dourado" foram ilegais e um verdadeiro atentado, mesmo que um juiz as tivesse autorizado.
 
Perguntar-me-ão: e qual é o problema?
Eu respondo: nenhum, como, em geral, acontece sempre com a ignorância profunda e obstinada. Não vejo problema nenhum no facto de ROC, por exemplo, não perceber que as escutas não foram "ilegais" (ele costuma dizer, preocupado, que, por isso mesmo, nunca as ouviu, embora eu fique na dúvida se é mesmo essa a razão, ou antes o facto de ele não saber aceder ao youtube), mas que apenas não tiveram validade probatória no tipo de processos que estava em causa.
Repito: neste tipo de coisas, em que a profunda ignorância de ROC é ostensiva, não vejo problema algum, à parte da sua saliente veia opinativa.
 
No que vejo problema, e largo, é na soberba com que abre a boca. No ar infecto de superioridade com que fala dos outros, mesmo valendo zero.
Dou o exemplo clássico: ROC é implacável com as capacidades linguísticas de Jorge Jesus (JJ).
No Trio D'Ataque, foram inúmeras as vezes em que despudoradamente fez troça da maneira como Jesus se exprime nas conferências de imprensa. ROC baba-se de gozo com os pontapés na gramática dados por JJ e com as metáforas usadas por ele. Mas ROC fá-lo ao mesmo tempo em que, repetidas vezes, acrescenta um "s" às segundas pessoas do singular: "percebestes?", "compreendestes?", "fizestes". Ora, o que dizer quando o autor destas cavalidades se dá ao requinte de troçar do português falado pelos outros? Só uma palavra simpática me ocorre: um quadrúpede.
Mas, no que a isto diz respeito, o momento mais alto é invulgarmente atingido nas numerosas vezes em que ROC decide fazer um "SUPÔNHAMOS", nos programas em que pegajosamente participa. Sim, um "supônhamos". Com ar majestático, ROC entrega-se frequentemente a este tipo de exercícios: "façamos aqui um supônhamos que o Sporting não ganha ao Casa Pia..." ou "façamos aqui um supônhamos que o Benfica não ganha a liga Europa...". Apetece sempre responder-lhe: "supônhamos" que não eras um imbecil? O mundo não seria, certamente, o mesmo.

 
Falta só a parte (porque a paciência não dá para mais) para aquilo a que Miguel Esteves Cardoso, um dia, crismou de culambismo, num brilhante artigo de O Independente.
Os culambistas estão sempre com quem ganha, sujeitando-se às mais patéticas faltas de coerência.
ROC é um culambista profissional. E exasperante, pois torna-o de tal modo notório que ascende ao zénite do mais fedorento dos culambismos.
Não me recordo, até hoje, de ter assistido a um exercício de Pyongyang TV mais flagrante do que o episódio do Trio D'Ataque em que Godinho Lopes (já com a sua direcção exangue) foi o convidado. Como me lembro bem do que inúmeras vezes ROC disse  (pouco menos do que o pior possível) de Bruno Carvalho quando este era apenas um candidato à presidência do Sporting e o silêncio total (pontuado por elogios tímidos) que pratica hoje.
ROC, ao que consta, chegou a dizer que rasgaria o cartão de sócio se Bruno Carvalho ganhasse. Mas claro que preferiu manter-se como representante do Sporting num programa de televisão quando o clube passou a ser presidido por ele.

Termino com a interrogação que me assaltou o espírito no momento em que acabei de escrever estas linhas: não acharão também os simpatizantes do Sporting tudo isto grotesco?
Para saciar a minha curiosidade, decidi visitar o que se diz no maior fórum do Sporting Clube de Portugal na internet sobre este personagem. Está aqui (ver link).
Confesso que vou dormir mais descansado.

sábado, 4 de maio de 2013

Um amor (quase) perfeito



Era o primeiro jogo da história do River Plate na 2.ª divisão argentina: a suprema humilhação para um clube histórico. Chovia a cântaros, num dia fadado para silêncios fúnebres. Puro engano.
Ao que se assistiu foi à celebração impressionante de um amor puro: o mais irracional e, também por isso, um dos mais enternecedores: o amor por um clube de futebol ("cada vez te quiero más", cantavam os adeptos).
Um amor puro e quase perfeito. Porque não é pelo Benfica.


De regresso


segunda-feira, 11 de março de 2013

Somos o que partilhamos

 
Dizem-me (em especial, um amigo comum muito chegado) que Diogo Vasconcelos era um homem verdadeiramente excepcional.
Não tive a sorte de o chegar a conhecer. Mas quando morreu, em 2011, pensei sempre vir a lembrá-lo, de preferência volvido já algum tempo sobre a sua morte, assinalando o brilhantismo do que costumava, repetidamente, dizer, tal como várias vezes me recordam: "Somos o que partilhamos".
É uma frase tão simples, quanto extraordinária (ver link). E que, ao que creio, indicia, entre outras coisas, a impossibilidade do puro individualismo e a inevitabilidade do ser-com-o-outro, em que insisto em falar.
Coisas boas.
Mas, para os mais cépticos, há sempre a alternativa: "somos o que negociamos".
Um abraço, Diogo.
 
 
 


quinta-feira, 31 de janeiro de 2013


"When I was a young man
I had liberty,
but I did not see it.
I had time,
but I did not know it.
And I had love,
but I did not feel it".

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

A mais louca corrida do mundo

É o TT (Tourist Trophy) da ilha de Mann.
Corre-se todos os anos, desde princípios do século passado. Morrem, em média, 1-2 pilotos por ano.
Não é em pista: há casas em redor, penhascos, árvores e a estrada percorrida (60 km) é a de todos os dias. A velocidades que chegam a ultrapasssar os 300Km/h.
Só visto.


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Porque é que o Benfica não ganha ao Porto?

«A pergunta também vale ao contrário: porque é que o FC Porto dificilmente perde com o Benfica, mesmo na Luz? Há três tipos de respostas possíveis: de circunstância, subjetivas e concretas. Só acredito nestas e começo com uma nota prévia: em quatro anos no Benfica, Jesus ganhou algumas vezes ao FC Porto mas não ganhou tantas quanto parecia provável, nem sequer quando parecia por cima em termos de rendimento, opções disponíveis e motivação. Como agora. E só ganhou uma vez no Dragão, para a Taça, perdendo três vezes na Luz.

As causas de circunstâncias são as que se referem às arbitragens, a uma ausência, a erros ou grandes exibições individuais. Proença, Hulk, Roberto, Emerson ou Artur explicam um jogo, não uma tendência. As subjetivas são as que se refugiam nos chavões, tão difíceis de confirmar como de desmentir, de um bloqueio anímico ante o rival, de menor maturidade competitiva, blá-blá-blá. Tretas.

Chegamos ao essencial: a forma de jogar do que chamei "gémeos falsos", candidatos com idêntico rendimento pontual mas identidades marcadamente distintas. Onde o Benfica é emoção, o FC Porto é razão, que se o Benfica faz de cada posse de bola um ataque, o FC Porto quase faz de cada ataque uma posse de bola. O Benfica só se sente confortável quando domina, o FC Porto sente-se sempre cómodo quando controla, mesmo não dominando.
Nestes jogos, o FC Porto é mais igual a si próprio, que o seu modelo não é tão arrasador contra equipas mais pequenas mas, pelo equilíbrio, adapta-se facilmente a jogos de maior exigência. O Benfica sai da zona de conforto quando não tem a iniciativa permanente e os jogadores acusam a mudança de chip se lhes pede que reparem na cara do adversário, para "marcar" Xavi ou Messi, Moutinho ou Lucho, habituados que estão a ignorar anónimos do Moreirense ou do Olhanense. Em suma, o FC Porto mantém o modelo, os princípios de jogo, mesmo quando altera o sistema, enquanto o Benfica mantém o sistema mas acaba, forçado ou deliberado, a jogar segundo princípios diferentes».
 
Carlos Daniel - DN

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Ficção científica

Segundo noticia hoje o jornal Record (ver a notícia neste link), o Sporting (sim, o Sporting Clube de Portugal) foi considerado, pela IFFHS, o melhor clube português de futebol em 2012.
Bestial!
 
 

Janela indiscreta

Quem quiser ver, com os seus próprios olhos, o relatório do FMI, pode fazer o download aqui.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Factos

 
"A menos que Cristo desça à Terra para miraculosamente estender a mão a Cristiano Ronaldo, na próxima segunda-feira, dia 7 de janeiro, Lionel Messi receberá, pela quarta vez consecutiva, a Bola de Ouro, o troféu que distingue o melhor jogador de futebol do Planeta. No momento em que for anunciado o nome do argentino, o português, impecavelmente vestido de negro, com dois brilhantes nas orelhas e três litros de gel no cabelo, olhará envergonhadamente para o chão e, depois de contar até 10 para não chorar como uma criança, encarará a audiência e esboçará um sorriso tão genuíno como umas Levi’s compradas na Feira do Relógio. Naquele segundo assassino, o Mundo identificará a agonia de alguém que há muito se encontra em estado de negação. Na cabeça de Ronaldo, Messi não é melhor do que ele. Não é mais rico do que ele. Não é mais bonito do que ele. Não. Não. Não.

Vamos aos números: em 2012, Messi marcou 91 golos em 68 jogos. Foi o melhor marcador do campeonato espanhol, com 50 golos, e venceu a Supertaça Europeia de clubes e o Mundial de clubes. Já durante esta temporada, marcou 26 golos em apenas 17 jornadas da Liga. E terminou o ano com 25 golos em jogos internacionais, igualando o recorde de Vivian Woodward, que durava há mais de 100 anos.

Agora Ronaldo: marcou 46 golos na Liga e um total de 63 (menos 28 do que Messi) em todas as competições, novos máximos na sua carreira. Para além disso, foi campeão pelo Real Madrid, num ano em que a equipa bateu todos os recordes da história do clube. E foi semi-finalista do Europeu de futebol. Esta temporada, as coisas estão-lhe a correr menos bem: o Real Madrid está a fazer um campeonato desastroso e Ronaldo – um génio do futebol cujo maior azar foi coincidir com um jogador único e irrepetível - já leva 12 golos a menos que Messi.

A distância numérica entre Messi e Ronaldo é óbvia. Mas o futebol é muito mais do que estatística - é talento, genialidade, improviso e simplicidade. E também aqui Messi volta a vencer folgadamente. Mas o que é uma evidência para quase todos os que gostam de futebol, não o é para Ronaldo. Nem pode ser, porque é desse atrito que ele se alimenta. No filme “Clube de Combate”, de David Fincher, a dada altura o personagem Tyler Durden, desempenhado por Brad Pitt, afirma que não nos podemos conhecer a nós mesmos sem que antes participemos num combate duro. Talvez seja isso que verdadeiramente está em curso para o jogador português: um processo de profunda descoberta, travestido de uma disputa fratricida carregada de ambição, obsessão e raiva. Sim, Ronaldo vai perder este combate. Mas, paradoxalmente, será o facto de o ter disputado que lhe dará o direito a figurar entre o lote dos melhores jogadores da história do futebol".
 
Fernando Esteves - Record